Roberto de Carvalho: “Ainda sinto a Rita Lee viva em mim”
Rita Lee ouviu a guitarra de Roberto de Carvalho antes de conhecê-lo – e gostou. A música em que ele tocava era Bandido Coração, composta por Rita para Ney Matogrosso nos anos 1970.
Neste episódio de The Business of Life, apresentado por Nilton Bonder, o músico, compositor e produtor Roberto de Carvalho fala sobre como desistiu de ser diplomata para se tornar músico – e a intensidade dos quase 50 anos de parceria com Rita Lee, encerrada com sua morte em 2023.
Roberto nasceu e cresceu entre Tijuca e Ipanema. Aos 5 anos, perdeu a mãe, vítima de câncer, e foi morar com os tios. Começou a dedilhar o piano aos três anos, mas a música não o puxou de uma vez. Inspirado pela história do avô — Zenóbio da Costa (1893-1963), ex-ministro da Guerra e embaixador no Paraguai — Roberto queria ser diplomata. “As coisas foram acontecendo em camadas,” diz.
No Píer de Ipanema — o point carioca dos anos 70 — Roberto encontrou Jorge Mautner, com quem fez sua primeira gravação profissional. Após passar pela banda de João Ricardo, foi convidado por Ney Matogrosso. Pouco tempo depois de Bandido Coração, Rita e Roberto se encontraram num show (cancelado pela chuva) de Ney no MAM do Rio.
Os primeiros meses foram intensos. Rita engravidou, foi presa pela ditadura e passou por dificuldades financeiras. Roberto estava lá: pegou um ônibus para São Paulo, articulou advogados, foi à gravadora e ajudou a reorganizar a carreira e a vida da mulher com quem começava a construir uma família. “Estava fazendo o que tinha de fazer,” diz.
Pouco depois, entrou na Tutti Frutti, a banda de Rita na época, como tecladista. Depois disso, Roberto se tornou também um parceiro na composição: o primeiro resultado foi o sucesso Mania de Você. A partir dali, vieram Lança Perfume, Saúde e uma sequência de álbuns que ajudaram a definir o pop brasileiro.
O processo criativo era íntimo e pessoal. Ele tocava melodias, enquanto Rita prestava atenção com um gravador de fita. Em um segundo momento, ela ouvia a fita e, aos poucos, escrevia as letras. “Eu, naquela minha coisa de ficar tocando, de ficar improvisando. E a Rita, muito disciplinada, capricorniana, meio metódica,” diz.
Na parte final da conversa, emocionado, Roberto crê que Rita não foi embora. “Eu sinto a Rita viva em mim,” diz. Em um novo relacionamento, diz estar vivendo um novo momento — que não substitui a dor, nem concorre com ela. “Estou vivendo um momento de grande bênção.”
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