China derruba embargo a frigoríficos: o que esperar de JBS, Marfrig, BRF e Minerva

Problemas superados pelo setor em 2021 abrirão espaço para novos desafios em 2022, mas empresas indicam estar preparadas

Foto: Pixabay

Os frigoríficos lideraram as altas do Ibovespa no pregão de ontem. Sem razão clara ao mercado, JBS (JBSS3), Marfrig (MRFG3), BRF (BRFS3) e Minerva (BEEF3) foram na contramão do índice, que derrapou pelo segundo dia consecutivo

O dólar colaborou. A divisa americana fechou a última sessão a R$ 5,68, no maior patamar desde o início de abril. Mas o presente de natal aos frigoríficos foi divulgado na manhã desta quarta-feira (15). 

A China derrubou o embargo à importação de carne bovina brasileira, que estava vigente desde setembro, quando foram identificados casos da doença conhecida como vaca louca.

A Minerva comentou, em fato relevante, que seus negócios ligados à China atingem sete unidades produtivas com capacidade de abate de cerca de 10 mil cabeças de gado por dia, ao longo de toda a América do Sul. A retomada da produção tem início imediato. 

A empresa é a líder na exportação de carne bovina no continente e se beneficia diretamente da medida. A China importa quase 50% das cerca de 2 milhões toneladas que o Brasil vende ao exterior.

A notícia, porém, impulsiona todo o setor. As ações dos quatro maiores players do Brasil avançam na expectativa por um final de ano positivo e um 2022 promissor, ou de recuperação. 

Enquanto os papéis de JBS e Marfrig disparam neste ano, BRF e Minerva ficam para trás. Com 2021 ficando nos livros de história, o que esperar daqui para frente? 

Desempenho das ações JBSS3, MRFG3, BEEF3 e BRFS3 nos últimos 12 meses

Fonte: TradeMap

O impacto do embargo chinês aos frigoríficos

A China é o principal parceiro comercial do Brasil. No ano passado, quase um terço de todas as vendas brasileiras ao exterior foram direcionadas ao país asiático.

A carne bovina é o quarto produto mais importado pelos chineses, ficando atrás apenas da soja, minério de ferro e óleos brutos de petróleo. Ano passado, o produto movimentou US$ 4 bilhões.

Contudo, os últimos meses foram influenciados negativamente pelo embargo chinês. No mês passado, as exportações totais de carne bovina recuaram 47%, segundo a Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo). 

Em toneladas, a exportação foi de 105,2 mil, totalizando US$ 501 milhões. O preço por tonelada, contudo, aumentou de US$ 4.190 para US$ 4.959, em função da demanda resiliente e a oferta reduzida. 

A outra boa notícia é que as empresas não ficaram desamparadas. As exportações do Brasil para os Estados Unidos aumentaram 183% nos primeiros 10 meses de 2021, segundo dados do Ministério da Economia, mostrando o quão aquecido está o segundo maior cliente brasileiro. 

As medidas restritivas chinesas impactaram majoritariamente BRF e Minerva, uma vez que JBS e Marfrig possuem operações mais diversificadas e focadas em alimentos de alto valor agregado. As dúvidas sobre o setor, porém, também remetem a outras questões. 

JBS rumo aos R$ 100 bilhões de receita

A JBS, maior produtor de proteínas e a segunda maior empresa de alimentos do mundo, segue superando as expectativas do mercado e liderando os frigoríficos na Bolsa. 

No terceiro trimestre deste ano, a companhia reportou uma receita líquida de R$ 92,62 bilhões, ampliando em 31,2% o resultado do mesmo período de 2020. O lucro líquido atingiu R$ 7,58 bilhões, disparando mais de 140% na mesma base comparativa. 

Entre julho e setembro deste ano, a produção de bovinos processados caiu 11%, ritmo explicado pela escassez da matéria-prima e a suspensão das exportações para a China. 

Embora dezembro seja o último mês do último trimestre de 2021, os resultados já devem ser realimentados com a volta do acesso ao mercado chinês. A operação exterior da companhia, inclusive, tem sido o destaque dos últimos resultados.

Também é amplamente esperado que o ano que vem seja marcado pela continuidade do forte pipeline de aquisições da empresa. 

No mês passado, por exemplo, a companhia anunciou o investimento de US$ 100 milhões na aquisição da BioTech Foods, construção de fábrica na Europa e de um centro de pesquisa no Brasil. 

Frente às expectativas positivas, o mercado mostra-se otimista com a empresa. Segundo as projeções compiladas pelo Refinitiv, apresentadas na plataforma do TradeMap, são 13 recomendações que acompanham a JBS, sendo 12 de compra. 

