Custo de capital alto por mais tempo trava conclusão de M&As, diz sócio do BR Partners
A taxa de juros em patamar elevado por mais tempo do que se esperava se tornou o principal entrave para o fechamento de fusões e aquisições no Brasil, superando até a incerteza relacionada às eleições e o futuro da política econômica.A leitura é de Jairo Loureiro, sócio cofundador e managing director do BR Partners (BRBI11), um dos principais bancos de investimentos do país.Na visão dele, o custo de capital funciona como uma taxa de desconto na avaliação de qualquer ativo colocado à venda. Quanto mais alto e mais prolongado, maior a distância entre o valor que o comprador está disposto a pagar e aquele que o vendedor tem em mente. "Quando você começa a ter esse impacto no valor de ativos, você tem um efeito de dificultar as transações, porque as expectativas dos lados começam a se abrir", disse Loureiro em entrevista à Bloomberg Línea.⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.Loureiro comanda cerca de 40 profissionais na área de assessoria financeira do banco, que anunciou 14 transações no primeiro semestre — 11 delas de M&A. O número supera de longe as três transações anunciadas pelo banco no mesmo período em 2025. Apesar do crescimento no número de transações, a perspectiva para esta segunda metade do ano agora é mais nebulosa, em meio à campanha eleitoral. “Esperava-se que o custo de capital fosse convergir para níveis mais palatáveis rápido, e isso não ocorreu. Pelo contrário, a perspectiva agora é de um horizonte de custos de capital alto por um período mais prolongado do que se esperava”, disse Loureiro.Leia mais: BR Partners amplia assessoria de reestruturação de dívida de empresas ‘estranguladas’A visão é de que mercado brasileiro de fusões e aquisições opera hoje em duas velocidades. Os negócios no setor de infraestrutura sustentam transações de vários bilhões de reais, enquanto as operações ligadas ao consumo doméstico encolheram e algumas negociações de companhias conhecidas ficaram suspensas à espera de definição política e econômica. O perfil dos negócios fechados no primeiro semestre pelo banco ilustra a divisão que o executivo descreve. Em telecomunicações, o banco atuou nas operações da IHS com a Macquarie, de R$ 5,2 bilhões, e com a TIM, de R$ 1 bilhão, além do negócio entre Online e ZaaZ. No bloco de infraestrutura, o executivo inclui portos, torres, fibra ótica e data centers, regulados ou não, todos com contrato longo e demanda menos sensível ao ciclo interno. São segmentos que continuam atraindo capital estrangeiro. A BR Partners assessorou uma operação portuária e três de infraestrutura de telecom no período.O segundo bloco reúne varejo, consumo e educação. Nesse grupo, o valor dos negócios recuou para a faixa entre R$ 700 milhões e R$ 1 bilhão, o que Loureiro chama de parte baixa do segmento de grandes empresas, contra negócios de vários bilhões no primeiro bloco.Um negócio fechado no período foi a transação de R$ 69 milhões que transferiu dez lojas deficitárias da Hortifruti Natural da Terra ao Grupo Fartura, dono do Oba Hortifruti, movimento de desinvestimento da Americanas em recuperação judicial.A divisão por tamanho das operações antecipa quais setores devem concentrar anúncios nos próximos meses e quais dependem de queda no custo de capital para destravar, segundo ele.À espera de maior visibilidadeDe acordo com o executivo, transações de companhias reconhecidas foram interrompidas à espera de maior definição do ambiente político e do que pode ser feito na economia. A cautela também alongou a due diligence, com a fase de análise exaustiva que ocorre sobretudo em processos com investidores internacionais.O terceiro vetor do pipeline são companhias que se alavancaram no ciclo anterior e agora renegociam dívida, vendem ativos, reduzem escala ou buscam sócio. “Não acho que viramos o momento. Acho que, pelo contrário, isso deve continuar ainda por um período”, disse.A leitura não é nova na casa. Em outubro de 2025, o CEO Ricardo Lacerda afirmou à Bloomberg News que cerca de 25% das grandes companhias brasileiras carregavam alavancagem elevada, contratada em período de juro baixo para investimentos e aquisições que não se pagaram, e projetou continuidade dos processos de reestruturação.Desde então o banco assessorou reestruturações de Ambipar e Invepar, e passou a atuar ao lado da Petrobras nas negociações da Braskem. Ponto de entradaApesar de um cenário mais incerto, Loureiro rejeita a ideia de que o mercado está parado. A carteira em preparação para o segundo semestre espelha a do primeiro, com os mesmos setores ligados à infraestrutura mantendo a atividade. Ele aponta ainda grupos brasileiros que leem o momento como ponto de entrada para comprar concorrente, resolver sucessão ou montar estrutura maior visando abertura de capital adiante.Sobre valuation, o executivo estende o raciocínio ao mercado acionário. Cita bancos brasileiros com retorno acima de 15% negociados a múltiplos inferiores aos dos pares americanos e diz que o país está relativamente barato, com a ressalva de que escala e risco diferem entre as praças.Leia mais: Megafusões aceleram em 2026, e mercado de M&A mira superar recorde histórico de 2021“Quando olho a bolsa, acho que tem um dislocation [descolamento entre preço e fundamento]. Agora, sou um em milhões que olham a bolsa brasileira, e há profissionais que fazem isso o dia inteiro, com modelos. Por que eles não estão comprando mais?”, afirmou.A BR Partners é negociada na Nasdaq na forma de ADRs desde setembro de 2025, quando a listagem objetivou atrair investidores institucionais globais e aumentar a liquidez dos papéis. Os recibos acumulam queda de 38% em 2026 e 23% em 12 mesesO múltiplo baixo, porém, não significa pechincha na leitura dele. No high corporate market, argumenta, empresários são bem assessorados. O que existe é assimetria na avaliação do risco: o comprador paga menos por companhia alavancada quando enxerga corte de despesa ou custo de entrega que a gestão atual não alcança.Nos portos, os movimentos recentes vieram de franceses em Santos e investidores de Abu Dhabi em outro terminal, sem presença chinesa. Aos grupos chineses Loureiro atribui sequência distinta, que parte da exportação de equipamentos, passa por manufatura local e avança para rede de distribuição e assistência técnica.“O Brasil, ou você atende verticalmente, ou você está fora. É uma questão da dimensão do país”, disse. O BR Partners mantém conversas com companhias chinesas sem representar nenhuma de forma ativa, segundo o executivo.Leia tambémBTG Pactual espera que banco nos EUA ganhe robustez no fim de 2027, diz CFO

























































