Ele começou vendendo pé de moleque para fazer renda extra e hoje tem fábrica que produz 80 mil doces por dia
O pé de moleque tem uma receita sem muito segredo, e é feito apenas com amendoim e rapadura. Ainda assim, tem capacidade de movimentar bastante a economia de Piranguinho, uma cidade no sul de Minas Gerais com apenas 10 mil habitantes, onde o doce é reconhecido como patrimônio imaterial.
Essa tradição fica clara para quem passa pela BR-459, rodovia federal que liga Poços de Caldas, em Minas, até Lorena, em São Paulo. O trecho que passa pela cidade de Piranguinho tem alguns estabelecimentos coloridos nas margens da estrada, que são barracas familiares que vendem o doce há mais 50 anos. As cores servem para que um negócio se diferencie do outro.
Uma dessas lojas é a Barraca Amarela, fundada em 1974 por José da Silva, mais conhecido como Zezinho, empreendedor que atualmente tem 72 anos.
O negócio que nasceu como uma forma de complemento da renda da família mudou bastante de lá para cá. Hoje, já tem proporções industriais, com produção de 80 mil unidades de doces por dia, 117 funcionários e presente em 600 cidades brasileiras.
Negócio não nasceu como empresa de primeira
Embora hoje seja formalizada como uma empresa, a Barraca Amarela levou décadas até ser vista como um negócio pelo fundador. No início, Zezinho, que era pescador, vendia pés de moleque somente como uma forma de fazer renda extra e por gostar de produzir os doces.
O senhor, bem-humorado, conta que fez uma primeira porção de pé de moleque sem muitas ambições.
“Comprei um quilo de amendoim, três rapaduras e fiz o pé de moleque para testar a receita, já que eu sempre morei em Piranguinho e é tradicional da cidade. Deu uns 35 doces. Levei para uma mercearia e o dono quis experimentar. Ele comprou os pés de moleque e disse que estavam muito bons. Aquilo me encheu a bota”, diz Zezinho.
O empreendedor também começou a vender para os amigos. “Era uma ‘desculpa’ que eu dava para minha esposa para ir jogar futebol. Eu levava os doces para o campo e vendia no intervalo do jogo”, diz.
Zezinho explica que, com a venda dos pés de moleque, atraiu pessoas interessadas em comprar o doce e revendê-los, mas tudo na informalidade e no trabalho totalmente artesanal.
“Eu fiz seis clientes. Depois disso, pensei que poderia vender em outras cidades, então comecei a ir até São Lourenço nos dias que não trabalhava com os peixes. Vendia no ônibus e no centro da cidade.”
São Lourenço é uma cidade com distância de cerca de 80 quilômetros de Piranguinho. Ela tem quatro vezes mais habitantes que a capital do pé de moleque e recebe turistas por ser uma estância hidromineral.
Com as vendas em São Lourenço e aos clientes que revendiam nos campos de futebol, o empreendedor recebia cerca de R$ 300 nos padrões atuais, já descontando a compra de ingredientes para a produção da semana seguinte.
“Para mim, esse ganho estava bom demais. Ajudava muito no orçamento”, diz Zezinho.
A abertura de um ponto físico
Depois de 12 anos vendendo os pés de moleque para um número pequeno de revendedores e na cidade vizinha, Zezinho decidiu abrir um ponto físico para o negócio.
Nos anos 80, já existiam outras barracas na beira da BR-459, que são os pontos de venda tradicionais do pé de moleque na cidade.
O empreendedor precisava, portanto, decidir qual seria a cor — e consequentemente o nome — do negócio.
“Peguei centenas de peixe dourado na vida como pescador. É um peixe amarelo, em um tom de ouro muito bonito. As outras barracas também já usavam outras cores: vermelho, azul, verde... então decidi ficar com o amarelo”, relembra.
A princípio, a ideia de abrir um ponto físico para o negócio pareceu inviável. Zezinho diz que não tinha condições financeiras, não conseguiria empréstimos nos bancos e nem um “padrinho” para a Barraca Amarela. Mas o empreendedor construiu a barraca aos poucos, com o dinheiro que recebia nas vendas do doce.
