IA já é usada por 92% das instituições do mercado de capitais
A inteligência artificial já faz parte da rotina de nove em cada dez instituições do mercado de capitais brasileiro. É o que aponta pesquisa inédita divulgada nesta segunda-feira (14) pela Anbima, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais. O levantamento mostra que 92% das empresas do setor usam algum tipo de IA em suas operações.
O estudo foi realizado em parceria com o Datafolha e com apoio técnico da MatchIT. Foram ouvidas 177 instituições associadas ou aderentes aos códigos de autorregulação da entidade. Entre elas, 80% são gestoras de recursos. O restante reúne securitizadoras, bancos, distribuidoras, corretoras e consultorias.
A pesquisa também criou o primeiro Índice de Maturidade em IA voltado ao mercado de capitais brasileiro. A nota média do setor ficou em 2,7, numa escala de 1 a 5.
Índice de maturidade em IA coloca setor em estágio intermediário
Com 2,7 pontos, o mercado se posiciona na fase de estabilização. A escala prevê cinco estágios. Planejamento e preparação vai de 1,0 a 1,5. Experimentação vai de 1,6 a 2,5. Estabilização cobre de 2,6 a 3,5. Escala e performance vai de 3,6 a 4,5. Liderança fica acima de 4,5.
A distribuição mostra um mercado concentrado no meio da régua. Estão em estabilização 40% das instituições. Outras 34% seguem em experimentação. Apenas 12% chegaram a escala e performance, e somente 1% atingiu o estágio de liderança.
“O índice mostra um mercado em transição entre a experimentação e a escala. A IA já está presente na rotina das instituições, mas ainda há espaço para evoluir na consolidação de processos, governança e geração de valor de forma estruturada e sustentável”, afirma Marcelo Billi, superintendente de Inovação, Sustentabilidade e Educação da Anbima.
O porte importa nessa trajetória. Entre as empresas mais avançadas em IA, o patrimônio líquido médio sob gestão é de aproximadamente R$ 20 bilhões, com 378 funcionários em média. No grupo menos avançado, esses valores caem para cerca de R$ 2,3 bilhões e 99 funcionários.
Quais práticas de IA o mercado financeiro mais usa
A aplicação mais difundida é data science, citada por 72% das instituições. O termo reúne big data, mineração de dados e analytics, ou seja, o uso de grandes volumes de informação para extrair padrões.
Logo atrás vêm as práticas generativas, com 67%. Essa categoria inclui os grandes modelos de linguagem, conhecidos como LLMs, e sistemas de geração de texto, imagem ou vídeo. Machine learning, o aprendizado de máquina em que o sistema melhora sozinho com base em dados, aparece em 48% das respostas. O processamento de linguagem natural, tecnologia que interpreta texto e voz, é citado por 36%.
Os ganhos relatados são majoritariamente operacionais. Entre as usuárias, 80% apontam aumento de produtividade e 75% destacam a automação de tarefas. Apoio à tomada de decisão e redução de riscos ou erros somam 57% cada. Já a vantagem competitiva aparece para apenas 14%, e a mudança de modelo de negócio para 6%.
Adoção alta, maturidade baixa: o contraste da IA no mercado de capitais
Usar não significa dominar. Entre as empresas que aplicam IA, 48% se descrevem em estágio intermediário, com uso em áreas-chave e melhoria de processos. Outras 25% relatam apenas projetos isolados com ganhos pontuais.
No topo, os números encolhem. Somente 11% integram a tecnologia a processos críticos de negócio. E apenas 3% relatam vantagem competitiva clara decorrente do uso de IA.
O desconto entre experimentar e escalar aparece também nas atividades. Projetos exploratórios, como pilotos e provas de conceito, mobilizaram 69% das instituições no último ano. Projetos em escala, com lançamento de soluções de uso amplo, ficaram em 37%.
Governança de dados é o principal gargalo
Menos de um terço das instituições diz ter estrutura de governança de dados classificada como estruturada ou avançada. Governança de dados é o conjunto de regras, papéis e controles que define quem acessa, valida e responde pelas informações usadas pelos sistemas.
Nas políticas de uso responsável da IA, o quadro é mais restrito. Apenas 12% se posicionam em estágios consolidados ou avançados. Sete em cada dez empresas afirmam não ter políticas de transparência ou ter apenas políticas básicas.
Os controles técnicos seguem a mesma linha. Não realizam testes de robustez 21% das instituições, ou seja, colocam modelos em produção sem validação para cenários adversos. Outras 27% não fazem testes de viés antes da implantação nem monitoram os modelos em produção. Metade do mercado não bloqueia ativamente serviços de IA não aprovados internamente.
A responsabilidade pelo tema é distribuída. A agenda de IA reporta principalmente à área de tecnologia, com 49%, e à alta liderança, com 48%. Compliance aparece com 39%.
Mensuração de resultados ainda é a maior lacuna
Se o mercado percebe valor na IA, ainda mede pouco. Entre as usuárias, 43% avaliam os impactos apenas de forma subjetiva, sem métricas ou registros. Outras 15% não acompanham resultado algum.
No extremo oposto, somente 3% possuem indicadores corporativos padronizados e integrados à estratégia da organização. Sem métricas, fica mais difícil justificar investimento, priorizar casos de uso e comprovar retorno.
O que trava a próxima etapa
Entre as instituições que usam IA, 61% apontam desafios para ampliar o uso de forma segura e estruturada. A necessidade de novos controles ou auditorias lidera, com 24%. Em seguida vêm falta de capacitação ou treinamento, com 22%, e custo de implementação, com 19%.
Falta de segurança ou privacidade é citada por 17%. Escassez de especialistas no mercado aparece com 16%, e ausência de políticas e procedimentos com 15%.
Mesmo assim, as expectativas são amplamente positivas. Entre as participantes, 93% acreditam que a IA aumentará a eficiência dos processos internos. Outras 90% enxergam potencial de diferenciação competitiva, e 73% veem oportunidade de criar novos produtos, serviços ou modelos de negócio. Nenhuma instituição prevê perda de relevância da tecnologia no horizonte avaliado.
O campo da pesquisa foi realizado entre 21 de janeiro e 6 de abril de 2026. A margem de erro máxima é de 7 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. Entre os respondentes, sete em cada dez ocupam cargos de liderança.
O artigo IA já é usada por 92% das instituições do mercado de capitais foi visto pela primeira vez em BeInCrypto Brasil.


















