Com a aproximação do fim do ciclo de alta de juros no Brasil e expectativa de corte no ano que vem, além da desaceleração da inflação, gestoras como Occam, Norte Asset, AZ Quest, Genoa e Claritas Investimentos aumentaram a posição em ações de empresas dos setores de consumo e varejo domésticas. Mas é hora para esse movimento? Quais as ações os gestores veem mais potencial?
Levantamento do Bank Of America (BofA) mostrou que o percentual de gestores, na América Latina, que estão com posição overweight (acima da média do mercado) em papéis do setor de consumo discricionário cresceu de 3% em julho para 33% neste mês.
“Com a melhora da inflação, o mercado começou a antecipar a queda da taxa Selic para o período entre abril e março do ano que vem, e isso é saudável para o mercado de renda variável, principalmente para as empresas mais sensíveis ao ciclo de juros como do setor de varejo”, diz João Mamede, analista sênior de renda variável da AZ Quest.
Essa mudança de alocação tem sustentado o bom desempenho das ações de empresas de consumo desde julho. O índice Icon, que acompanha a performance desses papéis na Bolsa, superou o do Ibovespa desde julho. De julho a 22 de agosto, o Icon registra alta de 16,69%, contra 12,14% do principal índice da B3.
Aproveitando as pechinchas na Bolsa
Uma das empresas que aproveitaram os preços descontados dos papéis de consumo na Bolsa para aumentar a alocação em ações do setor foi a Occam. A estratégia foi colocada em prática embora a gestora ainda mantenha posição vendida (apostando na queda) em papéis de empresas que estão mais endividadas e que podem ter problema de liquidez com o cenário de juros em patamar elevado.
A Occam busca empresas líderes em seus setores, com vetor próprio de crescimento e pouco endividadas. Nesse cenário, a gestora aumentou a posição em papéis da Lojas Renner (LREN3), entre maio e junho, companhia na qual vê potencial de crescimento de market share e resultados menos impactados pelo aumento da inadimplência.
“O duration [prazo médio] da carteira de crédito da Renner é muito curto comparado a de outros segmentos de bens duráveis como o financiamento de TV, cujos prazos dos empréstimos são mais longos”, afirma Flávio Machado, sócio e gestor de renda variável da Occam.”Em um cenário de piora macroeconômica, com eventual aumento da inadimplência, a Renner pode segurar a concessão de crédito e limpar o balanço mais rapidamente.”
A gestora AZ Quest também adicionou recentemente as ações da Lojas Renner na carteira. “A empresa tem boa liquidez e boa gestão”, destaca Mamede.
A varejista registrou aumento de 86,7% do lucro líquido no segundo trimestre frente ao mesmo período de 2021, somando R$ 360,4 milhões.
Ainda em varejo de vestuário, a AZ Quest tem posição nas ações da Arezzo (ARZZ3), voltada para o público de média e alta renda, mais resiliente em cenários de inflação elevada. “É uma empresa com ótima gestão, que sabe navegar em períodos adversos e oferece proteção para a carteira em momento de maior volatilidade com o cenário eleitoral”, diz o analista sênior da AZ Quest.
A Claritas investimentos foi outra gestora que aumentou a posição em Lojas Renner e adicionou Arezzo à carteira. “Essas empresas estavam negociando com múltiplos descontado de 15 vezes o preço/lucro, [abaixo da média histórica] e estão entregando operacionalmente”, diz Eduardo Morais, gestor de ações da gestora.
De forma geral, a Claritas reduziu a exposição a commodities, que começaram a sofrer com o risco de recessão global, e aumentou a alocação em empresas domésticas dos segmentos mais cíclicos, com a visão de que a taxa básica de juros já tinha chegado no pico.
Auxílio Brasil deve beneficiar empresas de consumo básico
A ampliação do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 em agosto deve beneficiar principalmente as empresas de consumo básico como as de varejo alimentar. Os dois candidatos a presidente mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto, Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), já indicaram a intenção de tornar o aumento do benefício permanente.
