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Aquisições são arma de Fleury (FLRY3), Hapvida (HAPV3) e Rede D’Or (RDOR3) na guerra por eficiência

Aquisições são arma de Fleury (FLRY3), Hapvida (HAPV3) e Rede D’Or (RDOR3) na guerra por eficiência

A Hypera também estaria estudando uma fusão com Eurofarma ou Grupo NC, segundo o Valor Econômico

Na última sexta, o Fleury (FLRY3) anunciou a compra do Hermes Pardini. O setor de saúde especulava o negócio há anos.

Foto: Shutterstock

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Na última sexta-feira (1), o Fleury (FLRY3) anunciou a combinação de negócios – que também pode ser chamada de aquisição – do concorrente Hermes Pardini (PARD3). O setor de saúde esperava o negócio há anos, mas a operação custava a sair do papel.

A CEO do Fleury, Jeane Tsutsui, que está no cargo há pouco mais de um ano, liderou a empresa em oito aquisições no período. As sinergias estimadas com o Hermes Pardini devem compensar o prêmio pago no negócio em dois anos – chamando atenção dos demais players do setor de saúde.

A compra da Intermédica, antiga GNDI3, pela Hapvida (HAPV3), finalizada no ano passado, e o crescimento agressivo da Rede D’Or (RDOR3) via aquisições desde que abriu capital na Bolsa, em 2020, são referências do que está por vir.

Segundo o jornal Valor Econômico, em publicação na última quarta-feira (5), a Hypera (HYPE3), maior empresa farmacêutica do Brasil com valor de mercado de R$ 25,1 bilhões, está em negociação com dois rivais – Eurofarma e Grupo NC – para uma eventual fusão.

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O setor de saúde, que interliga hospitais, laboratórios, seguradoras e operadoras de saúde e farmacêuticas, ainda é muito fragmentado no Brasil. 

Com o período pandêmico e a pressão mais intensa nos custos, as empresas menores deste segmento, que têm muito potencial do ponto de vista de capilaridade Brasil afora, passaram a ser alvos de aquisição de empresas maiores, que buscam complementar os próprios ecossistemas. 

Redução de custos e crescimento ‘na marra’ em mercados subdesenvolvidos

O mercado de medicina diagnóstica no Brasil deve girar em torno de R$ 35 bilhões em faturamento bruto em 2022, segundo dados levantados pelo Fleury. Com uma receita combinada de mais de R$ 6 bilhões, a empresa e o Hermes Pardini, portanto, controlarão 18% do mercado nacional. 

Em dólares, o mercado nacional de medicina diagnóstica corresponde a US$ 6,48 bilhões, na cotação atual – o que equivale a menos de 10% dos US$ 68,3 bilhões que as empresas desta área devem faturar nos Estados Unidos em 2022, de acordo com a IBISWorld, consultoria de pesquisa e estatística. 

Mesmo levando em consideração que a população americana é cerca de 50% maior que a brasileira, a discrepância é grande. É de se esperar que o crescimento seja maior entre as companhias brasileiras do que as americanas, que avançaram 3,1% por ano entre 2017 e 2022, segundo a IBISWorld, mesmo que seja “na marra” pelas aquisições.

O setor pode esbarrar na inflação dos custos relacionados ao aumento dos preços dos insumos, aluguéis dos laboratórios e rigidez nos preços das operadoras e seguradoras de saúde.

O processo de consolidação ainda a ser realizado pelos maiores players do mercado visa mitigar esses entraves via sinergias, que são materializadas pela eliminação de sobreposições na folha de pagamentos, ganhos geográficos e em termos de receita.

Mais da metade da receita do Hermes Pardini vem de serviços prestados para outros laboratórios, o que é chamado de lab-to-lab, elo fraco dos negócios do Fleury. 

Receita líquida do Fleury cresceu 227% nos últimos 10 anos

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

Com o negócio, o Fleury elevará a participação nesta vertical e, de quebra, ganhará mais três estados para seu portfólio de atuação: Minas Gerais, Pará e Goiás. 

Dentre as concorrentes, a Dasa (DASA3) – controladora do Delboni Auriemo e Salomão Zoppi, avaliada em mais de R$ 8 bilhões e com quase 1.000 unidades de atendimento – ainda é maior do que o Fleury.

Um possível alvo de aquisição, seja de uma ou de outra, é o Sabin, especialista em medicina diagnóstica com 38 anos de história e mais de 300 localidades. Quem der sopa poderá deixar passar essa oportunidade de mercado. 