Por 30 anos, a operação da Barraca Amarela era toda da família, que atendia os clientes na loja física, preparava os doces e pensava em toda a operação do negócio.
Até as filhas do empreendedor, que na época ainda eram crianças, se revezavam nos horários de atendimento para ir à escola.
Quando os filhos do empreendedor atingiram a idade adulta, uma de suas filhas, Ana Paula Veríssimo, decidiu dar andamento ao que havia sido construído pelo pai.
“Eu fiz o alicerce de empresa. Minha filha e o meu genro fizeram as paredes e agora estão colocando o telhado”, diz Zezinho.
Uma nova geração no negócio
Embora já esteja à frente da operação da empresa há mais de 20 anos, assumir o negócio do pai não era o plano A da vida de Ana Paula. A empreendedora conta que é a terceira de cinco filhos e nasceu quando Zezinho já produzia os doces.
“Eu nasci já no meio da Barraca Amarela, acompanhando o trabalho do meu pai. Mas na minha infância não dava muito valor e na adolescência também não quis saber do negócio. Eu queria estudar e procurar outros caminhos”, conta a atual diretora da empresa.
Em 2001, com a gravidez da primeira filha, ficou desempregada e teve dificuldades em encontrar outro trabalho na cidade — então recorreu ao negócio do pai.
Ao lado do marido e com o dinheiro da venda de um terreno na área rural, comprou uma nova barraca, que foi pintada de amarelo, para ser uma segunda unidade da empresa em 2004.
O negócio começou a se consolidar e a empreendedora aproveitou os dias de menor movimento na loja física — segunda à quinta — para visitar outras cidades e oferecer os doces nos comércios, o que criou uma pequena rede de distribuição de pé de moleque a quilômetros de distância de Piranguinho.
A fase atual: produção industrial
O crescimento da distribuição para revendedores exigiu uma mudança de rota, segundo a empreendedora.
A vigilância sanitária notificou a Barraca Amarela sobre exigências de rotulagem, etapas de produção e os detalhes para a comercialização de um produto alimentício.
Isso levou a empresa familiar a uma nova fase: a empreendedora precisou se especializar por meio de cursos, contratar nutricionistas e planejar uma indústria.
Em 2011, a Barraca Amarela inaugurou a primeira fábrica. Apesar de não divulgar os valores gastos nesse processo de formalização, Ana Paula conta que a burocracia foi grande.
“Nenhum banco queria emprestar dinheiro. Tivemos que construir a fábrica só com o dinheiro da venda dos pés de moleque.”
A industrialização exigiu a compra de batedeiras industriais, desenvolvimento de sistemas próprios da empresa e o estudo de como manter a receita tradicional com outros ingredientes que pudessem conservar o doce por tempo suficiente para ser vendido em outras regiões.
Atualmente, a fábrica tem 1,6 mil metros quadrados e produz 80 mil doces por dia, divididos em quatro linhas de produção com a base do amendoim: pé de moleque, pé de moça, paçoca rolha e paçocão.
Os produtos são distribuídos por 14 estados e 600 municípios brasileiros. O foco da marca é o B2B com lanchonetes, padarias, restaurantes, empórios e supermercados. A empresa mantém a venda para o varejo nas lojas físicas em Piranguinho.
A empreendedora conta que a marca ainda engatinha no e-commerce, mas é uma das frentes de crescimento que está no radar da companhia agora.
Empresa mira expansão
Apesar de manter as raízes de empresa familiar, a Barraca Amarela mira um crescimento até mesmo fora do Brasil.
A companhia está em um processo de construção de uma nova fábrica, que deve ficar pronta na metade de 2027, com espaço de 2,4 mil metros quadrados. Com ela, a Barraca Amarela deve alcançar um parque industrial de 4 mil metros quadrados no total.
O objetivo é aumentar a capacidade de produção, pensando em novos mercados que a empresa ainda não está presente.
Ana Paula conta que já recebeu propostas para exportar o pé de moleque para outros países, mas que recusou por receio na época e porque o prazo de validade do doce não daria conta de ser levado para outro país.
“Estamos estudando com outros produtos, como a paçoca”, diz.
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