Na Minerva, a palavra da vez é desalavancar. As aquisições ficam para depois
"Desalavancar, desalavancar e desalavancar. E desalavancar, para não esquecer." Foi dessa maneira que Edison Ticle, CFO da Minerva (BEEF3), respondeu quando questionado pela Bloomberg Línea sobre o planejamento da companhia para os próximos quatro anos.Segundo o executivo, o atual nível dos juros no Brasil reduziu o espaço para a Minerva carregar uma dívida mais elevada e tornou a redução da alavancagem a principal prioridade na alocação de capital da companhia.A estratégia marca uma mudança de prioridade depois de um ciclo de expansão em que a Minerva, segundo executivos da empresa, praticamente dobrou de tamanho em quatro anos, apoiada na diversificação geográfica e em aquisições, como a compra de plantas da Marfrig na América do Sul em 2024.De acordo com Ticle, novas aquisições de frigoríficos estão agora “praticamente fora” dos planos. “O nosso foco de curto e médio prazo é desalavancar. Por quê? Porque a taxa de juros no Brasil é abusiva, é muito alta”, disse o executivo, durante encontro com jornalistas na quinta-feira (27). Na avaliação do CFO, os juros dificilmente cairão para menos de dois dígitos nos próximos dois anos, o que reduz o número de investimentos capazes de oferecer retorno superior ao custo de capital.“Nesse cenário, tem muito poucas oportunidades de investimento que retornam capital mais do que o custo do capital”, afirmou.⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.A Minerva encerrou o segundo trimestre de 2026 com alavancagem de 2,9 vezes, ante 2,7 vezes três meses antes. A dívida líquida somava R$ 14,4 bilhões no fim de junho.A Minerva reuniu, em Barretos, jornalistas e analistas de mercado para uma manhã de apresentações voltadas à área financeira. Ao longo da semana, a empresa também promoveu encontros com colaboradores e produtores. A companhia foi fundada na cidade do interior paulista.A maior alavancagem ocorre em um ano de pressão sobre as ações da companhia. No acumulado do ano, os papéis da Minerva caíram 24% e eram negociados nesta quinta-feira (27) a R$ 4,04.Para Ticle, no entanto, o nível adequado de endividamento nas condições atuais de juros não deve ser medido apenas pela relação entre dívida e Ebitda. A referência usada pelo executivo é limitar a despesa financeira a cerca de um terço do Ebitda.“Para mim, o nível ideal não tem a ver com a alavancagem, tem a ver com a parcela do Ebitda que eu gasto para pagar juros. Em uma conta de bolso, você não pode gastar mais do que um terço do Ebitda, ou 35%, para pagar a despesa financeira”, disse o executivo na apresentação.Pelas contas apresentadas por Ticle, esse parâmetro corresponderia atualmente a uma alavancagem próxima de 1,7 vez, abaixo das 2,9 vezes registradas no fim do segundo trimestre. A companhia estima chegar a um patamar mais confortável em um prazo de 18 a 24 meses.Além disso, a empresa decidiu limitar a distribuição de dividendos ao mínimo obrigatório de 25% do lucro líquido enquanto busca reduzir a alavancagem.Atualmente, a VDQ Holdings, da família Vilela de Queiroz, é a maior acionista da Minerva, com 28,89% do capital. O fundo árabe Salic, que também detém participação na MBRF, aparece na sequência, com 24,34%. Outros 45,83% das ações estão em circulação no mercado, enquanto 0,94% permanecem em tesouraria.Depois da incorporação dos ativos adquiridos da Marfrig nos últimos anos e de um primeiro semestre em que estoques maiores pressionaram o capital de giro, a estratégia da empresa passa por preservar o caixa.Leia também: Consumo de carne bovina na Argentina atinge o nível mais baixo em 20 anosA Minerva consumiu entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,3 bilhão em caixa no primeiro semestre de 2026 e espera gerar entre R$ 2 bilhões e R$ 2,5 bilhões no segundo semestre, disse Ticle. Para o ano, a expectativa da administração é superar R$ 1 bilhão em fluxo de caixa livre. Estoques como fonte de caixaParte relevante do novo momento da empresa deverá vir da redução dos estoques. Ao fim do segundo trimestre, o balanço registrava R$ 4,8 bilhões em estoques. Considerando cargas em trânsito, Ticle disse que o volume estava em cerca de R$ 5,3 bilhões.