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Varejistas sentem concorrência estrangeira e têm dificuldade em igualar investimentos

Varejistas sentem concorrência estrangeira e têm dificuldade em igualar investimentos

Com massivos investimentos em tecnologia, internet e varejo, o mercado se pergunta qual será a resposta das brasileiras

Notebook com alusão à tecnologia

Foto: Shutterstock

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Em proporções continentais, o Brasil é um chamariz para os varejistas. São mais de 214 milhões de pessoas potenciais consumidoras, em diferentes camadas da sociedade. O setor local, porém, não caminha sozinho.

A despeito do desemprego de dois dígitos e a renda média da população estar no menor patamar dos últimos 12 meses, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística), as varejistas globais enxergam alto potencial no Brasil.

Na última semana, o Mercado Livre (MELI34) anunciou um investimento de R$ 17 bilhões no Brasil ao longo deste ano. A iniciativa da gigante sul americana vem na esteira de outros R$ 10 bilhões aplicados no território brasileiro no ano passado.

Sem especificar o destino do investimento, a companhia disse que boa parte será direcionada à fintech MercadoPago, em novos serviços e produtos. Além disso, serão inaugurados quatro novos centros de distribuição em São Paulo – o que amplia a logística diária para 2 milhões de pacotes.

À sombra das varejistas brasileiras também está a Amazon (AMZN34), gigante da tecnologia dos Estados Unidos. A companhia, sediada em Seattle, aposta no país como uma porta para um dos maiores mercados consumidores do Hemisfério Sul, oferecendo soluções a clientes Prime e oferecendo produtos internacionais entre Brasil e EUA.

Entre 2020 e 2021, a AWS (Amazon Web Services) investiu R$ 1 bilhão na ampliação de sua infraestrutura de computação em nuvem em São Paulo, alcançando a clientela dos setores público e privado. 

Com massivos investimentos em diversas áreas da intersecção entre tecnologia, internet e varejo, o mercado se pergunta qual será a resposta das varejistas brasileiras. A resposta é dúbia, o que torna incerto o modelo de negócio de cada uma. 

Camelódromo digital

Um dos sinais de que a concorrência – internacional – chegou para ficar é o apelo do empresariado do setor ao governo para que as atividades das estrangeiras sejam dificultadas sob o pretexto de que há uma “concorrência desleal”. 

O Ministério da Economia estaria estudando uma MP (Medida Provisória) que permitiria a cobrança de impostos sobre importação diretamente nas plataformas, no momento da compra, e não na Receita Federal.

Um documento nomeado de “Contrabando digital”, assinado por Luciano Hang, da Havan, e Alexandre Ostrowiecki, presidente da Multilaser (MLAS3), pediram ajuda ao governo brasileiro para alterar o modelo de tributação. 

Hoje, pessoas físicas podem importar, isentas de impostos, produtos que custem menos de US$ 50. Não está descartada a possibilidade de o governo extinguir essa faixa de isenção. 

Em comentário recente ao jornal Valor Econômico, o CEO do Magazine Luiza (MGLU3), Frederico Trajano, afirmou que há empresas que “acabam compensando sua ineficiência e conseguindo lucros ou receitas de movimentações que são ilegais”. A criação de mecanismos que possam impedir tal camelôdromo digital poderia garantir um “Bolsa Família de R$ 600 por um período longo”, disse Trajano, sem citar cálculos. 

Isso pode impactar no cerne as operações de AliExpress, controlada pela Alibaba e que atua no Brasil há uma década, e Shopee, por exemplo. As varejistas chinesas concentram 67,5% do volume de importados via comércio eletrônico. 

Em segunda instância, o Mercado Livre, que tem investido em processos de segurança e fidedignidade em seus negócios, também poderia sofrer com tal medida.

O trabalho pela dificultação da importação de produtos vem à tona enquanto algumas das varejistas brasileiras dão sinais de desaceleração em seus últimos resultados. 

Bonde passando pelo Magazine Luiza?

O Magalu, detentor da ação outrora queridinha dentre as varejistas, surfou bons anos antes do advento do e-commerce no Brasil. Ao longo da última década, a empresa foi pioneira na aposta no comércio eletrônico, mas a desaceleração dos últimos meses é latente. 

No quarto trimestre do ano passado, as vendas digitais, que contemplam 1P e 3P (marketplace), avançaram 16,9% na comparação com o quarto trimestre do ano anterior, ritmo mais lento que nos trimestres passados.

Em fevereiro deste ano, pela primeira vez na história, as vendas digitais superaram o volume de vendas das lojas físicas, o que mostra que a companhia está cada vez mais digital. 

Leia também:
Magazine Luiza: economia ruim e concorrência feroz tiram brilho do marketplace

O problema, contudo, é que este ambiente está cada vez mais concorrido, diferentemente do contexto físico – afinal, poucas são as companhias que têm a possibilidade de superar a marca de mil lojas físicas, como o Magalu.

Com isso, há uma faca de dois gumes: o custo de manutenção dessas 1.051 unidades físicas em detrimento ao investimento em tecnologia, centros de distribuição etc, para fazer frente aos “novos” entrantes. 

Em dezembro de 2021, o Magazine Luiza possuía R$ 12,3 bilhões em caixa (considerando aplicações e recebíveis de cartão de crédito), o equivalente a aproximadamente 70% de tudo o que será investido pelo Mercado Livre no Brasil neste ano. 

