Positivo (POSI3) e mais 6 empresas tiveram recuperação de preço épica no 3º trimestre; veja análise

A estagnação dos juros e expectativa de reversão da curva foi o principal motivo para os papéis recuperarem as perda do segundo trimestre.

Foto: Shutterstock/Lemonsoup14

O cenário macroeconômico clareou e o terceiro trimestre foi de recuperação para algumas ações que passaram por “dias nublados” nos meses anteriores.

O segundo trimestre foi marcado por lockdowns na China, gargalos logísticos e juros e inflação elevados, mas o intervalo de julho a setembro trouxe sinais de um futuro mais otimista.

Isto porque durante o período os juros nacionais estacionaram em 13,75% ao ano e houve deflação – como é chamada a queda nos preços da economia.

A perspectiva é de que os juros continuem estáveis nos próximos meses, e isso soa como música para os ouvidos das empresas e investidores. Sem novas altas nas taxas, há mais chances de um reaquecimento futuro da economia.

Isso explica por que, no terceiro trimestre, mais de dois terços das ações que compõem o Ibovespa se valorizaram. No segundo trimestre, quando o cenário era mais incerto, o desempenho foi bem diferente: mais de 90% das 93 empresas do índice fecharam em queda. Apenas nove ações acumularam alta no período.

Empresas como Positivo Tecnologia (POSI3) e MRV (MRVE3) chegaram a derreter mais de 37% no segundo trimestre, mas saíram com saldo positivo após o fechamento do terceiro trimestre.

Por outro lado, empresas como Via (VIIA3) e Magalu (MGLU3), que ficaram entre os três papéis que mais se valorizaram no terceiro trimestre, não recuperaram a forte queda causada no trimestre anterior.

Podemos, portanto, inverter o velho ditado e dizer que quanto maior o tombo, maior precisa ser a valorização. Isto porque se uma ação perde 50% do valor de mercado, é necessária uma alta de 100% para retomar ao patamar anterior.

Outro que não se recuperou inteiramente das perdas foi o índice Ibovespa, que fechou com queda de 8% no acumulado dos dois últimos trimestres.

Entre os 49 papéis que tiveram quedas maiores que a do índice, apenas sete recuperaram ou superaram o valor de mercado perdido no segundo trimestre.

Esta alta na maioria das empresas no terceiro trimestre está ligada à estagnação nos juros.

Como a Selic, a taxa básica, estabilizou após uma série de altas, a expectativa de que ela comece a cair aumenta. Isto faz com que as ações fiquem mais atrativas já que o retorno exigido pelo investidor é menor.

Outro ponto é que a Selic mais baixa oferece às empresas maior potencial de crescimento. Juros menores significam crédito mais barato para empresas que precisam se endividar para investir.

Com menos despesas com dívidas, a expectativa é que estas gerem maiores fluxos de caixa no futuro e, consequentemente, mais retorno aos acionistas.

Maior alta do terceiro trimestre

A Positivo Tecnologia teve o melhor desempenho entre as empresas que compõem o Ibovespa, acumulando alta de 124% no terceiro trimestre.

Além de ofertar smartphones e tablets para o público geral, a empresa fornece produtos a instituições públicas, como urnas eletrônicas e atua no segmento corporativo.

Este foi um diferencial da empresa, que conseguiu se blindar da queda do consumo varejista e compensou com maiores volumes de vendas de urnas eletrônicas.

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Isso deve levar a empresa a manter a projeção de receita bruta de 2022 entre R$ 5,5 bilhões e R$ 6,5 bilhões, o que significa um avanço de até 65% frente ao registrado em 2021.

Até o primeiro semestre a empresa já havia registrado R$ 3,1 bilhões 78% acima em comparação à igual período em 2021.

A Positivo também pode ser beneficiada pela saída da LG no mercado de smartphones, tablets e notebooks. A empresa já está de olho em abocanhar este mercado por meio de uma parceria com a chinesa Transsion.

No Brasil, três marcas detém cerca de 80% da fatia de mercado de celulares, porém, no exterior o cenário é diferente.

 

Para as empresas varejistas, quanto maior o número de concorrentes, melhor, uma vez que isso amplia o mix de produtos ofertados e flexibiliza as negociações com os fornecedores.

Já para a Positivo a parceria com a Transsion, que é a quarta maior empresa de celular do mundo em termos de fatia de mercado, é uma oportunidade não só de ampliar o market share, mas de ganhar alavancagem operacional.

Com um aumento no volume de vendas, a receita cresceria, mas os custos fixos se manteriam estáveis, permitindo maior rentabilidade. Isto é, um aumento na receita de 20% poderia gerar um lucro operacional de 25%, por exemplo.

Além disso, a estagnação da taxa de juros nacional e a normalização na cadeia produtiva de semicondutores são pontos positivos para as vendas do segmento.

Uma redução nas taxas favorece o consumo, principalmente para o público de baixa renda que, muitas vezes, depende de crédito para comprar. Já a retomada da indústria de chips aumenta a capacidade produtiva e permite que a empresa atenda toda a demanda.

