Antigamente visto como um negócio familiar ou “de bairro”, o setor farmacêutico se consolidou como um dos grandes casos de crescimento ao longo dos últimos anos no Brasil.
Ainda altamente fragmentado, o segmento tem criado respostas para a demanda do público brasileiro, da classe baixa à classe alta, de norte a sul do país. Dessa forma, com modelos de negócio distintos, o setor farmacêutico tem chamado atenção dos investidores.
Por determinado tempo, a única opção dentre as companhias listadas na Bolsa brasileira era a Raia Drogasil (RADL3). Em 2019, uma outra opção era a BR Pharma, que acabou se despedindo do mercado após ter sua falência decretada.
Desde então, varejistas do ramo e players do mercado se movimentaram em busca de recursos, ampliando a liquidez do setor na B3.
Pague Menos (PGMN3) e D1000 (DMVF3) levantaram R$ 746,9 milhões e R$ 400 milhões, respectivamente, nas aberturas de capital realizadas em 2020.
No mesmo ano, a Panvel (PNVL3), do Grupo Dimed, movimentou R$ 1 bilhão com um follow-on (oferta subsequente de ações) que colocou R$ 400 milhões no caixa da empresa. O capital serviu para aumentar a liquidez de suas ações, que migraram para o Novo Mercado, e para a abertura de novas lojas.
Nos últimos dias, as ações do segmento reportaram forte alta com a confirmação do aumento dos preços dos medicamentos, autorizado pela CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos).
Mas não é só isso: a tese de investimento no segmento, por mais que possua particularidades distintas dadas as características de cada negócio, como público-alvo e regionalidade, é baseada em sólidos gatilhos e avenidas de crescimento.
Envelhecimento populacional
Dados mostram que o Brasil caminha para um alto processo de envelhecimento de sua população ao longo das próximas décadas. Essa tendência, que deve levar até à diminuição da população total, também demandará mais cuidados da população.
O uso recorrente de medicamentos, prescritos ou não, pelo público da terceira idade é uma das razões pela massiva abertura de lojas no Brasil. O país é o principal mercado farmacêutico da América Latina e ainda assim é equivalente a cerca de 2% da economia global.
De acordo com dados do Conselho Federal de Farmácia, em dados atualizados há cerca de um ano, o Brasil possuía 89.879 farmácias e drogarias comerciais. Numa perspectiva nacional, isso representa, em média, um estabelecimento a cada 94 quilômetros quadrados.
Em um país de tamanho continental, a distância é um empecilho. Regionalmente, essa distância é ainda maior no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, principais mercados de D1000 e Pague Menos. Por terem menos unidades, tais regiões abrem oportunidades de consolidação de mercado.
Além disso, a população também caminha para uma percepção das farmácias como centro de serviços e consumo.
Como reflexo do período pandêmico, as unidades tendem a oferecer cada vez mais opções aos consumidores – como aplicação de vacinas – que devem procurar menos os grandes hospitais e postos de saúde.
Dados levantados pela IQVIA, líder global no uso de dados e informações de tecnologia para o setor de saúde, mostram que 75% das farmácias nos Estados Unidos oferecem serviços, enquanto apenas 10% das brasileiras tinham essa operação, em 2019.
Nesse sentido, a Raia Drogasil, que já oferece soluções desta categoria, pode surfar uma boa tendência ao longo dos anos.
Sinergias entre online e físico
O varejo, seja farmacêutico ou de qualquer outra vertente econômica, percebeu durante a pandemia que seu viés está voltado mais do que nunca para a ligação entre o comércio físico e o digital.
A conexão entre o varejo online e o presencial, isto é, a atividade com multicanalidade, se tornou um requisito importante para o modelo de negócio das companhias.
No caso da Raia Drogasil, o processo de digitalização é baseado em 3 pilares: Nova Farmácia, hub de saúde que aposta em experiência digital e multicanal; Marketplace; e a Plataforma de Saúde Integral.
Os 42 milhões de clientes ativos da empresa contribuíram para o crescimento da penetração do digital na sua receita de varejo, que saiu de 5,9% em 2020 para 8,7% em 2021. Downloads do app da Raia dobraram entre o quarto trimestre de 2020 e o mesmo período do ano passado.
O resultado da Pague Menos também mostrou forte apelo ao digital. As vendas na categoria cresceram 85,3% em 2021, perfazendo uma fatia de 8,8% nas vendas totais no ano passado.
