Ouro, energia, minério: os desdobramentos da crise Rússia-Ucrânia para ativos brasileiros

Veja quais são os setores podem se beneficiar ou sofrer com a elevação da tensão geopolítica

Foto: Shutterstock

A tensão geopolítica instaurada na fronteira entre Rússia e Ucrânia desde o ano passado tem trazido dúvidas aos investidores brasileiros. Afinal, como um potencial conflito bélico do outro lado do mundo pode influenciar seus investimentos?

Em um planeta cada vez mais globalizado, onde as informações avançam na velocidade da luz, os mercados precificam as expectativas em torno de novos acontecimentos. Não à toa, na última segunda-feira (21), a Bolsa da Rússia teve a maior queda em 14 anos

Isso não significa que antes a conjuntura econômica não era influenciada por situações similares, mas atualmente os ativos flutuam em tempo real.

Aqui no Brasil, país banhado a commodities, os investidores procuram se posicionar frente aos possíveis desdobramentos inerentes ao conflito. Veja quais são os setores e empresas do mercado brasileiro que podem se beneficiar ou sofrer com a elevação das tensões geopolíticas.

Energia

Petróleo

Carta marcada no jogo das commodities no Brasil, a Petrobras (PETR4) é uma das empresas que podem se beneficiar do processo de valorização do petróleo em meio às tensões no Leste Europeu. 

O barril de petróleo do tipo Brent, referência internacional da matéria-prima, segue acima do patamar de US$ 90 há quase um mês, nível que não havia sido ultrapassado desde 2014. No ano, a commodity já sobe 17%, enquanto nos últimos 12 meses a alta é de 47%. 

A retomada da demanda no pós-pandemia tem encarecido a matéria-prima, uma vez que a oferta ainda não está a pleno vapor. 

A Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) prevê que a procura diária por petróleo deve crescer 4,2 milhões de barris por dia (bpd) neste ano, em comparação a 2021, enquanto os planos para estabilização dos preços por meio do aumento da produção seguem gradativos. 

A Rússia, que faz parte de um grupo aliado ao cartel, é um dos maiores produtores de energia do planeta. O país bombeia aproximadamente nove milhões de barris de petróleo por dia. Com base em dados da Bloomberg, isso equivale a 11,5% do total da produção global diária.

Caso o conflito entre Rússia e Ucrânia interrompa as cadeias de suprimento da região e a produção ou fornecimento de petróleo sejam impactados, a política de paridade de preços internacionais da Petrobras beneficiará a companhia, já que a commodity tende a subir. 

A forte geração de receita, junto ao diligente processo de venda de ativos que não fazem parte do core business da companhia, a mudaram de patamar. Com isso, a meta de endividamento bruto, de terminar 2022 em US$ 60 bilhões, foi alcançada um ano antes. 

Queda do endividamento bruto da Petrobras

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

O preço de paridade de importação (PPI), como é chamado, a ser praticado é importante para a companhia, pois os produtos derivados do petróleo são escassos no mercado, inclusive no Brasil – sobretudo o diesel. 

Há especialistas que enxergam a commodity acima do patamar de US$ 100 no curto prazo. Porém, o caminho ainda é longo rumo à máxima histórica, atingida em julho de 2008, a US$ 146,08. 

O contexto do petróleo ainda gira em torno das negociações do Irã com as grandes potências, para que seu petróleo possa ser exportado sem as sanções determinadas ao país pelo então presidente americano Donald Trump, desde 2018. 

As discussões fazem parte do acordo nuclear entre os países e, caso seja concluído com sucesso, o entendimento entre Irã e EUA pode abastecer o mercado com um milhão de barris por dia, arrefecendo o descompasso entre a oferta e a demanda. 

Gás natural

Uma das maiores discussões que giram em torno do desentendimento entre Rússia e Ucrânia diz respeito ao mercado de energia. Não só o petróleo, mas principalmente o gás natural. 

A Rússia fornece 40% do gás natural consumido na Europa. 

O novo gasoduto Nord Stream 2, que liga a Rússia à Alemanha, foi concluído no fim do ano passado, com esforços aplicados por ambas as partes, custando cerca de 10 bilhões de euros.

