Índice de inflação utilizado no reajuste de contratos de serviços, o IGP-M (Índice Geral de Preços ao Consumidor) fechado de outubro pode ter nova queda, a terceira seguida, em um cenário de commodities mais baratas por causa da desaceleração da economia mundial. Se essa tendência se confirmar, a tendência é de menos pressão sobre a inflação dos consumidores em 2023, ainda mais em um cenário em que o aumento na taxa básica de juros (Selic) estará chegando à ponta.
A avaliação é do economista André Braz, coordenador dos índices de preços da FGV (Fundação Getúlio Vargas), que comentou, a pedido da Agência TradeMap, o resultado da segunda prévia do IGP-M deste mês, que mostrou uma queda de 0,83%. O indicador anterior, da segunda prévia de setembro, caiu 0,91%.
“Há chance de o IGP-M fechar negativo mais um mês, e isso antecipa uma fase de bom humor do mercado”, avalia Braz. “Esse bom humor é sustentado pela redução do fôlego de grandes economias, com China e Europa com previsões de crescimento menor, e essa previsão vai colocar essa inflação em um patamar um pouco mais baixo.”
O economista faz a ressalva de que essa queda do IGP-M não deverá contaminar o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) no momento atual, já que os preços ao consumidor estão sendo impulsionados por vestuário – segmento pressionado pelo lançamento da coleção primavera/verão – e pelas hortaliças.
Saiba mais:
Boletim Focus: Mercado reduz previsão para inflação em 2022 e eleva a de PIB para 2023
Na avaliação do especialista, o efeito de uma inflação menor no atacado será sentido mais para a frente, provavelmente em 2023, ajudando a retirar pressão do IPCA no médio prazo.
Commodities em queda
O IGP-M fechado de outubro será divulgado na próxima sexta-feira (28).
O detalhamento da segunda prévia do indicador, que foi divulgada nesta quinta (20), mostrou que a nova queda nos preços foi impulsionada por commodities, como a soja em grão (-0,74%), o algodão em caroço (-9,24%) e a cana-de-açúcar (-2,97%), e com o preço das aves caindo 3,47%.
Leia mais:
IGP-M aprofunda queda e tem deflação de 0,95% em setembro
Já o índice de preços ao consumidor subiu 0,29% no período, com cinco de oito classes registrando aumento, mostrando que, na ponta, a inflação voltou a avançar após alguns meses de trégua.
“O consumidor não deve sentir essa nova queda do IGP-M agora porque há efeitos próprios, sazonais, que estimulam a inflação na ponta. Mas em 2023 os preços devem desacelerar, com os custos mais baixos e uma demanda mais fraca, com juros a 13,75%”, afirma Braz.
Desafios à frente
Há, contudo, ainda muitos desafios no caminho de uma inflação mais comportada. Analistas ouvidos semanalmente pelo Boletim Focus esperam um IPCA de 4,97% para 2023, acima do teto da meta para o ano, e uma taxa básica de 11,25% ao ano em dezembro de 2023.
“Temos visto sinais mistos em relação à inflação nas semanas recentes, com melhora na inflação atual e uma estabilização nas expectativas, além de uma composição preocupante do IPCA”, apontou o Santander, em relatório.
Para o Itaú Unibanco, após um período prolongado de inflação alta, o processo de perda de ritmo dos preços está no início.
“O processo de desinflação apenas começou – e tende a ser lento em itens como serviços”, disse o banco, em relatório. “Adicionalmente, ainda há fontes importantes de incerteza, como preços de commodities, comportamento de ativos financeiros, condução da política fiscal e o nível de hiato da economia [que mede a diferença entre o potencial da economia e o crescimento de fato].”
Parte do mercado acredita que, se a inflação de fato se mantiver em níveis mais baixos, há chance de o Banco Central antecipar o início do ciclo de queda da taxa básica, previsto para fim do primeiro semestre, em alguns meses.
No meio do caminho, entretanto, está a desconfiança em relação à política fiscal do próximo presidente da República, seja o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou o presidente Jair Bolsonaro (PL), com ambos prometendo a manutenção da ampliação de benefícios sociais, como o Auxílio Brasil, que foram concedidos neste ano.
Em um cenário de mais gastos e menos arrecadação – o país deve crescer 0,59% no ano que vem, segundo o Focus -, podem ser necessários juros mais elevados.
“Olhando à frente, seguimos esperando queda da taxa Selic apenas no segundo semestre de 2023”, apontou o Itaú. “Ressaltamos, no entanto, que, todo o resto constante, a intensidade e data de início de um eventual ciclo de cortes estarão particularmente condicionadas a sinalizações sobre o rumo das contas públicas.”