Alívio da Hapvida

O caso da Hapvida e da Intermédica é a maior prova de fogo para a tese do crescimento inorgânico das empresas do setor de saúde. 

A combinação das duas empresas foi anunciada em março do ano passado e concluída no primeiro semestre de 2022. A expectativa era de que a operação gerasse em torno de R$ 1,34 bilhão em sinergias até 2024, mas o pontapé inicial foi ruim.

No primeiro trimestre deste ano, a Hapvida, que passou a consolidar os números da Intermédica, saiu do lucro e teve prejuízo de R$ 182 milhões. A reação do mercado foi abrupta: queda de 17% no dia da divulgação.

A companhia demonstrou problemas ao consolidar a operação das duas empresas. Além disso, a sinistralidade contrariou as expectativas e disparou.  

O índice de sinistralidade é o principal indicador das atividades de planos de saúde, resultante da relação entre as despesas com a utilização dos serviços médicos e a receita auferida pelo contrato (prêmio).

Ou seja, o índice é formado por: sinistro (custos com o serviço) / prêmio pago. Com isso, o foco das seguradoras consiste em reduzir essa métrica de forma eficiente, fazendo uma boa gestão dos contratos. 

A Hapvida cresceu com a compra de companhias menores e tinha uma sinistralidade inferior à das empresas adquiridas. Agora, passa por um intenso processo para trazer os números à sua “normalidade”.

Mas, como se não bastasse, os ventos contrários também vêm de Brasília. O Congresso avalia a PEC do piso salarial para enfermeiros, o que, segundo o BTG, pode impactar em 7% o Ebitda anual da Hapvida. Nesta semana, a relatora apresentou parecer favorável ao projeto. 

Embora o processo de aquisições “machuque” o balanço da Hapvida por mais alguns trimestres, não é uma tendência secular e continuará balizando os negócios da empresa daqui para frente. 

Isso porque a companhia precisa enxugar as operações. Como atua com hospitais, sofre por um lado com a inflação médica – que chega a ser 2,7 vezes superior à inflação oficial, segundo o IESS (Instituto de Estudos de Saúde Suplementar). Do outro lado, com planos de saúde, fica à mercê dos reajustes autorizados pela ANS (Agência Nacional de Saúde).

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A propensão pela compra de novos players faz com que o crescimento de receita de forma inorgânica seja acompanhada da redução de custos administrativos e operacionais redundantes. 

Nesta semana, a ANS revisou os números da adição de vidas pela empresa no mês de abril, saindo de um acréscimo de 34 mil vidas para perda de 43 mil vidas.

Em maio, porém, o ganho foi de 111 mil vidas, sendo que 43 mil vieram da Hapvida e 67 mil da Intermédica – dando um alento às dúvidas relacionadas à complementaridade dos negócios e à meta de sinergias. 

Especialistas do mercado entendem que as ações da Hapvida, neste patamar, são um ponto de entrada – embora o valor justo delas seja menor do que antes

Saída para Rede D’Or é a verticalização

A Rede D’Or também será impactada pela criação do piso salarial para enfermeiros, mas em menor medida. O relatório divulgado recentemente pelo BTG mostra que o Ebitda anual da companhia deve ser impactado entre 2% e 3%.

Embora o custo gerado pela decisão política seja aparentemente pequeno, o primeiro trimestre deste ano já deixou a desejar. 

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A disparada da Selic derrubou o lucro da empresa e pressionou ainda mais o endividamento, resultado das diversas aquisições recentes.

Desde o IPO realizado na B3, em 2020, a companhia já anunciou 17 compras. A maior delas, porém, ainda não se concretizou: da SulAmérica (SULA11).

O negócio, que pode adicionar mais de 2,5 milhões de beneficiários ao balanço da Rede D’Or, demonstra que a empresa aposta alto na verticalização. 

A busca pelas soluções do início ao fim da jornada dos clientes ou pacientes foi algo buscado pela Hapvida, por exemplo, anos atrás. A diferença é que a Rede D’Or quer seguir os mesmo passos tratando de um público majoritariamente de alta renda, onde a precificação dos produtos é melhor e a rentabilidade, maior.

A consolidação do setor de saúde chegou para ficar, mesmo não sendo novidade entre as empresas. O contexto, contudo, fomenta a verticalização e as aquisições, as quais podem reduzir os encargos inflacionários e elevar receita – em outras palavras: dominação de mercado.

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