Entre altos e baixos, o Ibovespa tem registrado em 2022 mais um ano de alta volatilidade. As razões não são segredo para ninguém: inflação, taxa de juros e até mesmo uma guerra. Com isso, a estratégia de investimento com foco em dividendos voltou a ganhar notoriedade.
Desde o ponto mais alto deste ano, o Ibovespa recua 10% e se aproxima novamente da marca dos 100 mil pontos, só que agora com viés baixista. A conjuntura fez com que a tese de investimento de valor em detrimento ao crescimento trouxesse força às grandes pagadoras de dividendos.
De forma generalista, a visão do mercado é de que empresas com alto grau de distribuição de proventos já estão em estágio maduro de atuação.
Com isso, a perspectiva gira em torno da distribuição dos lucros e não do reinvestimento na própria operação, com a geração de valor sendo “depositada” na conta dos acionistas em vez de reaplicada no crescimento da empresa.
A conjectura é real, dado que algumas das empresas que mais pagam dividendos têm limitações para alocação de capital, como integrantes do setor de utilities, e o payout (proporção dos lucros distribuída a acionistas) em nível elevado é uma saída para recompensar os investidores.
Porém, dados históricos mostram que ativos pouco voláteis entregam desempenho superior aos considerados “de crescimento”, com menor volatilidade – mesmo que a frequência da variação dos retornos não seja exatamente uma medida de risco num investimento.
Ibovespa versus índice de dividendos
O mercado brasileiro representa um mar de oportunidades de empresas com alto padrão de pagamento de dividendos.
De tamanhos continentais, o país é banhado a commodities, o que remete a modelos de negócio cíclicos e com modelos de negócio maduros. Na maioria dos casos, essas empresas podem ser boas pagadoras de proventos.
Os dois maiores exemplos são Vale (VALE3) e Petrobras (PETR4). Em 2021, a mineradora pagou R$ 73,28 bilhões em dividendos aos seus acionistas. A petroleira, por sua vez, distribuiu R$ 71,71 bilhões referente ao exercício do mesmo ano.
Isso não significa que no mesmo setor não haja empresas que estão em processo de crescimento, como é o caso da PetroRio (PRIO3).
Em Vale e Petrobras, no entanto, o desenvolvimento do negócio está focado na otimização de processos e eficiência de custos, como na prevenção de eventos extraordinários que prejudicam a produção, no caso da mineradora, e na redução do custo de extração de óleo na operação core da estatal.
Mas, como mostram os números, a eficiência operacional conversa com o alto nível de remuneração a acionistas. Tanto é que ambas fazem parte do IDIV, índice de dividendos da B3.
O objetivo do índice é refletir o desempenho médio das empresas que mais pagam proventos aos investidores, seja por meio de dividendos ou JCP (juros sobre capital próprio).
Atualmente, o índice é composto por 43 empresas de nove setores diferentes. É composto por 47 papéis, dada a presença de empresas com ações ordinárias e preferenciais, como Bradesco (BBDC3; BBDC4) e Eletrobras (ELET3; ELET6).
As 10 maiores posições, de acordo com a atual carteira da B3, são:
- Vale (8,16%);
- Vivo (6,69%);
- BB Seguridade (5,10%);
- Itaúsa (4,74%);
- Petrobras (4,61%);
- Banco do Brasil (4,58%);
- Cemig (4,45%);
- B3 (4,25%);
- Eletrobras (4,21%);
- Bradesco (4,20%);
- CSN (4,08%).
O intuito do IDIV é ser um indicador do desempenho médio das empresas que se destacam em termos de pagamento aos investidores, sem critério específico.
Assim como o Ibovespa, o índice não pode ser composto por empresas em recuperação judicial e BDRs (Brazilian Depositary Receipts), por exemplo.
Trata-se de um índice de retorno total, ou seja, que inclui o pagamento de dividendos e JCP pelas empresas integrantes no desempenho da carteira teórica.
Mesmo contando com Vale e Petrobras, que também são duas grandes integrantes do Ibovespa, muitos podem inferir que o IDIV teve desempenho total abaixo do Ibovespa nos últimos meses.
Isso ocorre pela característica da maior parte das empresas dos índices. Enquanto o Ibovespa tem empresas de crescimento como Hapvida (HAPV3), Banco Inter (BIDI11), Weg (WEGE3), o IDIV é recheado de companhias menos “chamativas” deste ponto de vista, como Taesa (TAEE11).
Mesmo assim, o IDIV tem melhor desempenho que o Ibovespa na janela dos últimos 12, 24 e 36 meses, como mostra o gráfico abaixo.
Ibovespa (em verde) e índice IDIV (em amarelo) nos últimos 5 anos

O investimento em ativos menos voláteis pode parecer aversão a risco e conservadorismo. Contudo, determinadas empresas podem proporcionar vultuosos retornos anualizados.
Desde seu IPO realizado em 2006, a Taesa tem um retorno total de 439%. Isso equivale a sólidos cerca de 27% anuais, em termos nominais. Em dólares, o Ibovespa possui valorização média anual real de aproximadamente 11,74%, a fins comparativos.
A volatilidade, por mais que necessariamente não exprima risco, é um sintoma da variabilidade dos negócios das empresas, principalmente no curto prazo – mas que podem reverberar no longo prazo.