O empreendimento tem a capacidade de fornecer aproximadamente 55 bilhões de metros cúbicos por ano à Alemanha, mas não entrará em vigor – ao menos agora. Na última terça-feira (22), o chanceler alemão, Olaf Scholz, suspendeu a autorização para o funcionamento do gasoduto.

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Essa foi a primeira das respostas do Ocidente à ofensiva russa na Ucrânia. Mas o tiro pode sair pela culatra. A Alemanha, principal economia da zona do euro, tem 27% do seu consumo de energia dependente do gás natural russo. 

Os últimos meses foram desafiadores para a economia europeia. Na Itália, por exemplo, o gás natural passou de 15 euros por megawatt hora no início de 2021 para 180 euros em dezembro, um aumento de 1.100%, antes de recuarem um pouco posteriormente. 

Com isso, cada vez mais a procura por gás natural é estrangulada pelos preços, em um equilíbrio forçado entre oferta e demanda. 

Outras opções para o fornecimento de energia devem ser estudadas pelos países, abrindo possibilidade para fornecedores se darem bem, já que 23% da matriz energética global é ligada ao gás natural.

E o Brasil não é uma ilha. Os impactos chegarão por meio da inflação alimentícia e energética. 

Segundo o BEN (Balanço Energético Nacional), 11,8% da matriz brasileira era ligada ao gás natural em 2021. Com os preços do gás natural subindo, assim como os do petróleo e derivados – que equivalem a 33,1% da matriz -, o Brasil pode voltar suas atenções ainda mais às fontes renováveis de energia.

Aproximadamente 46% da matriz brasileira em 2019 era renovável, colocando o país em uma boa posição para trilhar outros caminhos. No Piauí estão localizados os maiores parques eólico e solar da América Latina.

Empresas como AES Brasil (AESB3) e Omega Energia (MEGA3) são duas das que têm focado na geração de energia pelo ar e sol.

A EDP Brasil (ENBR3), com a EDP Renováveis, possui atualmente 330,7 MW de capacidade instalada eólica, distribuída em seis complexos no Sul e Nordeste do país. 

Fertilizantes

A relação comercial entre Brasil e Rússia está diretamente ligada à aquisição brasileira de fertilizantes. Essa, inclusive, foi uma das pautas do presidente Jair Bolsonaro em seu encontro com o mandatário russo Vladimir Putin, na última semana. 

De acordo com Bolsonaro, a viagem ao Leste Europeu foi positiva e serviu para garantir que a oferta de fertilizantes da Rússia para o Brasil seja dobrada. O item é importante ao Brasil, pois a escassez do insumo tem pressionado a inflação alimentar no mercado brasileiro.

Por outro lado, os adubos são um dos alvos dos desdobramentos da guerra iminente entre Rússia e Ucrânia. 

A Rússia, maior exportadora de fertilizantes do mundo, inclusive, já instaurou uma interdição de dois meses em suas exportações dos produtos, colocando as empresas do setor em maus lençóis. 

Esse é o caso da Eurochem. A multinacional, de origem russa e sediada em um paraíso fiscal na Suíça, fechou a compra da Heringer Fertilizantes (FHER3), no fim do ano passado.

A empresa europeia pagará até R$ 554 milhões, por 51,48% da companhia brasileira. Eventualmente, será realizada uma OPA (oferta pública de aquisição de ações) para o fechamento do capital da Heringer, embora este processo ainda não esteja definido.

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O fato é que a companhia tende a sofrer com a desaceleração e quebra da cadeia de suprimentos do mercado de fertilizantes. Não à toa, neste ano as ações da Heringer caem 20%, mas ainda sobem mais de 200% nos últimos 12 meses, movimento impulsionado pela venda da companhia.

A receita anual da Heringer recuou de R$ 5,3 bilhões em 2016 para R$ 1,1 bilhão em 2019, ano em que entrou em recuperação judicial. 

As dívidas giravam em torno de R$ 2 bilhões e uma oferta de compra por um dos principais players globais foi vista como grande oportunidade. 

O acordo já está fechado e o tag along que atingirá todos os acionistas será exercido a R$ 20 por papel. O mar do mercado de fertilizantes, entretanto, não está para peixe nas últimas semanas. 

Minério de ferro

No primeiro momento, as operações da Vale (VALE3) não devem ser impactadas pelo conflito entre Rússia e Ucrânia. Isso porque o movimento do minério de ferro não tem acompanhado a volatilidade do mercado em função dessas tensões ao longo das últimas semanas.

