BRF (BRFS3) deve e não nega. Com riscos, follow-on pode equacionar endividamento

Entre a cruz e a espada, a BRF não teve escolha a não ser dar um passo agressivo e propor um aumento de capital

Foto: Divulgação

O ditado popular diz “devo, não nego, pago quando puder”. Em uma situação de endividamento desconfortável, a BRF (BRFS3) ignorou o mantra e, mesmo que possa significar sacrifícios, deu o pontapé inicial de uma operação que pode desengessar a companhia.

A direção propôs uma oferta subsequente de ações (follow-on) com a emissão de 325 milhões de papéis. Com isso, a BRF seria abastecida em cerca de R$ 6,63 bilhões ao preço de fechamento da última sessão. 

O mercado responde positivamente ao movimento. As ações da empresa chegaram a subir 11% no início do pregão, mas arrefecem o movimento e avançam 7,2% por volta das 15h25, aos R$ 21,87, liderando o Ibovespa.

A visão dos investidores é de que a emissão no momento em que as ações estão pressionadas, caindo 2% no acumulado do ano, enquanto a concorrência dispara, e a possível diluição de acionistas, é necessária para que o endividamento seja equacionado e a alavancagem financeira, reduzida. 

O adiamento das metas financeiras, sobretudo em função do contexto complicado de custos elevados, foi o estopim. Agora, a BRF quer ser mais leve para continuar crescendo. Uma assembleia deliberará sobre o tema no dia 17 de janeiro. 

Saiba mais: Pressionada por custos, BRF adia meta de Ebitda para 2023

As contas da BRF

No terceiro trimestre deste ano, a BRF mostrou um balanço que preocupou os investidores. O prejuízo de R$ 271 milhões, revertendo o lucro do mesmo período do ano passado, não foi o destaque mais negativo.

O endividamento líquido da empresa subiu 12,7% entre o fim de junho e o fim de setembro, para R$ 16,68 bilhões. Desde a divulgação dos números as ações caíram 8%, considerando a alta de hoje. 

A alavancagem financeira, medida pela relação entre a dívida líquida e o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), saltou de 2,90 vezes para 3,06 vezes, acima do patamar considerado prudencial para o setor, volátil do jeito que é. 

Histórico da alavancagem financeira da BRF

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

Do outro lado, a empresa disse em seu investor day que não irá tirar o pé do acelerador e mantém a ideia de investir R$ 55 bilhões até 2030, considerando os desembolsos deste ano. É isso que preocupa.

Vale ressaltar que a empresa reiterou que não possui covenants, ou seja, cláusulas restritivas em relação ao tamanho da alavancagem. Por isso, caso a operação deixe de ir bem, o endividamento poderia subir ad aeternum.

Afinal, como continuar crescendo se o volume de compromissos bloqueia a geração de valor atrás do crescimento da operação? A alavancagem em patamar desconfortável tira a BRF do mapa de compradores em possíveis aquisições. Os vizinhos, por outro lado, têm se mexido

Como se não bastasse, a dívida da empresa possui alto lastro em divisas estrangeiras. Da dívida bruta, que soma mais de R$ 24 bilhões, 26% está em reais e 74% em outras moedas, sobretudo dólar. 

A variação cambial da dívida contribuiu negativamente com R$ 1,39 bilhão entre o segundo e o terceiro trimestres deste ano.

A fins comparativos, na operação de hedge para proteção dos resultados, a companhia levou em consideração um dólar a R$ 5,34 no terceiro trimestre. Hoje, a divisa já negocia perto da casa de R$ 5,70.

Não é uma posição saudável ao entrar em um ano eleitoral, quando a volatilidade da moeda pode ser mais forte que a normalidade. 

E agora?

Segundo a BRF, R$ 500 milhões do follow-on serão destinados para o capital social da companhia, enquanto o restante (mais de 92% do total, na cotação de ontem) será alocado na “formação de reserva de capital”. 

É factível se esperar que a empresa utilize boa parte desses recursos para diminuir o endividamento com o pagamento antecipado de algumas das dívidas e, naturalmente, manter os recursos em caixa, diminuindo a alavancagem.

Dado que atualmente a empresa possui R$ 7,23 bilhões em disponibilidades, a mudança na estrutura de capital pode fazer com que a relação entre dívida líquida e Ebitda seja reduzida para algo em torno de 1,8 vez a 2 vezes. 

Por mais que o prazo médio do endividamento tenha subido de 7,5 anos para 9,3 anos, a companhia quer tirar da frente um dos empecilhos que travam seus negócios e gera preocupação há quase três anos. 

Além disso, a BRF quer manter sob controle suas despesas financeiras, que ultrapassaram a marca de R$ 1 bilhão no terceiro trimestre. 

Boa parte da dívida da empresa é atrelada ao IPCA, que supera os dois dígitos nos últimos 12 meses, e o CDI, que disparou com a elevação da Selic. Um exemplo são os recursos captados com debêntures, que em dezembro de 2020 custavam 8,28% ao ano, e agora incomodam a empresa com uma taxa de 14,36% anuais. 

Marfrig de olho para abocanhar pedaço

Outro ponto a ser observado na operação é o papel da Marfrig (MRFG3), que possui 31,7% das ações da empresa, hoje equivalente a R$ 5,25 bilhões.

A companhia de Marcos Molina poderá ampliar sua participação na BRF sem acionar a pílula do veneno de 33,3% do capital. 

Isso porque todos os acionistas terão os mesmos direitos de seguir o aumento de capital e uma operação dessa natureza, segundo o estatuto da BRF, não contempla a poison pill

A depender do apetite da Marfrig, não é difícil de imaginar que a empresa seja agressiva na oferta, ficando próximo de controlar metade da BRF. 

A exclusão da necessidade de pagar um prêmio de 40% sobre a cotação média de 30 ou 120 pregões anteriores para fechar o capital da BRF pode ser o presente de Natal que Molina tanto espera. 

Ações de BRF (em verde) e Marfrig (em amarelo) nos últimos 12 meses

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

2022 reserva desafios e BRF parece estar no fim da fila

Como a Agência TradeMap mostrou nesta semana, a BRF é a única dos quatro grandes frigoríficos que possui um curto prazo nebuloso.

O ano que vem deve ser desafiador para o setor. De acordo com a consultoria Beef2Live, com base em dados da United States Department of Agriculture (USDA), o país deve registrar uma perda de 9 mil toneladas nas importações do país. 

As concorrentes da companhia, contudo, estão mais preparadas para superar os problemas, por estarem mais capitalizadas, com endividamento controlado ou ofertarem produtos de maior valor agregado. 

Demorou, mas aconteceu. A direção da BRF teve de dar um passo agressivo para sobreviver às intempéries do mercado, inclusive correndo o risco de perder o controle da empresa, mas que pode trazer ventos mais leves daqui para frente.

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