Mercado cripto: relembre os cinco eventos que mais marcaram 2022

Após euforia em 2021, ano ficou marcado por colapso de moedas, quebradeira de empresas e prejuízos bilionários

Foto: Shutterstock/eamesBot

Após um 2021 de euforia, o ano de 2022 foi de ressaca para o mercado cripto. E a conta da festa saiu bem cara: cerca de US$ 1,5 trilhão foi a perda de valor de mercado dos ativos ao longo dos últimos 12 meses, com a cotação das principais moedas desabando ao patamar de dois anos atrás.

A queda vertiginosa foi resultado de uma tempestade perfeita, com fatores externos e inerentes ao universo cripto. O Bitcoin, a maior moeda em capitalização, despencou cerca de 64% desde o começo do ano, cotado atualmente em US$ 16,7 mil.

No exterior, os mercados de risco em geral sangraram com o enxugamento de dólares em meio à disparada da inflação ao nível global.

Já no cenário doméstico, os ativos foram duramente penalizados por uma série e decisões – acidentais ou criminosas -, que culminaram no colapso de gigantes do setor e no prejuízo de milhares de investidores.

Apesar desse quadro mais complicado, analistas buscam chamar a atenção para a resiliência da tecnologia de blockchain – a base de todo o sistema de criptoativos -, durante o período.

Confira os cinco eventos que mais mexeram com o mercado cripto em 2022

O dia em que a Terra desabou

Após atingir o recorde de US$ 69 mil em novembro de 2021, o Bitcoin (BTC) passou por correções e entrou em 2022 negociado na faixa de US$ 48 mil – queda de 30%.

O movimento de queda se intensificou no início de maio com o colapso da Terra Form Labs, responsável pelo protocolo Terra (LUNA) e pela stablecoin USTD. Somente na primeira metade daquele mês, o BTC despencou 21%, cotado em média a US$ 30 mil.

O desabamento da Terra tem origem no complexo sistema de blockchain do grupo. As stablecoins, ou “moedas estáveis”, são ativos criptografados que buscam lastros em ativos do “mundo real”.

Em alguns dos exemplos mais famosos, o USD Coins (USDC) e o Tether (USDT) usam reservas em dólar para manter a sua paridade em 1:1.

O UST, porém, é baseado em um sistema de algoritmos que busca a sua paridade com a cripto-irmã Terra. Em suma, quando um UST é emitido, a blockchain queima US$ 1 em LUNA. A lógica também vale para o inverso: quando uma unidade de LUNA é cunhada, uma de UST é apagada do sistema.

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Seguindo essa lógica, quando a cotação do UST cai para menos de US$ 1, investidores são incentivados a comprar LUNA, já que o movimento tende a diminuir a circulação da stablecoin e a forçar o seu preço para cima.

Esse ciclo até então considerado estável foi colocado a teste, após uma onda de vendas de UST na Anchor Protocol, plataforma de empréstimos para usuários da moeda, e em outras plataformas de negociação. E, para o pânico dos investidores, o ciclo não foi aprovado, isto é, não houve a correlação entre LUNA e UST.

Pedro Lapenta, head de research da Hashdex, ressalta que o movimento evidencia o momento de testes ao qual diversos protocolos de criptoativos foram submetidos durante um mercado de forte queda, algo até então inédito para a maioria das empresas que começaram a atuar durante os ciclos anteriores de valorização.

“O algoritmo havia sido desenhado para funcionar apenas em mercados de alta. Foi uma experiência financeira que deu errado, mas que dá para tirar alguns aprendizados”, resume.

Queda de gigantes

O aprendizado com a Terra custou caro. Apesar de não ainda não se saber ao certo quantos investidores foram lesados ou o tamanho do prejuízo, analistas são enfáticos em colocar a cifra na casa dos bilhões de dólares.

Grande parte das perdas foi gerada pelo efeito em cascata do colapso da Terra Form Labs em companhias e corretoras muito expostas à cripto.

O primeiro gatilho foi disparado pela Celsius, um dos maiores players, em meados de junho, com o bloqueio do acesso dos investidores aos seus ativos. Em julho, a empresa entrou com um pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos.

A crise seguiu derrubando outras gigantes do setor e chegou ao fundo hedge Three Arrows Capital (3AC) e ao grupo Voyager Digital, que também precisaram ser resgatados em meio ao cenário de insolvência e de muita desconfiança dos investidores.

“Cripto não é mais uma ilha, e vimos fundos e empresas quebrando”, assinala Alexandre Ludolf, CIO da QR Asset.

Após alguns meses de calmaria no mercado, os impactos da quebra da Terra voltaram a reverberar com a crise de insolvência da FTX, até então uma das maiores corretoras do mundo, no início de novembro.

