Vicunha reage a Shein e Shopee, enxuga estoque, amplia portfólio e mira voltar a lucrar
Depois da entrada massiva de roupas importadas por plataformas asiáticas como Shein e Shopee, a Vicunha, uma das maiores fabricantes brasileiras de tecidos, se prepara para voltar a lucrar.Controlada pela família Steinbruch, a companhia reverteu o prejuízo de R$ 33,9 milhões no primeiro semestre do ano passado para um lucro líquido de R$ 18,78 milhões nos seis primeiros meses deste ano.Segundo o CEO da Vicunha Têxtil, Marco Antônio Branquinho, o grande foco da empresa atualmente é a redução do endividamento e o aumento da rentabilidade, após amargar prejuízo de R$ 100 milhões no consolidado de 2025."Não existe cenário otimista para a importação, temos que lutar com as armas que nós temos. Portfólio de produtos diferenciados, velocidade de entrega, atendimento, assistência técnica, não é só produto, é serviço também", disse o executivo em entrevista à Bloomberg Línea.⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.Hoje, a Vicunha atua com foco principal no segmento jeanswear, com 70% da receita proveniente do mercado doméstico e, o restante, espalhado por países da América do Sul, Europa e Ásia.No total, são 6.320 funcionários e fábricas na Argentina e no Equador, além do Brasil, onde a capacidade instalada é de 160 milhões de m² . Atualmente, a companhia trabalha com utilização máxima de capacidade (90%).“Parte do que produzimos na Argentina está sendo enviada para o Brasil”, relatou Branquinho.A Vicunha tem um modelo de atuação que não se restringe à produção de tecidos, extrapolando para desenvolvimento dos projetos em parceria com os clientes. O executivo explica que, além de participar ativamente no desenho das coleções, a empresa trabalha na especificação técnica. A fabricante também propõe o modelo que se encaixa melhor no projeto, com ou sem terceirização de produção. “Em alguns casos, o pedido não justifica que a gente produza a matéria-prima.”Branquinho chegou à Vicunha em setembro do ano passado, após mais de 20 anos na concorrente Cedro Têxtil. Com ele, chegou também o atual CFO, Rafael Pavão. Para reverter o quadro de prejuízo, a principal estratégia adotada pela nova gestão foi “arrumar a casa” e preparar as bases para voltar a lucrar. Leia também: Cimed quer brigar com gigantes globais de consumo para crescer, diz João Adibe“Ajustamos as forças que a própria Vicunha já tinha e não estavam sendo utilizadas. Adotamos medidas para recuperar a produtividade, mas precisávamos de tempo e fôlego para que essas ações maturassem”, contou Branquinho.Ele acrescentou que a empresa buscou no capital de giro os recursos necessários para poder estabilizar o caixa, em um trabalho que passou pela redução de estoques e adequação de prazos de compra e de venda a clientes. “O estoque elevado, na maioria absoluta dos casos, esconde as reais causas de perda de eficiência e produtividade. Hoje temos uma ideia muito mais precisa tanto do ponto de vista de alocação de capital quanto da necessidade de investimentos.”Pavão observou que no primeiro trimestre houve a consolidação da estratégia adotada desde o final do ano passado, o que inclui correções no mix de produtos e nas despesas da companhia em todas as frentes. As adequações também incluíram novos critérios de compras, com prazos mais adequados.De acordo com o executivo, para que a companhia possa trabalhar menos estocada, a fábrica precisa operar em sintonia fina com o comercial, com a produção puxada e não “empurrada”. Isso tudo, acrescenta, acontece em paralelo com a área de contas a receber, para que não haja inadimplência e consumo de capital de giro. “Isso faz com que possamos desalavancar a companhia e trazer uma rentabilidade relativamente rápida em um horizonte de 9 meses, com muito trabalho da equipe”, diz Pavão.Retomada de desempenhoNo primeiro semestre deste ano, a Vicunha registrou receita líquida de R$ 1,04 bilhão, queda de 18% sobre o mesmo período do ano passado. No entanto, a companhia conseguiu lucrar no período, após prejuízos sucessivos. No semestre, a empresa reportou um lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) de R$ 113 milhões, alta de 33% sobre igual intervalo do ano passado, e margem de 11%. O resultado semestral ultrapassou o Ebitda do acumulado de todo o ano de 2025. Já a dívida líquida caiu de R$ 770 milhões para R$ 720 milhões, com o índice de alavancagem financeira passando de 2,9 vezes, em 2025, para 2,7 vezes este ano. Segundo Branquinho, o desempenho ocorre em meio à deterioração da economia, com a capacidade de compra das famílias comprometida e uma dispersão da renda. “As bets, hoje, são um concorrente do varejo e do setor de serviços. A disponibilidade [da renda] para bens de consumo diminuiu no mercado brasileiro como um todo.”"A disponibilidade [da renda] para bens de consumo diminuiu no mercado brasileiro como um todo". (Foto: Empresa/Divulgação)Ele acrescentou que a Vicunha e todo o varejo de vestuário enfrentam concorrência direta de importações das plataformas asiáticas que, em sua visão, são consequência de incentivos à venda de produtos sem rastreabilidade.Leia também: Jeep se prepara para nova fase com híbrido a R$ 119 mil diante do avanço de chinesas“Não somos contrários à importação, nós também exportamos. Mas permitir esse tipo de importação que muitas vezes não respeita legislação ambiental, trabalhista e tributária é um crime de lesa-pátria.”O executivo pondera que o varejo brasileiro vem sendo substituído por empresas asiáticas, em detrimento de 25 mil companhias nacionais de confecção. “Vamos pagar muito caro por essa conta. Daqui a algum tempo, não vamos ter mais indústria e varejo, estamos destruindo a capacidade de gerar emprego e renda.”Para o futuro, a Vicunha deve se concentrar na redução do endividamento, aumento da rentabilidade e crescimento. Pavão afirmou que a busca por um índice de alavancagem de 2 vezes para o final de 2027 é factível.Desde a sua criação, há quase 60 anos, a Vicunha mantém o foco em jeanswear, mas recentemente a companhia vem se preparando para atuar no nicho de uniformes (“workwear”), tanto na indústria e serviços quanto em Defesa (forças de segurança como polícia, bombeiros, guardas municipais, Exército, Marinha e Aeronáutica). “Isso ocorre em um movimento lateral de expansão”, disse Branquinho.Leia também:Fiat prioriza carros de entrada e quer atingir capacidade máxima em Betim, diz CEOCarros chineses impulsionam mercado no Brasil, mas reduzem peso da produção nacionalEmbraer espera ter capacidade de produzir até 120 aviões comerciais por ano até 2030



























