Mercado cripto ainda será aposta arriscada em 2023? Veja o que dizem especialistas

Problemas vistos em 2022 devem se manter ao longo do próximo ano, mas com intensidade menor

Foto: Shutterstock/eamesBot

As fortes emoções – nem sempre positivas – que marcaram o mercado cripto nos últimos meses devem se estender para 2023, principalmente na primeira metade do ano.

Mesmo com a virada do calendário, a alta dos juros americanos e europeus (um dos fatores que prejudicaram as criptomoedas neste ano) continuará no curto e médio prazo, assim como as dificuldades impostas à economia da China pela política restritiva de combate à Covid-19.

Com esse cenário pouco otimista no radar, analistas do mercado cripto reforçam a recomendação de cautela, mas também apontam boas oportunidades para os investidores em 2023.

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“O próximo ano tende a continuar com um ambiente de menor liquidez nos mercados, o que torna mais vantajosa a exposição a ativos de renda fixa e menos arriscados”, afirma Thiago Alves, analista da Titanium Asset.

Ao mesmo tempo, porém, ativos de renda variável – categoria em que se encaixam as ações e as criptomoedas – “tendem a ficar descontados” mesmo se tiverem bons fundamentos e, consequentemente, chance de se valorizarem futuramente, acrescenta.

Ano novo, problemas velhos

Quando se desenha um prognóstico para ativos de risco, como as criptos, é fundamental colocar na conta as perspectivas para os juros das maiores economias do mundo.

O que se espera pela frente é que as taxas continuem subindo, ainda que em menor intensidade.

Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (banco central americano) promoveu a maior sequência de alta nos juros em 15 anos ao longo de 2022. Em janeiro, os juros por lá estavam entre zero e 0,25%, e vão encerrar o ano entre 4,25% e 4,50%.

Apesar da sinalização que os juros vão subir menos nos próximos meses, a expectativa é de que leve tempo para este movimento ser revertido. Ao fim do ano que vem, a previsão do próprio Fed é de que as taxas terminarão 2023 perto de 5%.

“Ainda tem essa acomodação para ocorrer no primeiro semestre de 2023. Tem um delay. O que estamos sentindo são os primeiros aumentos dos juros, e acredito que o Fed tem essa postura de uma hora parar para ver o efeito completo”, detalha Pedro Lapenta, head de research da Hashdex.

No mesmo raciocínio, André Franco, head de research da Mercado Bitcoin, destaca que para a primeira metade do ano que vem já devemos ter um pouco de alívio, mas que tudo está relacionado a como o Fed vai se comportar.

“O Fed ainda não está confortável para ‘pivotar’ os juros, mas espera-se que 2023 seja de aumentos menores”, pontua.

Sem cisnes negros

Além das questões macroeconômicas, os problemas intrínsecos e imprevistos do mercado cripto, também chamados de “cisnes negros”, foram fundamentais para o derretimento das cotações ao longo dos últimos meses.

O maior destes eventos negativos em 2022 foi o colapso do sistema TerraForm Labs, responsável pelas criptos Terra (LUNA) e USD Terra (USDT), em maio. Os efeitos reverberaram por todo o mercado e provocaram a quebra de empresas e prejuízos de bilhões de dólares para os investidores.

O pessimismo com o mercado cripto depois disso continuou gerando problemas nos meses seguintes. O exemplo mais recente foi a quebra da FTX, uma das principais corretoras do mercado cripto, no início de novembro.

A Justiça americana ainda investiga as causas da falência, mas reportagens e declarações dos próprios funcionários indicam que a companhia, afetada por perdas relacionadas ao derretimento das criptos, usou dinheiro de clientes para cobrir desfalques e acabou sendo desmascarada quando precisou devolver os recursos.

Até o momento, no entanto, o problema na FTX parece estar exercendo um efeito negativo mais pontual sobre o mercado do que a quebra do TerraForm Labs, ressalta Alexandre Ludolf, CIO da QR Asset.

Estratégia para criptos em 2023

Diante deste contexto, os analistas ressaltam que a estratégia dos investidores que quiserem negociar criptomoedas no ano que vem deverá ser a mesma adotada nos últimos meses: foco em projetos que já se provaram sustentáveis e muita cautela.

Apesar do quadro de aversão ao risco, Alves pontua que o cenário abre boas oportunidades para quem mira o retorno no longo prazo.

“O ano que vem possivelmente dará oportunidades de continuar montando posições em ativos de renda variável, que tendem a voltar a se valorizar quando o processo de ajuste monetário terminar e voltar a se falar em corte da taxa de juros.”, ressalta.

Para ele, o investidor deve manter entre 1% e 10% das posições em criptos, de acordo com o seu apetite ao risco. “Pode ser maior no caso de investidores mais arrojados, com muito mais experiência e que sabem como gerenciar os riscos”, detalha.

Com opinião semelhante, Ludolf, da QR, destaca que os investidores precisam manter os pés no chão e ficar atentos para variações bruscas no mercado. Para mitigar o risco, a recomendação é buscar segurança em ativos com bases sólidas, como o Bitcoin (BTC), maior cripto em volume de negociação.

“As condições não sugerem que possa cair mais, mas o mundo vive uma situação complexa. Se fosse só cripto, já poderia dizer que o pior passou, mas não se sabe se haverá problemas geopolíticos”, diz. 

Para Lapenta, da Hashdex, o Ethereum (ETH), que teve a sua rede atualizada em setembro, deve se manter como uma boa aposta. Apesar da queda em 2022, “a fusão” da rede abre uma série de portas para o barateamento e escalabilidade, o que deve levar os preços para cima.

“Foi o equivalente a trocar uma turbina de avião com ele voando, e passou perfeitamente. A fusão reduz 99,9% do custo de energia e 90% o custo de manutenção da rede”, ressalta o especialista. 

Evite riscos nas criptomoedas

Artur Ribeiro, CEO da Coinext, destaca os riscos envolvendo projetos vinculados às exchanges, como a FTX. Geralmente, os investidores são atraídos a esses tokens pelos descontos oferecidos pelas empresas. Porém, é preciso ponderar se o preço realmente vale o risco.

Com uma visão mais cautelosa, ele recomenda o investimento de 5% do patrimônio em criptos, sempre dando preferência a projetos sólidos e que já se provaram resilientes à volatilidade do mercado.

“O investidor tem que estar muito atento a projetos mais especulativos, que rapidamente tem um sentimento de falta de lastro e fundamento econômico”, frisa.

Seguindo a mesma linha, Felipe Medeiros, analista de criptomoedas e sócio da Quantzed Criptos, destaca que o mercado aprendeu no início do ano passado a não ignorar os sinais da economia macro, e essa lição deve ser levada para os próximos meses.

“As pessoas têm que compreender que o cenário macro vai afetar as criptos de uma forma diferente do que se pensava no início de 2022”, diz.

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