Quando os dois dias de reunião do Copom terminarem, nesta quarta-feira (1º), o Comitê de Política Monetária do Banco Central deve decidir manter a taxa básica, a Selic, em 13,75% ao ano. Pela primeira vez na história, o presidente do BC comanda um encontro do colegiado para decidir os juros no mandato de um presidente da República que não o escolheu.
A manutenção da Selic é consenso entre economistas.
A dúvida que fica no ar é sobre qual recado o comitê presidido por Roberto Campos Neto, cujo mandato dura até 2024, dará ao mercado e também ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva – neste mês, o presidente criticou a autonomia do Banco Central e a atual meta de inflação.
Um dos pontos que deverá ser abordado no comunicado é o fato de as expectativas para a alta de preços terem subido bastante do último encontro, nos dias 6 e 7 de dezembro, para cá.
Na época, o mercado esperava uma inflação mais próxima de 5% para 2023. Mas agora essa projeção está mais perto de 6% – mais exatamente, em 5,74%, segundo o último boletim Focus, divulgado nesta segunda-feira (30).
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As projeções para a alta do IPCA em 2024 também vêm escalando – no início de dezembro, estavam em 3,50%, e agora já estão em 3,90%. A meta deste ano para a inflação é de 3,25% e, para o ano que vem, de 3%, sempre com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo.
Na ata da última reunião do Copom, o colegiado ressaltou que se manteria “vigilante”, com o objetivo de avaliar se a estratégia de manutenção da taxa básica por um período prolongado seria capaz de garantir a inflação na meta.
Para muitos especialistas, o Copom vai reforçar esse discurso na decisão de hoje.
“O comitê irá enfatizar essa mensagem, sinalizando que irá manter a taxa de juros em 13,75% até que as expectativas de inflação estejam ancoradas”, avalia o economista-chefe do C6 Bank, Felipe Salles. “O Copom também deve indicar que está atento às elevações das expectativas para o IPCA vistas no Focus”, completa ele, que espera que o BC comece a cortar juros a partir do terceiro trimestre, com a taxa encerrando o ano em 12,75% ao ano.
A mediana dos analistas do Focus aponta para uma Selic de 12,50% ao ano em dezembro e de 9,50%, ao fim de 2024.
Críticas de Lula à meta de inflação e reajuste na gasolina
Do último encontro do Copom para cá, as expectativas de inflação subiram após a aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que permite ao governo retirar quase R$ 150 bilhões em despesas do limite previsto no teto de gastos.
Mas o grande salto nas projeções para a alta de preços aconteceu na semana passada, após a Petrobras reajustar a gasolina (o impacto sobre o IPCA neste início de ano deve ser de 0,25 ponto percentual) e de Lula criticar as metas de inflação e questionar a importância da autonomia do Banco Central.
Uma semana após as falas polêmicas do presidente, as expectativas para a inflação deste ano saltaram de 5,48% para 5,74%, e as projeções para 2024 atingiram 3,90%.
Apesar de o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ter contemporizado depois, afirmando que esse é um debate a ser feito com tranquilidade, parte dos economistas acredita que o Copom, na decisão desta quarta, vai alertar sobre o impacto que esse tipo de discussão tem sobre os juros futuros e as expectativas do mercado. Para a equipe de macroeconomia do Itaú Unibanco, esse ponto deve ser citado no comunicado divulgado após o fim da reunião.
“O comitê deve sinalizar que ainda vê riscos simétricos para a inflação, com alertas adicionais não só para a evolução das contas públicas, mas também para os debates recentes de arcabouço de política econômica/monetária, em especial, discussões acerca da definição das metas de inflação para os próximos anos, e seus potenciais impactos sobre preços de ativos e ancoragem das expectativas”, apontou o banco, em relatório.
Sinais mistos
Isso quer dizer que o balanço de riscos do Copom mudou? O cenário ficou mais perigoso para a inflação?
Não necessariamente, já que, da última reunião do comitê para cá, a taxa de câmbio se manteve estável, a despeito das incertezas fiscais. Em janeiro, o dólar perdeu valor no mundo todo por causa do contexto de desaceleração da inflação americana e da tendência de redução da alta de juros por lá.
Por aqui, os preços no atacado perderam ritmo, como mostrou o IGP-M (Índice Geral de Preços – Mercado) de janeiro, com o IPA (índice de preços ao produtor) subindo somente 0,10%.
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“A atividade econômica continua a dar sinais de desaceleração, inclusive no mercado de trabalho“, apontou Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos. “Por outro lado, as expectativas de inflação de médio prazo seguem em alta, refletindo o risco de políticas fiscais e parafiscais [ou seja, crédito subsidiado] mais expansionistas à frente”, ponderou o especialista, em relatório.
Tensão entre BC e governo
Na avaliação da XP, o cenário atual caminha para uma tensão crescente entre o Banco Central e o governo Lula – a corretora acredita que a taxa básica será mantida nos atuais 13,75% em 2023.
Isso porque, na medida em que a economia perde fôlego, a pressão sobre o Copom para redução de juros tende a aumentar. “Acreditamos que a discussão sobre o aumento da meta de inflação ganhará força ao longo do ano, o que só alimentaria a dinâmica inflacionária, a nosso ver, como mostra a experiência recente da Argentina”, diz Megale.