O Magazine Luiza (MGLU3) anunciou, na última sexta-feira (24), mais uma emissão de debêntures. Segundo a varejista, serão dois milhões de papéis ao preço de R$ 1 mil cada, com objetivo de otimizar seu fluxo de caixa e ajudar no curso natural dos negócios.
No valor total de R$ 2 bilhões, essa foi a terceira emissão de títulos de crédito privado pelo Magazine Luiza em 2021. O total soma R$ 4,8 bilhões, quase o dobro do que a companhia havia emitido na última década inteira.
No primeiro pregão após a divulgação da oferta, o mercado responde bem. As ações do Magalu, por volta das 13h20 desta segunda-feira (27), sobem 7,74%, para R$ 6,68, puxando todo o setor de varejo, que tanto sofreu neste ano. Via Varejo (VIIA3) avançava 6,22%, enquanto Americanas (AMER3) tinha valorização de 4,39%.
Segundo o Magazine Luiza, as debêntures vencem no dia 23 de dezembro de 2026, com pagamentos semestrais no dia 15 dos meses de junho e dezembro de cada ano. A amortização, por sua vez, ocorrerá nos meses de dezembro de 2025 e 2026.
As debêntures renderão juros remuneratórios de 100% da variação do CDI, o que hoje equivale a 9,15% ao ano.
O que o Magazine Luiza quer com a operação?
Varejo se prepara para vacas magras
A varejista liderada por Frederico Trajano informou que os recursos obtidos por meio da oferta serão utilizados para otimização do fluxo de caixa no curso e gestão ordinária dos negócios da companhia.
Assim como a Americanas (AMER3), que resolveu levantar até quase meio bilhão de reais com a emissão de novas ações na última semana, o Magalu quer preservar sua condição financeira para possíveis meses turbulentos à frente.
Nas páginas referentes ao fluxo de caixa, a companhia diz que encerrou o período entre julho e setembro deste ano ampliando consideravelmente suas aplicações em investimentos.
No caso da controladora, essa linha saltou de R$ 632,52 milhões para R$ 1,34 bilhão em 12 meses.
Embora o fluxo de caixa gerado pelas atividades de financiamento tenha sido muito positivo, na ordem de R$ 3,12 bilhões ante a aplicação de R$ 116 milhões um ano antes, houve redução do saldo de caixa e equivalentes de caixa.
Enquanto isso, o endividamento avança. Entre o terceiro trimestre de 2020 e o mesmo período deste ano, os compromissos da empresa subiram de R$ 1,67 bilhão para R$ 2,35 bilhões de forma bruta.
Histórico da dívida bruta do Magalu

A empresa saiu de um caixa líquido de R$ 1,24 bilhão, no dia 30 de setembro do ano passado, para os atuais cerca de R$ 246,6 milhões em dívida líquida. A folga financeira do Magalu está indo por água abaixo.
E por que isso? Ao passo que o Magazine Luiza trata-se de um negócio que demanda abertura massiva de lojas físicas, seguiu (com muito sucesso, diga-se de passagem) o caminho da digitalização.
Ambas as vertentes demandam muito dinheiro, sobretudo no processo de implementação. Num cenário tão duro quanto o vigente para o varejo, a emissão das debêntures mostra-se prudencial por parte da direção da companhia.
Trajano e seu time já mostraram que são capazes de trazer à prática os planos desenhados pela empresa. Os R$ 2 bilhões (ou quase R$ 5 bilhões no ano) serão úteis para manter as contas em linha.
Os vilões do Magazine Luiza
Diferentemente da antiga B2W, o Magalu preferiu não realizar uma nova emissão de ações, partindo para o crédito.
Neste ano, além da emissão das debêntures, a varejista também realizou uma oferta subsequente de ações (follow-on), na ordem de R$ 3,4 bilhões, no fim de julho. Desde então, os papéis caíram mais de 70% na Bolsa.
A antiga queridinha dos investidores não quis encharcar o mercado com novas ações em um patamar muito abaixo do seu real valor. Mesmo que esse seja o cenário trabalhado pela empresa, há razão para tal desconfiança.
O setor de varejo como um todo sofre com as incertezas dos investidores ante a desaceleração econômica do País. Com a inflação em alta e aumento da taxa básica de juros (Selic), o incentivo ao consumo é limitado.
Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), 74,6% das famílias brasileiras estavam com dívidas em outubro.
A desaceleração do e-commerce, a qual o Magalu já tentou desmentir anteriormente, já pesa sobre a percepção de crescimento da empresa. Esse é um vilão, enquanto o outro ataca o valuation da companhia.
Como a Agência TradeMap mostrou, as empresas de varejo no Brasil se confundem com players de tecnologia, dada a escalabilidade para os padrões locais e investimentos em e-commerce.
Com isso, naturalmente as ações passam a negociar com múltiplos considerados (apenas em alguns momentos) intragáveis. Mesmo com a queda de 73% no acumulado do ano – puxada globalmente pelo fim da liquidez monetária –, o Magalu ainda negocia a 62 vezes os lucros dos últimos 12 meses.
Segundo as projeções compiladas pelo Refinitiv, apresentadas na plataforma do TradeMap, a estimativa mediana é que, neste preço, a empresa esteja sendo negociada a 40 vezes os lucros do ano que vem.
Porém, mesmo com a conjuntura bagunçada, esse patamar não está escrito em pedra.
Para fins comparativos, a Amazon (AMZN), vista como potencialmente a grande concorrente das varejistas brasileiras, é cotada a 66 vezes. O Mercado Livre (MELI34), por sua vez, é cotado a assustadores 825 vezes.
As ações de Magazine Luiza (verde), Mercado Livre (amarelo) e Amazon (azul) nos últimos 12 meses

Ainda vale a pena?
Os especialistas que acompanham as ações do Magazine Luiza ainda dizem que é um bom momento para ter – ou comprar – as ações da varejista.
De acordo com o Refinitiv,, são 16 recomendações voltadas à empresa. Dez delas são de compra, ao passo que seis indicam a manutenção das ações. Ninguém acha que esse é um ponto de saída.
O preço-alvo mediano aponta para R$ 18. Isso significa que as ações poderiam se valorizar 170,27%. O maior target para o Magazine Luiza aponta para R$ 27, um upside de 305%.