O mercado acionário brasileiro atravessou um mês de forte volatilidade em outubro, marcado pelas eleições presidenciais e pelas mudanças nas expectativas dos investidores em relação ao cenário econômico. Após o primeiro turno, o Ibovespa disparou 8,87% no pregão de 5 de outubro, ultrapassando a marca dos 200 mil pontos pela primeira vez. O movimento foi acompanhado pela valorização do real frente ao dólar, com a PTAX recuando 4,55%, para R$ 4,9859, e pelo avanço de ações ligadas à economia doméstica. Entretanto, o cenário se inverteu após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no segundo turno. Em 26 de outubro, o índice despencou 13,88%, aos 176.608 pontos, provocando o acionamento do circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020. O mecanismo foi ativado às 9h57, ainda durante o leilão de abertura, e suspendeu as negociações por 30 minutos. A reação negativa também atingiu o câmbio, com a PTAX disparando 9,19%, em meio às preocupações com a política fiscal do novo mandato presidencial e à forte alta dos juros futuros.
Na agenda econômica, os investidores acompanharam indicadores de inflação, atividade e mercado de trabalho, além das decisões de política monetária no exterior. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) manteve os juros na faixa entre 3,75% e 4,00% ao ano, enquanto o PIB americano cresceu 3,4% no terceiro trimestre e a inflação medida pelo PCE acumulou alta de 3,6% em 12 meses em setembro. No Brasil, a taxa de desemprego recuou para 5,2% no terceiro trimestre, atingindo o menor nível para o período desde o início da série histórica, em 2012. A temporada de balanços corporativos também ganhou destaque, com os resultados das empresas influenciando o desempenho das ações ao longo do mês.
No cenário internacional, as tensões geopolíticas no Oriente Médio e as negociações entre Estados Unidos e Irã movimentaram os preços do petróleo, diante dos riscos de interrupção no abastecimento de energia e no transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz. Na Bolsa brasileira, as preocupações fiscais e a reação ao resultado eleitoral pressionaram principalmente as ações de bancos e empresas mais sensíveis aos juros. O Ibovespa encerrou o mês aos 167.922 pontos, acumulando queda de 9,88%, seu pior desempenho para outubro desde 2008. Na última semana, o índice registrou desvalorização de 18,12%, a maior perda semanal desde março de 2020.
Maiores altas
A PRIO (PRIO3) liderou os ganhos do Ibovespa em outubro, com valorização de 17,39%, favorecida pela alta dos preços internacionais do petróleo, em meio às tensões geopolíticas no Oriente Médio e aos riscos de interrupção da oferta. No cenário corporativo, a companhia divulgou produção média de 192,6 mil barris de óleo equivalente por dia em setembro, crescimento de 3,5% em relação ao mês anterior, impulsionado principalmente pelos campos de Peregrino e Albacora Leste. Na reta final do mês, a XP projetou novo avanço da produção em outubro, sustentado pelo desempenho de Albacora Leste e dos campos de Frade e Wahoo, reforçando as perspectivas operacionais da companhia.
A Suzano (SUZB3) acumulou valorização de 13,44% em outubro, beneficiada pelas expectativas de desvalorização do real após o segundo turno das eleições presidenciais, cenário favorável às empresas exportadoras com receitas dolarizadas. O movimento também ganhou respaldo na avaliação do JPMorgan, que destacou a companhia como sua principal preferência no setor de materiais básicos. Segundo o banco, a Suzano deve se beneficiar das perspectivas de preços mais elevados da celulose em 2026 e 2027, do aumento da produção com a entrada em operação do Projeto Cerrado e da redução dos investimentos, fatores que podem fortalecer a geração de caixa livre da companhia.
A Petrobras (PETR3) acumulou valorização de 11,40% em outubro, impulsionada pela alta dos preços do petróleo e pelas perspectivas positivas para a produção da companhia. No início do mês, a estatal anunciou uma nova descoberta de petróleo na Margem Equatorial e, ao longo de outubro, renovou recordes de valor de mercado, superando R$ 820 bilhões. O desempenho também foi sustentado pelas avaliações favoráveis de instituições financeiras, que destacaram a produtividade dos campos do pré-sal e o potencial de geração de caixa e dividendos. A Petrobras divulgou produção recorde de 3,512 milhões de barris de óleo equivalente por dia no terceiro trimestre, crescimento de 11,7% na comparação anual, reforçando as perspectivas positivas para seus resultados.
Maiores quedas
A Vamos (VAMO3) liderou as perdas do Ibovespa em outubro, com desvalorização de 44,65%, pressionada pela disparada dos juros futuros e pela forte volatilidade provocada pelas eleições presidenciais. Após acumular ganhos expressivos com as expectativas de redução dos juros, os papéis passaram por um movimento de realização de lucros, intensificado pelas pesquisas eleitorais e, posteriormente, pela reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. No dia 26, as ações despencaram 56,79%, em meio às preocupações com o cenário fiscal e o encarecimento do crédito, que afeta diretamente as operações de locação e financiamento de frotas.
A Cosan (CSAN3) acumulou perdas de 41,16% em outubro, em um mês marcado pela forte volatilidade do mercado brasileiro e pela disparada dos juros futuros após as eleições presidenciais, cenário que pressionou empresas mais sensíveis ao custo de capital. No âmbito corporativo, a holding anunciou a transferência de uma participação de 20,33% na Rumo para um fundo de investimento do qual será a única cotista. Além disso, a Cosan e sua controlada Raízen firmaram um acordo tributário de R$ 22,4 bilhões com a Receita Federal e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional. A operação trouxe novos desdobramentos para a situação financeira do grupo, em meio às incertezas relacionadas à recuperação judicial da Raízen.
As ações da Cyrela (CYRE3) recuaram 37,12% em outubro, pressionadas pela disparada dos juros futuros e pelas incertezas fiscais após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O setor imobiliário foi um dos mais afetados pela reação do mercado ao resultado eleitoral, diante das preocupações com o encarecimento do crédito imobiliário e dos financiamentos à construção. No dia 26, os papéis da incorporadora chegaram a despencar 42,06%, acompanhando as fortes perdas do setor.
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