Gerente ficou louco? Entenda o que está por trás do desconto de 20% na oferta da Americanas (AMER3)

No acumulado do ano, os papéis caem 58%, voltando ao mesmo patamar de meados de 2019

Ontem à noite, a Americanas (AMER3) anunciou que fará uma oferta de até 19,72 milhões de ações. Entenda os motivos da empresa.

Foto: Divulgação

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A Americanas (AMER3) anunciou na quarta-feira, dia 22, que fará uma oferta de até 19,72 milhões de ações. No valor de R$ 23,70 por papel, a operação pode movimentar R$ 468 milhões, e tem por objetivo preservar a posição financeira da empresa, segundo o comunicado ao mercado. 

Em um pregão de baixo volume, por volta das 17h10 desta quinta-feira (23), as ações da Americanas subiam 0,23%, para R$ 30,69, com os investidores que não estão de recesso reagindo no negócio.

A decisão pela emissão dos papéis foi tomada em unanimidade pelo Conselho Fiscal da companhia, e acarretará no aumento do capital social da empresa para até R$ 15,34 bilhões.

O conselho levou em consideração a média da cotação de fechamento de AMER3 nos últimos 20 pregões, e ainda ofereceu um desconto de 20%.

A oferta acontecerá de qualquer forma, nem que seja com a distribuição de apenas 5,84 milhões de ações, o que movimentaria R$ 138,6 milhões. Para quem não aderir, a diluição também será pequena, de no mínimo 0,6421% e, no máximo, de 2,1357%. 

Afinal, o que a Americanas quer com a operação?

Quadro financeiro da Americanas é confortável — com ressalvas

No terceiro trimestre deste ano, a Americanas teve um lucro líquido “artificial” de R$ 241 milhões. Sem o uso de créditos tributários, a empresa teria apresentado um prejuízo de R$ 6 milhões.

O resultado do período entre julho e setembro, por mais que tenha ficado ligeiramente acima das expectativas do mercado, deu continuidade ao primeiro semestre muito aquém das projeções.

Daqui para frente, a empresa procura continuar ampliando sua participação no digital, por meio de investimentos em tecnologia, para que o crescimento seja sustentável. 

Um ponto de atenção fica para o volume bruto de vendas da companhia, que atingiu R$ 12,86 bilhões no terceiro trimestre, sendo que 42% vieram de parceiros. Em um cenário de economia desacelerada, numa completa estagflação – já experimentada em meados da década passada –, comerciantes de menor porte podem sofrer. 

As vendas do comércio varejista brasileiro voltaram a cair mais do que o esperado em outubro. Nos Estados Unidos, onde o cenário é mais positivo, o avanço foi menor do que o previsto em novembro. 

Saiba mais: Vendas no varejo voltam a ficar abaixo dos níveis pré-pandemia em outubro

Se preparando para meses desafiadores (ou antecipando uma possível queima de caixa), a companhia preferiu abastecer o bolso e preservar sua condição financeira, segundo o conselho. 

Os números apresentados pela Americanas estão saudáveis. A empresa fechou setembro com uma dívida bruta de R$ 12,81 bilhões, sendo que mais de 70% está no longo prazo. 

O prazo médio de vencimento da dívida está em 5,6 anos. Além disso, o montante total é menor frente aos R$ 13,58 bilhões do mesmo período do ano passado. 

Histórico do endividamento bruto da Americanas

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

Por outro lado, as disponibilidades totais caíram 14,3% em um ano, para R$ 15,84 bilhões. Esse valor considera as contas a receber de cartão de crédito, que possuem liquidez imediata, embora não estejam em caixa. 

A operação da empresa mostra-se prudencial no momento, dado que as incertezas podem tirar a folga financeira que a companhia construiu nos últimos trimestres. 

O tamanho desconto de 20%

A vida da Americanas não está nada fácil na Bolsa. No acumulado do ano, os papéis caem 58,67%, voltando ao mesmo patamar de meados de 2019. Nem durante a pandemia da Covid-19 os papéis sofreram tanto.

A antiga B2W recua quase cerca de 75% desde a máxima histórica, atingida em agosto de 2020, no auge do otimismo com o e-commerce no Brasil. 

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

Os papéis da empresa acompanham as incertezas dos investidores ante a desaceleração do comércio eletrônico, a dificuldade no vaivém da reabertura da economia e os impactos da elevação da taxa de juros, tanto do ponto de vista operacional como em valuation

Na vida real, a Selic mais alta impede maiores concessões de crédito, o que prejudica o consumo. A elevação vem em um momento de alta da inflação e desemprego atingindo 13,7 milhões de pessoas – duas péssimas notícias para o varejo brasileiro. 

Ademais, como a Agência TradeMap mostrou, as empresas de tecnologia no Brasil são confundidas com aquelas relacionadas ao avanço do e-commerce e à “financeirização” do varejo.

Com isso, as varejistas comumente são negociadas a múltiplos esticados, com o mercado precificando um retorno maior do ponto de vista de lucro apenas no futuro. 

Dado que o preço do dinheiro ficará mais caro daqui para frente, o funding necessário para esse crescimento será dificultado, o que coloca uma pulga atrás da orelha de quem está com o home broker aberto e tem de tomar decisões. 

O pessimismo forçou a Americanas a oferecer um desconto de 20% no preço de emissão em cima do que a Lei das S.A. manda, com o intuito de trazer os investidores para perto.

Como se não bastasse, a empresa também anunciou o pagamento de juros sobre capital próprio (JCP), na ordem de R$ 550,63 milhões, equivalente a R$ 0,6130 por ação. Os investidores poderão utilizar esses recursos para participarem da oferta. 

Americanas ainda é boa oportunidade

Para a maior parte dos especialistas do mercado, as ações da Americanas sofreram mais do que deveriam e, mesmo com as preocupações conjunturais, a cotação dos papéis não reflete o valor real da companhia.

Segundo dados compilados pelo Refinitiv, apresentados na plataforma do TradeMap, são 15 recomendações voltadas à Americanas. Nove delas são de compra, enquanto seis de manutenção da posição. Ninguém recomenda o desfazimento das ações neste momento.

O preço-alvo mediano indica o patamar de R$ 70, o que perfaz um upside de 128% sobre o preço atual. Há quem enxergue as Americanas valendo R$ 120 por ação.

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