Nesse cenário, a Occam vê oportunidade nos papéis da rede de atacarejo Assaí (ASAI3), que apresenta potencial de crescimento de market share com a conversão das lojas do Extra, adquiridas do grupo Pão de Açúcar (PCAR3), em lojas da rede de atacarejo. “O segmento de varejo alimentar é mais resiliente e menos cíclico”, ressalta Machado.
Mamede lembra que o público do Assaí é mais concentrado nas classes média e média baixa, que devem ser mais beneficiados com o aumento do Auxílio.
Gestores reduzem aposta contra ações de e-commerce
Com os preços já bastante descontados das ações de Magalu (MGLU3) e Via (VIIA3), que acumulam queda de 78,15% e 70,98% em 12 meses, a gestora Norte Asset zerou a posição vendida (apostando na queda) nesses papéis e reduziu a feita contra ações de varejo, que chegou a render um bom retorno ao Norte Long Bias neste ano.
O fundo acumula alta de 9,71% no ano, até julho, contra queda de 1,58% do Ibovespa, no mesmo período. “Zeramos as posições nesses papéis antes dessa alta recente”, diz Roberto Vidal, sócio e responsável pela área de relações com investidores da Norte Asset.
A gestora comprou ainda papéis de varejistas que também estavam com preços muito descontados como Mercado Livre (MELI) e Americanas (AMER3), afirma Vidal. Além disso, manteve a alocação em papéis de consumo básico como da farmacêutica Hypera (HYPE3) e do Assaí.
A gestora Genoa Capital, por sua vez, reduziu a posição vendida em ações de varejo e e-commerce e aumentou a alocação em papéis do setor de consumo como Assaí e Grupo Soma (SOMA3). “O Grupo Soma está negociando a um múltiplo de 16 vezes o preço sobre o lucro projetado e vemos grande potencial de alta para o papel com a aquisição da Hering [aprovada ano passado]“, afirma Wlad Ribeiro, sócio e gestor de renda variável da Genoa Capital.
Recuperação de empresas de e-commerce ainda deve demorar mais tempo
Apesar da recuperação recente das ações de empresas de varejo com operações de e-commerce, a exemplo de Magalu, Via e Americanas – que subiram 75,64%, 71,88% e 32,69% respectivamente desde julho -, os gestores ainda não estão otimistas para voltar a comprar esses papéis.
Para Mamede, a alta recente das ações do segmento reflete a expectativa de antecipação de corte de juros e a redução da posição vendida (apostando na queda) de alguns players nesses papéis. “Estamos menos otimistas com o setor de e-commerce , que deve demorar mais tempo para recuperar o crescimento que entregaram no passado”, diz Mamade.
A gestora Genoa também ainda não vê oportunidade para ter exposição a empresas de e-commerce nacionais. “Temos uma posição em Mercado Livre, que tem maior vantagem competitiva em termos de logística e rentabilidade que outros players do setor”, informa Ribeiro.
A perspsectiva de taxa de juros em patamar elevado, de dois dígitos, por um bom tempo, a maior competição no setor e a dependência do crédito são fatores que ainda devem dificultar uma recuperação mais rápida da rentabilidade dessas empresas de e-commerce nacionais, de acordo com os gestores.
No segundo trimestre, essas empresas reportaram resultados fracos, com Magalu e Americanas registrando prejuízo e Via apresentando queda de 95,45% no lucro em relação ao mesmo período do ano anterior.
O analista da AZ Quest ainda não vê uma mudança de fundamentos para essas empresas e destaca que o crescimento de GMV (métrica que se aplica ao varejo online e indica quanto da receita foi gerada pelos seus canais digitais) ainda deve continuar bastante baixo.
“Não vemos grande crescimento para a carteira core dessas empresas, expostas a poucos produtos como geladeira, fogão, TV e smartphones, itens que tiveram aumento de demanda na pandemia, mas que depois apresentaram ressaca nas vendas”, diz Mamede, da AZ Quest
Embora a entrada da rede 5G de celular e a Copa do Mundo possam ajudar a impulsionar a venda desses itens, Mamede destaca o fato de o tíquete médio mais alto desses produtos aumentar a dependência do crédito, que vem sendo reduzido pelos bancos com piora da inadimplência.
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