O mercado já esperava um clima de tensão entre o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Afinal, o BC autônomo, regra que entrou em vigor em 2021, prevê que Campos Neto, indicado pelo governo Bolsonaro, se mantenha no comando da instituição que define os juros do país até o final de 2024.
Ou seja, pela metade do mandato de Lula, presidente com um perfil desenvolvimentista na economia e que herdou um Orçamento que prevê déficit primário de R$ 231 bilhões no seu primeiro ano de mandato (mais de 2% do PIB).
Mas o conflito escalou muito mais rápido do que o imaginado.
Após um começo positivo, com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciando medidas para tentar reduzir o rombo para até 1% do PIB, vieram críticas de Lula aos juros altos, às metas de inflação e à autonomia da instituição.
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As expectativas de preços escalaram, e na semana passada o Copom sinalizou que manterá a Selic em 13,75% ao ano até 2024. O presidente da República, dias depois, voltou a criticar os juros altos e se referiu ao presidente do Banco Central como “esse cidadão”.
Enquanto economistas respeitados alertam para o tiro no pé que são as críticas de Lula ao BC, o presidente parece ter intenção de dobrar a aposta.
Nesta segunda-feira (7), a colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, publicou que integrantes do governo lembram que, por dois anos consecutivos, incluindo o ano eleitoral de 2022, as metas de inflação foram estouradas no governo Bolsonaro, o que poderia abrir margem técnica para a exoneração de Campos Neto.
Mas o que está por trás desse ataque tão virulento de Lula, e do duro comunicado do Copom da semana passada? Veja abaixo a linha do tempo dos acontecimentos das últimas semanas, e entenda as consequências sobre as expectativas para inflação e para a taxa básica de juros.
10 de janeiro
Na manhã do dia 10 de janeiro, uma fotografia tirada de longe da tela do celular de Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro, ajudou a colocar lenha na fogueira dessa briga que tomou proporções inéditas e perigosas para a economia.
O registro, publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, mostra as conversas de um grupo de WhatsApp, “Ministros de Bolsonaro”, em que Campos Neto e o ex-ministro da Economia, Paulo Guedes, são marcados e elogiados por um dos participantes: “dando a resposta dentro de campo. Parabéns!!!!!”.
A mensagem é seguida de um texto do ex-ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que diz que os atos de radicais de direita que destruíram as sedes dos Três Poderes em Brasília eram uma boa notícia para o governo Lula.
Não é possível entender o contexto em que o presidente do BC foi marcado na conversa, mas a foto comprova que Campos Neto continuava fazendo parte, dois dias após os ataques, de um grupo formado por ex-ministros de Jair Bolsonaro.
Segundo analistas políticos, Lula não gostou e passou a questionar a independência de Campos Neto, que já vinha sendo criticado pelo entorno do presidente por mostrar uma proximidade considerada excessiva com o antigo governo.
Metade da troca de tiros entre Lula e Roberto Campos se deve à foto abaixo, da @gabrielabilo1 da @folha, mostrando que até 11/jan o presidente do BC estava num grupo de whatsapp chamado “ministros dd Bolsonaro” pic.twitter.com/feH4QNKixb
— thomas traumann (@traumann) February 3, 2023
18 de janeiro
A resposta veio pouco mais de uma semana depois. Em entrevista à Globonews no dia 18 de janeiro, Lula criticou a autonomia do Banco Central, dizendo que era uma “bobagem”.
Disse ainda que Henrique Meirelles, que foi presidente do BC no seu mandato anterior, era muito mais independente do que Campos Neto e questionou as metas de inflação excessivamente rígidas para 2023 e 2024.
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Nos bastidores, circulou a informação de que o presidente estava insatisfeito com o fato de que Campos Neto sequer havia condenado os ataques em Brasília – após as críticas, o presidente do BC, que passou um período de férias no início do ano, se manifestou e disse que os atos golpistas eram “inaceitáveis”.
De acordo com jornais como a Folha de S. Paulo e O Globo, o presidente desconfia da isenção de Campos Neto por seu comportamento durante o governo Bolsonaro, quando chegou a discursar em eventos de promoção da política econômica do governo anterior. Na época, o comandante do BC admitiu que sofreria críticas, mas justificou que a equipe econômica, chefiada pelo ministro Paulo Guedes, era totalmente técnica.
Campos Neto, que ao longo do governo Bolsonaro frequentou encontros sociais promovidos por políticos aliados ao ex-presidente, também compareceu à posse de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e aliado do antigo governo.
27 de janeiro
A violência dos ataques de Lula a Campos Neto, com críticas ao BC autônomo e às metas de inflação, teve como consequência um forte salto nas expectativas para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) de 2023 e 2024.
O Boletim Focus coletado no dia 27 de janeiro mostrou que os analistas ouvidos semanalmente pelo BC passaram a esperar um IPCA de 5,74% em 2022 (versus 5,48% da pesquisa anterior) e de 3,90% em 2024 (ante 3,84% da pesquisa anterior).
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Como a meta deste ano para a inflação é de 3,25% e, para o ano que vem, de 3%, sempre com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo, essa disparada nas expectativas foi o principal motivo para o Copom sinalizar que precisará manter a Selic elevada por mais tempo.
No encontro de dezembro do comitê, nos dias 6 e 7 de dezembro, o mercado esperava uma inflação mais próxima de 5% para 2023 e de 3,50% para 2024, e agora essa projeção já está mais perto de 6% e 4%, respectivamente.
7 de fevereiro
Após semanas de tensão, parte dos economistas enxergaram uma trégua na fala do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que nesta terça, após a divulgação da ata da última reunião do Copom, afirmou que o documento mostrou um BC “mais amigável”.
No documento, o colegiado reconheceu que o pacote fiscal anunciado por Haddad pode ajudar a reduzir as pressões fiscais e apontou que há sinais de enfraquecimento da economia, ao mesmo tempo em que reforçou os riscos na mesa para a alta de preços.
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“Uma ata mais extensa, mais analítica, colocando pontos importantes sobre o trabalho do Ministério da Fazenda. É uma ata mais amigável em relação aos próximos passos que serão tomados”, afirmou o ministro.
Em fala hoje, Campos Neto não se referiu diretamente às críticas, mas voltou a defender a autonomia do BC, frisando que ela visa separar o ciclo de política monetária do ciclo político, já que estes possuem “diferentes lentes e diferentes interesses”.