‘Errar está muito mais barato’: o que pode fazer PMEs competirem de igual para igual com grandes empresas?
A competição entre pequenas e médias empresas (PMEs) com companhias de maior porte é historicamente desigual, mas a situação agora é outra.
Antes, quem tinha orçamento astronômico, equipes gigantes e uma maior participação de mercado tinha mais chance de vencer a disputa entre concorrentes. Porém, executivos defendem que essa lógica já está mudando graças a um tema que tem sido exaustivamente discutido nos negócios: a inteligência artificial.
Durante o evento Fórum Empreendedor, realizado pelo BTG Pactual Empresas nesta quinta-feira (10), Renata Martins, que é Diretora Soluções de Negócios em IA da Microsoft Brasil, defende que o avanço das tecnologias se tornou “um ato democrático” no ambiente empresarial.
O desenvolvimento de produtos e transformações nos negócios que antes seriam inviáveis em companhias de menor porte devido aos altos custos de investimento em tecnologia e software agora podem ser realizados por meio de IA. Com isso, existia um risco financeiro muito maior em uma aposta errada.
“Antigamente era caro errar. O empreendedor testava e tinha um limite de até onde conseguia ir. Hoje está muito mais rápido e barato testar e cometer erros”, diz Thomaz Machado, CEO da Scanntech Brasil.
IA nivelou o jogo
O jogo e o conhecimento entre os players agora estão muito mais nivelados. No varejo, por exemplo, que é o setor de atuação da Scanntech, as margens costumam ser mais apertadas, então há menos espaço para erros.
Na visão do executivo, empresas menores agora conseguem usar modelos de IA para tarefas complexas como previsão de demanda, análise de preços e elasticidade, algo que antes era restrito a grandes empresas com departamentos internos robustos e milhares de funcionários.
Na mesma linha, Marcel Bonzo, Head de Finanças Indústria Bancária do Google Brasil, diz que, o que antes era feito na “sorte” em pequenas e médias empresas, agora pode ser testado com tecnologia.
O desenvolvimento de produtos, por exemplo, pode passar pela aceitação de personas sintéticas, criadas por meio de agentes, que representam o público-alvo de uma empresa. Antes de lançar ao mercado, uma PME pode checar fatores como preço e a usabilidade.
“Isso gera uma equivalência com competidores maiores”, defende Bonzo.
Existe até uma vantagem em relação aos gigantes
O executivo do Google vai além. Ele não só acredita que a inteligência artificial deve equilibrar a concorrência entre empresas de diferentes portes, como também defende que as companhias de menor porte têm uma vantagem competitiva nessa corrida: a velocidade.
Enquanto um projeto de inteligência artificial em uma grande empresa pode levar de 12 a 18 meses para ser implementado devido a burocracias e processos de compliance, os players menores podem se adaptar mais rápido.
“A velocidade na qual o empreendedor se adapta ao mercado faz ganhar uma maior competitividade. Dá para fazer uma analogia com uma frase do Ayrton Senna: você não ultrapassa 15 carros no dia ensolarado, mas no dia de chuva consegue.”
Para ele, o cenário atual de mudanças tecnológicas é justamente o dia de chuva que permite uma aceleração das PMEs.
Teste e erro devem ser o guia
Com a inteligência artificial barateando os erros, os executivos destacam a importância de testar sem medo.
O CEO do Grupo Trigo — dono de marcas como Spoleto — e presidente da Associação Brasileira de Franquias (ABF), Tom Moreira Leite, explica que o conglomerado está sempre realizando projetos pilotos que podem ou não ser adotados em toda a rede.
Um exemplo disso são os totens de autoatendimento no Spoleto, que foram inicialmente implementados em uma unidade franqueada.
O resultado da inovação foi o dobro da capacidade de atendimento por hora, o que gerou um aumento do faturamento e diluição dos custos com funcionários.
Essa tese também é defendida por Alexandre Zolko, fundador e CEO da CRMBonus.
“Não tenha medo de inovar e errar. Se der errado, não tem problema. É só criar outro. O importante é acertar mais”, diz.
Afinal, como aplicar IA na operação?
Os executivos reconhecem que, apesar da inteligência artificial favorecer as PMEs, são poucos os negócios que já aplicam as tecnologias na operação.
Para as companhias que querem começar, Bonzo recomenda primeiro olhar para dentro de casa e perguntar para os funcionários quais são as tarefas repetitivas realizadas todos os dias e que levam tempo desnecessariamente. A partir daí, é possível pensar em formas de automação.
Martins, da Microsoft, também dá a dica de começar pelo simples. Para ela, existem quatro etapas para o uso de inteligência artificial:
- Como usar inteligência no dia a dia, internamente entre os funcionários;
- Como automatizar processos corporativos;
- Como aplicar inteligência artificial para vender mais; e
- Como usar IA para o desenvolvimento de produtos.
Ela também destaca que a inteligência artificial pode ser usada inicialmente para resumos de atas de reuniões, resumos de conversas grandes no e-mail, análises de contratos nas equipes de jurídico e compras, criação de conteúdo no marketing e atualização de CRMs, por exemplo.
“A ideia deve ser sempre liberar humanos para pensar de forma mais estratégica”, diz.
O CEO da Scanntech ainda vai além. As empresas devem olhar para profissionais que trabalham remotamente.
“Tudo que um funcionário faz de forma remota tem a possibilidade de automatização.”
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