A Bolsa brasileira iniciou 2023 com o pé esquerdo e derreteu nesta segunda-feira (2), refletindo o receio dos investidores com os primeiros sinais do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), sobretudo com a sustentabilidade das contas públicas.
Em dia de pregão fechado em Wall Street pelo recesso de início de ano, as falas de Lula e a desoneração de tributos federais sobre combustíveis anunciada nesta manhã, assustaram o mercado e fizeram os juros futuros e o dólar dispararem.
Com isso, o principal o Ibovespa caiu 3,06% no primeiro pregão do ano, aos 106.376 pontos e volume financeiro de R$ 11,68 bilhões, segundo dados disponíveis na plataforma TradeMap.
Risco fiscal volta ao radar
O temor de descontrole dos gastos públicos voltou a pressionar o humor dos investidores após Lula declarar a intenção de extinguir o teto de gastos, principal âncora fiscal do país. Ao assumir o comando do país, o petista também determinou a retirada da Petrobras (PETR4; PETR3) e Banco do Brasil (BBAS3) do programa de desestatização do novo governo.
Os sinais dados pelo atual governo nas últimas semanas fizeram os analistas ouvidos pelo Boletim Focus reforçar as expectativas de manutenção dos juros pelo Banco Central nos próximos meses.
Agora, a expectativa é que a Selic alcance 12,25% ao ano em dezembro, contra expectativa anterior de 12% ao ano. A mediana das projeções para a taxa no final de 2024 foi mantida em 9% ao ano. Atualmente, a Selic está em 13,75% ao ano.
O novo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tentou amenizar o mal humor ao ressaltar em seu discurso de posse que uma nova regra fiscal deverá ser apresentada ainda no primeiro semestre deste ano, mas o estrago no mercado já estava feito, pontuou Leandro Petrokas, diretor de Research e sócio da Quantzed.
“Ao criticar reformas dos últimos governos e a privatizações, o mercado reage de forma negativa com contratos de juros futuros subindo, também com dólar em alta nesse cenário com mercado reagindo de forma ruim às falas do novo governo”, afirmou.
Ações domésticas sofrem mais
Diante dessas pressões domésticas, as ações da São Martinho (SMTO3) puxaram a queda, com tombo de 11,39%. O desempenho, porém, tem mais relação com reajuste frente às altas recentes. Da metade de dezembro até o último pregão do ano, por exemplo, o papel da companhia teve uma alta de 15,61%.
Os papéis da empresa também sentiram a desoneração dos combustíveis anunciada pelo novo ministro da Fazenda. A medida provisória isenta o PIS/Cofins e a Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) sobre óleo diesel, biodiesel e gás natural até o fim deste ano.
No caso da gasolina e do álcool, a medida vale por 60 dias, até fevereiro. O mesmo prazo foi determinado para querosene de avião e gás natural veicular.
O risco com o futuro da economia fez disparar os contratos de juros futuros. As opções com vencimento em 2026 subiram 29 pontos-base, a 12,89%. Já os papéis com vencimento em 2028 avançaram 32 pontos-base, a 12,93%.
Diante do aumento dos juros, os papéis com maior exposição à economia doméstica prevaleceram entre as baixas. Grupo Soma (SOMA3) perdeu 8,78%, enquanto Hapvida (HAPV3) e Locaweb (LWSA3) desvalorizaram 8,66% e 8,55%, nesta ordem.
O risco de intervenção do novo governo também derrubou os papéis de estatais. Banco do Brasil (BBAS3) perdeu 4,23%, enquanto o papel preferencial da Petrobras caiu 6,45%, e o ordinário, 6,67%.
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Méliuz sobe após venda para o BV
Entre as poucas que fecharam no verde, destaque para a alta de 3,39% da Méliuz (CASH3). A valorização reflete o comunicado de uma aliança estratégica com o Banco Votorantim, divulgado na noite de sexta-feira (30).
O banco comprou 3,85% do capital do Méliuz por R$ 1,50 por ação, além de ter a opção para comprar mais 20%, que hoje forma o bloco de controle da startup de cashback, com prazo de até 24 meses.
A aquisição inclui, também, 51% do Bankly, o braço de soluções financeiras do Méliuz. O banco poderá comprar os 49% restantes nos próximos 90 dias, avaliando o Bankly em um total de R$ 210 milhões.
Na visão do analista CNPI da Agência TradeMap, Sérgio Castro, a aliança ocorre em um “bom momento para o Méliuz, que vem enfrentando dificuldades com a concorrência do setor”.
“O incremento no caixa e a parceria de vendas com o BV permitem que a empresa adquira maior quantidade de clientes e dilua custos fixos. Isto impacta positivamente na rentabilidade do negócio”, comentou Castro, em análise.
Também fecharam em alta nesta segunda os papéis da Suzano (SUZB3), com valorização de 1,53%, CSN (CSNA3), com avanço de 1,17% e IRB (IRBR3), que subiu 1,16%.
Mercado global e criptos
No exterior, os principais mercados não abriram nesta segunda-feira em meio ao recesso de Ano Novo. Uma das exceções foi o Euro Stoxx 50, principal indicador do mercado Europeu, que fechou em alta de 1,77%.
Mais cedo, divulgação do índice gerente de compras (PMI, na sigla em inglês) do setor industrial europeu registrou 47,8 pontos em dezembro, uma alta em relação aos 47,1 pontos no mês anterior.
Em relatório, a XP ressaltou que o dado sugere que a desaceleração econômica local pode ter passado do seu pior ponto, podendo indicar uma recuperação, “à medida que as cadeias de suprimentos vão se normalizando e as pressões inflacionárias arrefecem”.
Sem uma referência internacional, o mercado de criptoativos praticamente andou de lado neste primeiro dia útil de 2023.
Por volta das 17h, o Bitcoin (BTC) tinha leve alta de 0,88% em comparação as últimas 24 horas, negociado a US$ 16.699, de acordo com a plataforma TradeMap. Na mesma hora, o Ethereum subia 2,26%, a US$ 1.215.