Nesse sentido, o destaque da empresa no período foi o avanço na digitalização do Hub de Saúde, que agora passou a ser integrado com o e-commerce. Com a plataforma, a empresa conseguiu justamente otimizar a sua oferta de serviços, como agendamento de vacinas e testes rápidos.
No caso da Panvel, as vendas digitais em relação à receita são destaque na indústria. Quase 16% vem dos canais virtuais, com forte avanço mesmo com a base comparativa sólida. O market share digital na região Sul no que se refere a medicamentos, no quarto trimestre, atingiu expressivos 40,5%.
Em São Paulo, área de expansão da companhia, metade das vendas vem dos canais digitais, contra 15,2% no Rio Grande do Sul, 12% em Santa Catarina e 14,6% no Paraná.
Um processo também positivo, embora desacelerado, é observado na D1000 quando se fala em e-commerce e vendas omnichannel. De um lado, as vendas digitais em volume cresceram 12,8%, fomentadas pela nova plataforma de e-commerce, lançada no segundo semestre do ano passado.
Em relação à receita bruta, porém, não houve novidades. A participação dos canais digitais continuaram representando 7,6% do faturamento total.
Na comparação entre o quarto trimestre de 2021 e o mesmo período de 2020, essa fatia caiu 0,1 ponto percentual. Ante o trimestre imediatamente anterior, a queda foi de 1,1 pp.
Resiliência de público de alta renda
Entre um caso ou outro, pode-se esperar que as companhias ligadas à alta renda podem ter um bom desempenho e serem menos impactadas pela potencial crise econômica, sobretudo em relação às varejistas farmacêuticas focadas nas classes menos favorecidas financeiramente.
Segundo um levantamento do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a inflação para os mais pobres foi 15% superior à dos mais ricos em 2021.
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Em um ambiente que possui subsídios governamentais, com a Farmácia Popular, criada pelo governo federal em 2004 em parceria com municípios, os menos abastados monetariamente não ficarão desamparados.
Em outros setores, o público de alta renda tende a ter seu poder de compra mantido de forma mais abrangente. Mas, mesmo no setor de farmácias, produtos e serviços de alto calibre continuarão sendo demandados por essa faixa da sociedade.
Por mais que a Raia esteja caminhando para o sentido contrário, ampliando sua base de lojas junto ao segmento do público de média renda (a faixa mais ampla do Brasil), segue sendo uma das grandes beneficiadas deste cenário, assim como a Panvel.
A proximidade do público de alta renda, sobretudo nos momentos de incerteza estrutural, podem preservar as margens da companhia, com fornecimentos de produtos e serviços de maior valor agregado. Hoje, a Raia também lidera o setor em margens, mas deixa a desejar em preço.
Suporte regulatório
O âmbito regulatório, ao menos no curto prazo, também parece estar a favor das farmacêuticas. Os preços dos medicamentos ficarão mais caros aos consumidores a partir desta sexta-feira (1), com a bênção de um órgão público.
O aumento no preço dos medicamentos é de responsabilidade da Cmed (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos), comissão coordenada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
De acordo com o Sindusfarma (Sindicato dos Produtos da Indústria Farmacêutica), o aumento será na ordem de 10,89%, levemente acima do IPCA, principal índice que mede a inflação em todo o país.
O reajuste pode mudar o preço de aproximadamente 13 mil medicamentos do varejo brasileiro. Ele é resultado do cálculo de dois fatores, que levam em consideração indicadores como produtividade das empresas do ramo e a própria inflação.
Em relatório recente, analistas do Goldman Sachs relataram que entendem que a Raia será uma das maiores beneficiadas deste processo.
O reajuste, que é maior do que o esperado para a inflação neste ano, deve fazer com que a receita da empresa corra mais rápido do que as despesas no período, melhorando as margens.
Contudo, o reajuste é positivo para todas as varejistas, em seus graus de sensibilidade a preço. Ao menos o custo inflacionário está oficialmente autorizado de ser repassado aos consumidores, protegendo a rentabilidade do setor.
Os riscos do segmento, por último mas não menos importante para a tese de investimento, dizem respeito, principalmente, sobre a aceleração da concorrência e capacidade de execução da relação entre o físico e o digital das empresas do setor farmacêutico.