“Se a gente zerar metade desse estoque, estaremos gerando R$ 2,7 bilhões”, afirmou. “Dado o custo do dinheiro, não faz sentido carregar estoque por muito tempo, a não ser que você tenha uma visão muito forte de preço.”O aumento dos estoques foi, em parte, uma resposta da companhia à volatilidade comercial neste ano, explicaram os executivos. Mudanças nas regras de acesso à China e nas tarifas dos Estados Unidos levaram a Minerva a acumular produto nos dois mercados para preservar sua posição comercial, o que causou como efeito colateral essa “queima” do capital de giro.Leia também: EUA vão importar até 300 mil toneladas de carne moída sem tarifa, diz Trump“Acho que nunca vi tanta mudança num curto espaço de tempo em um setor só como a gente teve em carne bovina”, disse Fernando Galletti de Queiroz, CEO da companhia, ao citar a salvaguarda chinesa e as idas e vindas tarifárias nos Estados Unidos.Da expansão à geração de caixaA mudança na estratégia ocorre depois de duas décadas de expansão da Minerva por meio de aquisições. A companhia, que tem como foco a produção de carne bovina, realizou cerca de 20 aquisições nos últimos 20 anos.Mais recentemente, a compra de ativos da Marfrig ampliou o peso do Brasil nas operações, ao mesmo tempo em que a Minerva expandiu sua presença na América do Sul, região que, na avaliação da companhia, tende a ganhar participação na produção global de carne bovina por sua maior competitividade.(Foto: Naiara Albuquerque/ Bloomberg Línea)O Brasil responde por aproximadamente 57% da receita por origem, seguido por Paraguai e Uruguai, com participações próximas de 11%, e Argentina, com cerca de 9%. Segundo Ticle, a operação argentina deve ganhar peso e poderá disputar a posição de segundo maior mercado da companhia em 2027.A capacidade de entregar a redução da dívida dependerá também da geração operacional em um mercado que a administração considera favorável aos produtores de carne bovina na América do Sul.Leia também: A vez do frango? Carne bovina cara perde espaço nos EUA com mudança no consumoQueiroz disse que a combinação entre produção a pasto e confinamento dá à região uma vantagem de custos que deverá aumentar sua participação na oferta mundial de carne. A expansão do etanol de milho também passou a fornecer subprodutos como DDG e DDGS (da fabricação de etanol, geralmente de milho) a preços competitivos para alimentação animal, o que tende a reduzir os custos de engorda.“Carne bovina cada vez mais vai ser produzida no hemisfério sul”, disse Queiroz. “A competitividade maior é na América do Sul.”Na avaliação da companhia, a oferta global deverá permanecer pressionada em 2026, principalmente pela menor disponibilidade nos Estados Unidos e por movimentos do ciclo pecuário em outros grandes produtores. Brasil, Argentina e Paraguai também atravessam fases de retenção de matrizes, que restringem a disponibilidade de animais para abate no curto prazo e podem ampliar posteriormente a produção de bezerros.Do lado da demanda, Queiroz disse que a companhia tem observado maior resistência do consumo de carne bovina à alta dos preços.A diversificação geográfica é outra peça da estratégia da companhia.A Minerva está presente em sete países produtores e mantém operações downstream nos Estados Unidos, Chile e China, o que, segundo a administração, permite redirecionar produtos conforme preços, tarifas e condições de acesso a cada mercado.“Isso faz parte de uma política de gestão de risco: ter diversificação em uma região em que temos competências estruturais e vantagens comparativas inquestionáveis”, disse Queiroz. Segundo ele, a presença em diferentes geografias funciona como uma proteção contra riscos cambiais, climáticos, sanitários e, mais recentemente, políticos.Essa maior capacidade de arbitragem ganhou importância diante das mudanças recentes no comércio internacional. A China restringiu o acesso da carne brasileira por meio de salvaguardas, enquanto a União Europeia suspenderá, a partir de 3 de setembro de 2026, as importações do Brasil de carnes bovina e de frango, pescado, mel e outros produtos de origem animal.