A retomada da construção civil

A estagnação nos juros e atualização no programa social Casa Verde e Amarela são alguns dos fatores que levaram construtoras como MRV, Cyrela (CYRE3) e Eztec (EZTC3) a recuperar o valor de mercado perdido no segundo trimestre.

Estas empresas são altamente sensíveis às variações macroeconômicas e por isso sofrem quando o consumo é prejudicado por inflação e juros altos.

Isto porque os produtos destas companhias têm alto valor agregado e preços que em geral exigem que o consumidor financie a compra. Com juros altos e crédito caro, as vendas destas empresas costumam ser prejudicadas, principalmente no caso daquelas que têm produtos voltados para o público de baixa renda, como a MRV.

A perspectiva de que em algum momento os juros devem começar a cair, portanto, ajuda a reaquecer o mercado e contribui para aumentar a expectativa de vendas dessas companhias.

Além disso, em julho de 2022 houve atualização do Programa Casa Verde e Amarela. As principais mudanças são referentes a maiores subsídios e menores taxas de juros.

Isso pode levar as empresas do segmento a liberar lançamentos que foram adiados no início do ano por causa da queda no consumo, e traz otimismo para o investidor, que espera por maior maiores receitas para os próximos trimestres.

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Outro ponto que pode ter influenciado no melhor desempenho dos papéis de construtoras no terceiro trimestre é a possibilidade de um governo com políticas fiscais expansionistas voltadas para programas sociais.

A precificação dos ativos, feita pelos analistas, inclui riscos e expectativas futuras. Portanto, a possibilidade de maior incentivo a projetos sociais pode elevar as receitas das incorporadoras, principalmente da MRV, que tem foco nesta categoria.

Educacional vem forte no 3º trimestre

As educacionais, que já passavam por uma situação delicada antes da pandemia com redução nos programas sociais como Fies e ProUni, viram o cenário se agravar durante o período da pandemia.

Neste período o aumento da evasão dos alunos impactou diretamente o modelo de negócios destas empresas, que passaram por uma migração do presencial para o digital.

A Cogna, que parecia ter virado a página no primeiro trimestre após resultados superiores à igual período em 2021, voltou a apresentar prejuízo no segundo trimestre, o que gerou dúvidas no investidor.

Isto porque a transição para o digital demanda investimentos mais robustos. Além disso, a empresa tem direcionado recursos para a aquisição de outras educacionais em busca de aumentar a base de alunos.

Portanto, é natural que a empresa faça novas dívidas para financiar os investimentos. No entanto, como o custo do crédito está caro, a empresa teve que lidar com maiores despesas financeiras, o que prejudicou sua rentabilidade.

A reviravolta ocorrida no terceiro trimestre foi motivada pelas eleições presidenciais. As pesquisas de intenção de voto indicaram vantagem do candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) frente ao atual presidente Jair Messias Bolsonaro (PL).

Essa foi a inspiração de otimismo para os investidores, uma vez que a expectativa de um modelo de governo com políticas fiscais expansionistas voltadas para projetos educacionais confere a estas companhias certa vantagem.

A perspectiva é de que, se vitorioso, Lula adotará como política de governo a expansão do Fies e do ProUni. Isso pode impulsionar as empresas do setor, permitindo que elas aumentem a base de alunos, reduzam a evasão e melhorem a rentabilidade do negócio.

Diante disso, a Cogna – que está em um processo de turnaround – tem a chance de virar a página e voltar a gerar valor para o acionista nos próximos anos.

No entanto, a ação ainda está sendo negociada com desconto de 57% sobre o patrimônio líquido. Isto pode ser um sinal de que o papel está barato e que, apesar da recuperação, os investidores ainda estão cautelosos.

Varejo e shopping

A brMalls (BRML3), que atua na área de gestão e construção de shoppings, e a Arezzo (ARZZ3), do segmento varejista de vestuário, foram as empresas que passaram uma borracha no segundo trimestre e retomaram o valor de mercado no penúltimo trimestre do ano.

Apesar de atuarem em segmentos diferentes, a estagnação na taxa de juros, a desaceleração da inflação e a perspectiva de que a Selic começará a cair no ano que vem deixaram os investidores otimistas. Este movimento favorece o varejo, que deve ver o volume de vendas aumentar nos próximos trimestres.

A Arezzo é menos sensível a estas variações macroeconômicas que outras empresas do setor porque tem produtos voltados para o público de média e alta renda. Este grupo tende a manter o padrão de consumo mesmo em condições econômicas adversas.

Além disso, os produtos oferecidos têm menor preço médio em comparação ao varejo de eletrodomésticos, o que permite que o cliente consuma sem a necessidade de se endividar.

Isto permitiu que a queda dos papéis no segundo trimestre fosse menor em comparação aos pares do setor e, portanto, a recuperação foi facilitada.

Já a alta nos papéis da brMalls foi intensificada pelo anúncio da venda do Campinas Shopping por R$ 414 milhões.

Este incremento em caixa permite que a empresa reduza a relação entre a dívida líquida e o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de 2,4 vezes para 1,9.

Ou seja: a empresa levaria menos tempo para quitar a própria dívida, o que torna os papéis mais atrativos e menos arriscados, já que a capacidade de solvência da empresa é maior.

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