Hapvida (HAPV3) vence desconfiança e sobe mais de 30% em agosto – mas otimismo veio para ficar?

Ação da operadora de planos de saúde perde mais de 45% nos últimos 12 meses

Foto: Shutterstock

Depois de um período de tormenta, com o preço da ação caindo mais de 45% nos últimos 12 meses, a Hapvida (HAPV3) parece ter entrado em rota de recuperação desde a divulgação dos resultados do segundo trimestre, em 11 de agosto – e voltado às graças do mercado.

Do dia da divulgação dos números até agora, o papel já valorizou 22%. Considerando todo o mês de agosto, o avanço é de mais de 30%.

Os números, inclusive, fizeram com que analistas como Fred Mendes, Gustavo Tiseo, Mirela Oliveira e Lucca R. Brendim, do Bank of America, revisitassem sua tese de investimento. Em relatório de 12 de agosto, o banco passou a recomendar a compra da ação da Hapvida, afirmando que “a confiança está restaurada” depois de a empresa aumentar o número de clientes mesmo sofrendo forte concorrência.

O BofA citou ainda a queda na sinistralidade – índice que mede o acionamento dos seguros vendidos pela companhia – como sinal de força do modelo de negócios da Hapvida, e espera melhora contínua nos resultados por causa dos aumentos de preços feitos pela companhia e por sua capacidade de crescimento orgânico – ou seja, de ganhar clientes sem recorrer a aquisições.

Estes resultados, na avaliação de gestoras posicionadas na ação consultadas pela Agência TradeMap, mostram que a empresa está deixando para trás as heranças da pandemia de Covid-19.

Golpe duplo

Em um primeiro momento, segundo Daniel Namur, sócio e analista da AZ Quest, com a chegada da pandemia e a consequente pausa nos procedimentos eletivos, os hospitais registraram queda de ocupação, uma vez que as pessoas evitaram realizar exames, consultas e outros procedimentos que pudessem ser adiados.

Para as operadoras de planos de saúde isso foi positivo, pois gerou redução de custos e dos índices de sinistralidade.

“Este cenário levou as operadoras a um patamar de rentabilidade histórico, nunca antes visto. E isso levou muitos players a serem mais agressivos em preços para ganharem vidas”, explica Namur, dizendo que, por terem mais dinheiro em caixa e custos menores, as operadoras puderam diminuir preços.

“Isso, naturalmente, acabou causando uma dinâmica de competição mais acirrada para a Hapvida, que sofreu com uma desaceleração no crescimento orgânico da carteira”, completa. Historicamente, a verticalização das operações da Hapvida, que além dos planos de saúde oferece os serviços médicos e hospitalares, permitia que ela fosse mais eficiente em custos e, assim, mais agressiva em preços.

Segundo um analista de uma das maiores gestoras do Brasil, que falou em condição de anonimato, quando as demais operadoras também foram capazes de ser agressivas em sua precificação, houve quem pensou que essa perda de vidas para a concorrência fosse estrutural.

As coisas pioraram com a chegada da variante Ômicron do coronavírus e a forte retomada de procedimentos eletivos. Estes dois fatores levaram as operadoras a registrarem aumento na sinistralidade.

Somou-se a isso o cenário macroeconômico, segundo Saulo Sturaro, sócio da JK Capital, boutique de M&A com forte atuação no setor de saúde. A alta de juros, em particular, prejudicou as operadoras, que costumam ter um endividamento elevado e são consideradas empresas em fase de crescimento.

Hapvida em rota de recuperação

Nesse sentido, os resultados mais recentes da Hapvida se destacam em duas frentes, de acordo com os especialistas consultados pela Agência TradeMap. Em primeiro lugar, o crescimento orgânico maior do que o previsto reverteu a perda líquida no número de vidas registrada no trimestre anterior. O segundo ponto positivo foi a sinistralidade, que caiu.