Porém, os desdobramentos do conflito podem influenciar o contexto entre Rússia, China e o mercado de energia. 

Caso sanções sejam instauradas pela OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a Rússia teria que absorver os impactos econômicos de duas formas. 

Primeiro, com a queima das reservas russas, atualmente na ordem de US$ 600 bilhões. Ou então, em segundo lugar, com a transferência do abastecimento da energia à China, parceira política da Rússia. 

Putin e Xi Jinping têm se aproximado enquanto suas relações com o Ocidente se deterioram. 

No início deste mês, a Rússia fechou um contrato de 30 anos para aumentar o fornecimento de gás natural à China através de um novo gasoduto. A estatal russa Gazprom fornecerá cerca de dez bilhões de metros cúbicos de gás por ano a uma estatal chinesa.

O movimento é uma manobra da China também para lidar com seus problemas de escassez de energia, que teve seu pico em meados do ano passado. A demanda crescente por eletricidade, com a constante urbanização, e as restrições para uso de carvão estão impactando a rede elétrica chinesa. 

No início deste ano, o Banco Central chinês anunciou um corte na taxa de empréstimo de médio prazo (MLP) pela primeira vez desde abril de 2020. Esta é a maior ferramenta de política monetária da autoridade governamental, ainda mais do que a taxa de juros básica da economia.

A volta dos incentivos à economia já é realidade na China e, com isso, o setor imobiliário volta aos holofotes. Por mais que o ritmo tenha desacelerado em relação aos últimos anos, a construção civil ainda equivale a cerca de um quarto de todo o PIB chinês. 

Companhias ligadas ao minério de ferro, como a Vale, podem se beneficiar da demanda por aço. A empresa tem um bom ritmo de geração de caixa mesmo com o minério bem abaixo da máxima histórica, atingida em meados do ano passado.

Ouro

Em momentos de tensão geopolítica, a escassez faz preço mundo afora. Assim como o petróleo, o ouro pode ser um dos ativos mais demandados em razão de sua função como reserva de valor, principalmente se sua oferta for encurtada.

A Rússia produz 10% de todo o ouro do mundo. A indústria mineradora é a segunda maior do país, somente atrás da ligada a petróleo e gás, e deve aproveitar a maior mina de ouro do mundo em seu território, a Polyus. O início da exploração está prevista para 2023.

É esperado que a Rússia ultrapasse a China como o maior produtor de ouro do mundo até 2029, segundo relatório da Fitch Solutions Country Risk & Industry Research.

A nação liderada por Putin também possui uma alta reserva de ouro, bem acima de suas médias históricas e do patamar até meados da última década. No fim de setembro de 2021, eram 2.292,31 toneladas da matéria-prima, de acordo com a World Gold Council.

Fonte: World Gold Council. Reprodução: Trading Economics
Fonte: World Gold Council. Reprodução: Trading Economics

Historicamente, quando os EUA entram em um processo de aumento da taxa de juros, as cotações do ouro seguem o caminho inverso e apresentam desempenho negativo, pois ganham “concorrência” no topo dos ativos mais seguros do mundo.

Contudo, por mais que esse seja o cenário atual, o ouro não está em queda. Pelo contrário, no acumulado de 2022, a alta é de quase 5%, com baixíssima volatilidade. 

O momento aquecido para a commodity é positivo para a Aura Minerals (AURA33). A mineradora canadense de ouro e cobre atua em três minas, sendo que uma das mais relevantes é a Ernesto/Pau-a-Pique, localizada em Mato Grosso.

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

Segundo números apresentados, a empresa possui reservas provadas e prováveis totais de 1,9 milhão de onças de ouro. Atualmente, o contrato futuro de ouro, negociado para abril de 2022, é cotado a US$ 1.904,35 a onça-troy.

A Aura Minerals divulgará seus resultados do quarto trimestre do ano passado na próxima quinta-feira (24). No terceiro trimestre – período em que o ouro teve rentabilidade negativa – a companhia registrou prejuízo de US$ 14,5 milhões. A depender das decisões da Rússia sobre a Ucrânia, o ouro pode favorecer o desempenho deste ano. 

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