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Após indício de que a empresa não possuía fundos, investidores fizeram uma verdadeira corrida bancária, obrigando a FTX a suspender os saques.

Seguindo o roteiro das outras gigantes que tombaram, dias depois, a companhia entrou com pedido de falência na Justiça americana.

“Vemos um dano reputacional muito grande. Quando a FTX desmoronou, arrastou muita gente. Foram milhões de clientes impactados e ainda não se sabe a dimensão desse problema em outras instituições e fundos”, destaca Ludolf. 

Criptos viram mainstream

A despeito da queda do mercado, o ano de 2022 também foi marcado pela adesão das criptos por bancos e gigantes da tecnologia. O movimento tirou parte do estigma de risco ao mercado que as criptos carregavam há anos, além de dar maior visibilidade aos ativos.

Um dos grandes nomes que aderiu aos ativos criptografados foi a BlackRock, o maior fundo de investimento do mundo. Em agosto, o grupo divulgou parceria com a Coinbase, uma das principais corretoras do mercado, para ofertar criptos aos seus investidores.

Depois foi a vez de o Google se unir à exchange para aceitar que usuários pagassem os serviços de nuvem com ativos digitais.

A disseminação das criptos entre grandes players não se restringiu ao cenário global. No Brasil, XP e BTG Pactual lançaram as suas próprias corretoras, enquanto o Nubank disponibilizou a transação de criptos para os clientes. Em paralelo, o PicPay seguiu o MercadoPago para disponibilizar aplicações em ativos por sua plataforma.

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Para analistas do mercado, essa entrada das criptos no mundo de entidades já solidificadas comprova que as apostas de valorização do mercado no longo prazo ainda estão de pé.

“Quem viu os números positivos em 2021 se tornarem vermelho neste ano tem que entender que é um ciclo que se faz no longo prazo”, diz André Franco, head de research do Mercado Bitcoin. “Foi um ano de oportunidades, principalmente para empresas, que possuem visões de construção de marca e negócio com base em cinco ou dez anos.”

Na mesma linha, Ludolf, da QR Asset, pontua que nunca houve tanta entrada de investidores institucionais. Essa aceitação, ressalta, é justamente pela confiança do mercado na adoção da tecnologia de blockchain dentro das estruturas existentes e em novos processos.

Fusão marca nova fase para Ethereum

Após anos de expectativas e muitos adiamentos, a fusão da rede Ethereum (ETH) foi concluída com sucesso em meados de setembro, marcando uma nova era para a segunda maior criptomoeda do mercado.

Também chama de The Merge, o processo mudou a forma de validação da rede para a prova de participação (PoS) ante a prova de trabalho (PoW), considerada muito menos danosa ao meio ambiente e que também permite futuras melhorias na rede, como o barateamento dos processos e o aumento do seu alcance.

No PoW, novas unidades de Ether (ETH) são validadas na rede por meio do uso massivo de computadores para a realização de contas que garantam que aquele token é real.

Já o PoS funciona como uma forma de “caução” dos usuários. O investidor precisa depositar 32 unidades de Ether para fazer parte do processo de validação.

Com um novo rótulo de “investimento limpo”, a expectativa é que a moeda digital tenha acesso a fundos de investimentos, bancos e empresas. Além da questão ambiental, o novo modelo tende a diminuir a inflação de Ethereum no mercado.

A revolução, porém, não se refletiu na disparada da moeda, como previsto por alguns analistas. A cripto enfrentou o clássico efeito “sobe no boato, cai no fato”. Meses antes da fusão, o ETH registrou alta de até 50%. De setembro para cá, porém, a cripto desvalorizou 15%.

Brasil aprova marco regulatório

Após meses de indefinições, a Câmara dos Deputados aprovou no fim de novembro o marco regulatório do mercado de criptoativos no país.

A proposta já havia sido aprovada pelo Senado em abril e foi encaminhada para a sanção do presidente Jair Bolsonaro (PL), que ainda pode vetar a medida parcial ou integralmente.

Apesar da comemoração do mercado, ainda há muito a ser feito para que as mudanças sejam sentidas na ponta. O texto apenas define o que são criptoativos e aponta as diretrizes de como a regulamentação deve ser feita.

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A responsabilidade de criar as regras do jogo caberá à autoridade indicada pelo governo federal, que provavelmente será o Banco Central.

O texto aprovado trouxe mudanças significativas ao chancelado pelo Senado. Entre os principais pontos, está a exclusão da regra de segregação dos patrimônios das corretoras e dos investidores. Essa separação impede legalmente a empresa de usar recursos de clientes para fazer operações.

Esse ponto ficou ainda mais sensível após a queda da FTX, que usou recursos dos clientes para bancar contas próprias e de outras empresas do grupo.

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