No segundo trimestre, a companhia registrou adição líquida de 139 mil vidas em seus planos de saúde, e reduziu sua sinistralidade em 2,6 pontos percentuais na comparação com o mesmo período de 2021.

“Enquanto todo mundo teve um incremento sequencial de sinistralidade do primeiro para o segundo trimestre, seja por Covid ou por sazonalidade, a Hapvida teve uma queda”, afirma Daniel Namur, que acredita que isso se deve à verticalização das operações da companhia. “Você tem todos os custos dentro de casa, então consegue controlar melhor”, explica.

E as dinâmicas do mercado indicam que o crescimento orgânico de vidas deve continuar, na avaliação do analista. Com margens pressionadas pela sinistralidade, as outras empresas do setor terão de aplicar grandes reajustes de preço, o que pode levar os clientes a migrarem para a Hapvida, que oferece planos mais baratos.

“Os clientes buscam alternativas de planos mais acessíveis, acabam dando um downgrade de plano, e isso beneficiaria a Hapvida”, afirma Namur.

A sinistralidade, na visão de Namur, também deve se manter sob controle, beneficiada pelo modelo verticalizado da companhia.

Apostas elevadas

“Olhando para frente, as expectativas para o segundo semestre são melhores. Mas é importante ressaltar que ainda não é em um patamar normalizado”, afirma um segundo analista de uma grande gestora, que também optou pelo anonimato.

O analista menciona que alguns eventos dos últimos trimestres, como o reajuste negativo dos planos no ano passado, a Covid-19 e a inflação médica, seguem pesando sobre os resultados.

“É algo que vai acontecer ao longo dos próximos trimestres. Ainda tem um caminho a ser percorrido”, afirmou. Sua gestora tem uma posição em Hapvida, mas que foi reduzida após os resultados do primeiro trimestre.

“A nossa visão vem ficando mais e mais construtiva. O resultado do primeiro trimestre foi muito ruim e assustou bastante o mercado, mas entre o resultado do primeiro e o do segundo trimestre fomos ficando mais construtivos”, afirma o analista citado anteriormente. A Hapvida tem grande participação na carteira da casa, e a posição vem sendo incrementada.

Como pontos positivos da Hapvida, o especialista cita seu modelo verticalizado, que traz eficiência de custos; seu posicionamento em um mercado em crescimento, devido ao envelhecimento da população; sua capacidade de repasse de preços acima da inflação e o cenário da concorrência, com muitas empresas fragilizadas financeiramente. No curto prazo, a empresa deve seguir se beneficiando da recuperação dos resultados.

Saulo Sturaro, da JK Capital, aponta também que, com a fusão com a GNDI, a Hapvida ganha ainda mais vantagem no processo de consolidação do setor – que, apesar da forte movimentação de fusões e aquisições, segue muito fragmentado.

Copo meio vazio

Todos estes pontos, aliados às potenciais sinergias da fusão com a GNDI, criam o cenário de “copo meio cheio” para a Hapvida. Há, porém, o “copo meio vazio”, segundo um dos gestores consultados: o apetite da concorrência.

O reajuste de 15,5% nos planos de saúde, autorizado pela ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), permite que as empresas recomponham suas margens, mas também pode impactar a base de clientes, caso concorrentes optem por praticar reajustes menores. “O grande ponto de interrogação, que sempre ficamos de olho aqui, é quão sensível o cliente da Hapvida, que costuma contratar planos mais baratos, é com relação a esses aumentos”, afirma.

Sturaro aponta o cenário macroeconômico como um potencial risco para a empresa, caso a inflação e a taxa Selic permaneçam elevadas por mais tempo do que o esperado.

Há ainda, na visão de Sturaro, questões regulatórias, como a recente aprovação da lei que estabelece um piso para o salário de enfermeiros, cujo impacto negativo pode ficar entre 6% e 7% do Ebitda da Hapvida, na análise do BTG Pactual. Ainda que sua expectativa seja de um cenário sem surpresas, o especialista aponta que sempre existe a possibilidade de novas questões surgirem.

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