Fonte: TradeMap

Agressividade e desvalorização do real são trunfos da Marfrig

A Marfrig, da mesma forma, mostra estar navegando mares positivos. No terceiro trimestre, o resultado da companhia chamou atenção, com o lucro saltando 148,7% na comparação anual, chegando a R$ 1,7 bilhão. 

No topo, o resultado é explicado pelo maior volume de vendas e melhores preços em todas as linhas de negócio. Principalmente porque o real está fortemente depreciado ante o dólar. A expectativa do mercado é que a divisa americana permaneça custando R$ 5,5 em 2022. 

A Marfrig conseguiu consertar um dos seus maiores problemas, que era a alavancagem financeira em um setor de alta incerteza e ciclicidade. 

A relação entre a dívida líquida e o Ebitda da empresa, que chegou a mais de 13 vezes em 2018, atualmente está em cerca de 1,2 vez. 

Histórico da alavancagem financeira da Marfrig

Fonte: TradeMap

Desse ponto de vista, a alavancagem financeira pode subir com a potencial aquisição da BRF, principalmente se a pílula do veneno for ativada. Mas, até agora, a agressividade da Marfrig parece ser benéfica. 

Com a aquisição da participação acionária na BRF, o balanço da Marfrig pode se tornar menos volátil, uma vez que a exposição a carne bovina será contrabalanceada ante ao negócio de aves e suínos. 

Em 2022, porém, o ambiente pode ser difícil, principalmente nos Estados Unidos. De acordo com a consultoria Beef2Live, com base em dados da United States Department of Agriculture (USDA), o país deve registrar uma perda de 9 mil toneladas nas importações do país. 

A Marfrig conta com a National Beef no país, empresa que inclusive pode ser listada em Bolsa, conforme a direção da empresa. 

Analistas consultados pelo Refinitv apontam que das 13 recomendações para o papel, oito são de compra e cinco de manutenção da posição. A visão não é tão unânime. 

BRF, a maior incerteza dentre os frigoríficos

No caso da BRF, as incertezas que pairam sobre a empresa trazem o temor de um 2022 complicado. 

A companhia tinha a previsão de entregar um Ebitda de R$ 10 bilhões em 2023, mas com o aumento dos custos para a manutenção do gado, como farelo de soja e milho, esse prazo foi estendido em um ano. 

A estimativa de atingir a receita anual de R$ 65 bilhões também passou para 2024. 

A pressão nos custos também trouxe a queda de margens, cenário que tende a se repetir no ano que vem. Segundo a empresa, em seu investor day, o segredo está na boa gestão de custos e despesas.

Quedas das margens Ebitda e líquida da BRF

Fonte: TradeMap

Mesmo em meio às pressões conjunturais, que também atingem o repasse dos custos para os consumidores, que sofrem com a inflação, a previsão de investimentos se manteve e 2022 deve reservar uma ou outra aquisição, como neste ano.

A preocupação gira em torno da alavancagem da empresa, que superou a marca de três vezes no fim de setembro — patamar limite considerado saudável para os frigoríficos. A direção, por sua vez, aparenta estar confortável com a posição de caixa de R$ 7 bilhões e com dívida com vencimento médio de nove anos. 

Das 11 recomendações compiladas pela Refinitiv, sete são de compra e quatro de manutenção das ações. O preço-alvo mais alto aponta para R$ 18, perfazendo um upside de 81% sobre a cotação atual da BRF.

Recordes da Minerva aquecem 2022 promissor

No terceiro trimestre deste ano, a Minerva reportou resultados em linha com o esperado pelo mercado. Mesmo assim, a maior parte deles foram recordes, impulsionados pela operação internacional.

Entre julho e setembro deste ano, a operação na América do Sul contribuiu com 56% da receita consolidada. 

Com essa diversificação territorial, câmbio favorável, forte demanda externa e dólar jogando a favor, o faturamento da empresa atingiu R$ 7,4 bilhões, o maior para um terceiro trimestre. O lucro, por sua vez, subiu 24% em 12 meses, para R$ 72,4 milhões. 

Volatilidade do lucro da Minerva

Fonte: TradeMap

O desempenho operacional da companhia deve continuar sendo beneficiado pela exposição à Athena Foods, que consiste nas operações das unidades no Paraguai, Argentina, Uruguai e na Colômbia.

Destaca-se, também, o fluxo de caixa das atividades operacionais da Minerva, que saiu de R$ 1,05 bilhão em março deste ano para R$ 1,94 bilhão em setembro. 

As margens, embora baixas em relação ao ano passado, mostram-se sólidas com os desafios da operação brasileira. Esses dois fatores alinhados podem significar uma distribuição de resultados robusta no ano que vem.

Os frigoríficos, mesmo com características diferentes, passaram por desafios em 2021 e, não obstante, eles continuarão no radar em 2022. A diferença é que majoritariamente eles indicam estar mais preparados.

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