A CVC (CVCB3), por exemplo, atingiu sua máxima histórica no início de 2019, antes de eventos como a quebra da Avianca, óleo nas praias do Nordeste, a pandemia e um novo choque do petróleo. A mudança na perspectiva do turismo mundial certamente mudou, o que também alterou a percepção de valor da empresa.
Desde então, as ações da companhia, que é a maior agência de turismo do Brasil, recuaram cerca de 80%. Para que a companhia volte ao mesmo patamar, suas ações teriam de subir 360%, algo pouco factível no médio prazo.
No em que uma ação caia 90%, para que ela retorne ao patamar anterior é necessário uma disparada de 900%.
Nesse e em muitos outros episódios, a volatilidade prescreveu a perda de valor de uma companhia. Também significou, todavia, uma oportunidade de investimento para quem entendeu que o valor era maior do que o preço em determinado momento.
Mas, para quem confiou no modelo de negócio há três anos, a perda de capital permanente é iminente.
Parâmetro para investidores de renda passiva
Os investidores que têm o viés voltado ao recebimento de dividendos, portanto, podem levar em consideração o IDIV em detrimento ao Ibovespa, principalmente em termos de desempenho, remuneração e menor volatilidade.
Segundo dados levantados na plataforma do TradeMap, o dividend yield ponderado do IDIV é de 9,43% com base nos últimos 12 meses, enquanto o mesmo indicador para o Ibovespa fica na casa dos 4%.
A volatilidade do índice do IDIV também é levemente inferior ao Ibovespa: 18,06% contra 19,64%, na base anual, respectivamente.
No acumulado dos últimos 12 meses, as dez maiores posições do IDIV tiveram desempenho superior a 20% em retorno total, que inclui os proventos. De acordo com o levantamento do TradeMap, são elas:
Ativo | Rentabilidade | Volatilidade | Proventos | DY |
PETR3 | 88,28% | 35,30% | R$ 7,64 | 21,42% |
ENAT3 | 71,23% | 51,72% | R$ 1,71 | 7,83% |
UNIP6 | 60,28% | 42,75% | R$ 16,96 | 17,56% |
CPFE3 | 43,36% | 24,63% | R$ 5,44 | 16,33% |
BEEF3 | 36,26% | 39,90% | R$ 0,69 | 5,22% |
CPLE6 | 32,51% | 25,62% | R$ 1,14 | 17,04% |
ENBR3 | 27,61% | 19,96% | R$ 2,07 | 9,72% |
CPLE3 | 26,51% | 26,45% | R$ 1,04 | 17,84% |
TAEE11 | 25,95% | 18,78% | R$ 2,76 | 6,16% |
VIVT3 | 24,72% | 21,13% | R$ 3,43 | 6,78% |
*Até o dia 11/5/22.
Uma forma de se expor ao índice é através do ETF DIVO11.
Gerido pelo Itaú, o fundo de índice de gestão passiva replica a carteira teórica da B3, tem taxa de administração de 0,50% ao ano e pode colocar para alugar até 60% dos ativos da carteira, podendo gerar retorno extra para a cota.
Vale ressaltar que no Brasil os ETFs não pagam dividendos aos cotistas. Os valores recebidos são reinvestidos no fundo, rebalanceando as posições do ETF e valorizando as cotas.
As oportunidades em busca de dividendos
A Bolsa brasileira está inegavelmente barata. Dados do BTG Pactual apontam para um múltiplo atual do Ibovespa de aproximadamente 7,5 vezes os lucros dos últimos 12 meses. A média do P/L é de 11,3 vezes.
Desconsiderando Vale e Petrobras, que acabam distorcendo os números por conta dos múltiplos baixos e lucros estratosféricos, a média é de 12,7 vezes os lucros e o múltiplo vigente, de 9,4 vezes.
Saiba mais:
Pular de ação em ação só pelo dividendo é mau negócio; entenda os riscos
Com as cotações pressionadas, balanços bem geridos, empresas menos alavancadas no momento de contração monetária (o que desincentiva investimentos na operação), os yields tendem a ser mais chamativos.
Em relatório recente, a XP sugeriu três empresas que devem pagar bons dividendos ao longo dos próximos trimestres. São elas Copel (CPLE6), Engie (EGIE3) e AES Brasil (AESB3).
O setor de energia elétrica, na visão da casa, tem boas perspectivas de geração de caixa e distribuição de proventos.
O segmento é considerado mais maduro – embora existam empresas com boas perspectivas de crescimento como a EDP Brasil (ENBR3) – e a previsibilidade de receitas são chamarizes para uma política de pagamento de dividendos favorável.
Perfil de risco e suitability
Todo e qualquer investidor, seja ele focado em crescimento ou então que está em busca do recebimento de dividendos, deve respeitar sua tolerância ao risco, ponderada pelos objetivos de curto, médio e longo prazos, adequado a cada perfil – temas abordados pelo suitability.
Trata-se do procedimento de adequação de produtos ao investidor, que combina o risco assumido, a volatilidade esperada e a potencial rentabilidade, alinhado às bases e perspectivas de cada um.
Ademais, o risco da carteira pode ser reduzido com a diversificação entre classes de ativo e geografias. O contrário também é verdadeiro, mesmo se a estratégia, focada em dividendos, for concentrada em poucos e similares investimentos.