Na mesma base de comparação, o Mercado Livre possui entre caixa, equivalentes de caixa e recebíveis US$ 6,68 bilhões (cerca de R$ 30,79 bilhões), quase 60% do valor de firma do Magalu – volume considerável para quem já tem o Brasil como maior mercado há mais de 20 anos. 

Das 14 recomendações compiladas pela Refinitiv, apresentadas na plataforma do TradeMap, nove são de compra para as ações do Magalu, enquanto cinco são de manutenção dos papéis. O preço-alvo mediano é de R$ 12. 

Via aperta o passo, mas passado é incerto

A Via (VIIA3), por sua vez, não fica para trás e também procura investir em tecnologia para otimizar sua operação logística. 

No início deste ano, a companhia decidiu apostar no fulfillment, com a compra da startup de logística CNT. Fulfillment nada mais é do que um conjunto de operações entre o recebimento do pedido e a efetiva entrega de produtos, conectando operações logísticas e cadeia de suprimentos da empresa.

A companhia visa tirar o atraso frente aos pares em função do tempo “perdido” com o processo de turnaround. 

Dona das marcas Ponto (antiga Pontofrio) e Casas Bahia, a empresa até 2019 passou por forte queda de rentabilidade entre 2017 e 2019, enquanto sua gestão também fazia parte do time do Pão de Açúcar (PCAR3). No último ano deste triênio, a Via chegou a registrar um prejuízo líquido de R$ 1,43 bilhão. 

Apesar da recuperação, geração de caixa da Via é altamente volátil

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

Embora o processo de repaginação da companhia tenha tido sucesso, o passado ainda é incerto. 

No terceiro trimestre de 2021, a Via teve um resultado contábil negativo de R$ 638 milhões, pressionado por provisões para processos trabalhistas na ordem de R$ 810 milhões.

Surpresas negativas desta natureza, embora não estejam ligadas à atual direção, geram preocupação por parte dos investidores, uma vez que o mercado é formado por expectativas, a Via sofre. 

No acumulado deste ano, as ações da empresa operam em queda de 18%, mostrando como nem os créditos tributários de prejuízos passados são o gás necessário para que o balanço da empresa se fortaleça.

Enquanto a Via se esforça para acompanhar o desenvolvimento do mercado – gastando 50% de seu Capex (investimento) de R$ 1,04 bilhão em tecnologia – os últimos resultados mornos dão a tônica do peso macroeconômico nos números da varejista.

No quarto trimestre do ano passado, em comparação ao mesmo período de 2020, o lucro caiu 91%, pressionado pelas despesas relacionadas às operações de crédito ao consumidor, com a disparada da taxa de juros. 

Em razão do potencial negativo, a visão do mercado é mais cética quanto à Via. Analistas ouvidos pela Refinitiv entendem que não é momento de comprar as ações. Das 14 recomendações, nove indicam a manutenção e quatro a venda da posição, com preço-alvo mediano de R$ 6,40. 

Potenciais sinergias fazem Americanas se destacar

O ano de 2021 foi especial para a Americanas SA (AMER3). Em junho, a companhia acertou a combinação operacional entre B2W (antiga BTOW3) e Lojas Americanas (antiga LAME4).

A fusão entre as partes que sempre foram próximas estão gerando valor à empresa. Em suma, de acordo com documentos apresentados em meados do ano passado, os ganhos se referem à otimização do pagamento de tributos, potenciais aquisições no mercado, custos com frete, marketing, tecnologia e logística. 

Saiba mais:
O plano da Lojas Renner para superar gargalos logísticos e entregar em 48 horas

No último trimestre de 2021, a companhia foi um dos destaques do setor varejista. O lucro da Americanas saltou 20,5% na comparação com o mesmo período de 2020, para R$ 490 milhões. A receita líquida, entre outubro e dezembro, totalizou R$ 9,09 bilhões, avanço de 21,7%.

O período marcou a integração dos centros de distribuição em uma única malha, dando mais celeridade aos processos de frete da empresa. Sinal disso foi a marca de mais de dois milhões de entregas terem sido realizadas dentro de um período de três horas em dezembro de 2021. 

Dentre as varejistas aqui citadas, a Americanas é uma das que melhor se preparou para a agressiva concorrência em termos de alcance dos clientes.

O X da questão no que se refere à capacidade de investimento se comparada aos pares internacionais no Brasil é o aperto da estrutura de capital. A situação ainda é positiva, mas menos confortável.

O endividamento bruto cresceu 55% entre 2020 e 2021. Os compromissos de curto prazo (que vencem em até 12 meses) dispararam 113%, de acordo com o balanço do quarto trimestre.

Com isso, o caixa líquido passou de R$ 6,31 bilhões para R$ 1,81 bilhão na mesma base de comparação, considerando as contas a receber em cartões de crédito.

O vetor de aceleração da empresa neste sentido, porém, pode vir de forma inorgânica. A empresa diz que se mantém aberta a novas aquisições, como as 29 compras realizadas desde 2005.

O meio? Quem sabe uma nova oferta de ações, como a empresa já mostrou estar disposta a fazer – com desconto – no fim do ano passado

A Americanas, dentre as varejistas, é a que tem mais recomendações de analistas. Oito são de compra e sete de manutenção das ações. O preço-alvo mediano das 15 indicações é de R$ 44.

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