As preocupações do mercado financeiro com o aumento da dívida pública são justificadas, já que os investidores têm dúvidas legítimas sobre a trajetória dos gastos que precisam ser enfrentadas pelo governo, disse o ministro da Fazenda, Dario Durigan.O ministro, de 42 anos, repete a mesma mensagem em reuniões com investidores e com a imprensa desde que assumiu o cargo em março, no lugar de Fernando Haddad. Em essência, afirma que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumpriu os compromissos fiscais assumidos e continuará a fazê-lo. Mas os investidores estão, compreensivelmente, preocupados com as perspectivas diante de um possível novo mandato petista. "O que o mercado hoje cobra, com alguma razão, é como vai ser essa trajetória de gasto obrigatório, como vai ser essa trajetória de dívida para frente", afirmou em entrevista à Bloomberg News na segunda-feira. “O que eu digo, sem fugir da raia, é que tem que melhorar o fiscal no país.”⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.A mensagem não conseguiu convencer investidores, que veem o crescimento descontrolado dos gastos como a principal causa da incerteza fiscal que alimenta as expectativas de inflação.Leia também: Lula e Flávio Bolsonaro dão largada a campanhas presidenciais em seus redutos políticosOs ativos brasileiros registraram algumas das maiores perdas do mundo na semana passada, quando Lula consolidou a liderança nas pesquisas. O real se desvalorizou em todos os cinco pregões, enquanto investidores estrangeiros retiraram mais de R$ 13,5 bilhões da bolsa brasileira neste mês até quarta-feira.Os temores contribuem para manter as expectativas de inflação acima da meta de 3% até 2028 e leva o Banco Central a manter a taxa básica de juros em 14% ao ano.Durigan apresentou a política fiscal como a principal ferramenta à disposição do governo para reduzir os juros estruturalmente elevados do Brasil. Embora não seja a única razão para o alto custo do crédito, afirmou, esse é o fator que o governo pode controlar.“Tem vários elementos que explicam isso e agora nós estamos vivendo muito de incerteza das eleições”, afirmou. “É natural que a gente entenda isso sem que a gente também aumente o tamanho do problema.”Problemas de crédito Durigan também manifestou preocupação com as dificuldades financeiras enfrentadas por algumas das maiores empresas do Brasil, afirmando que o governo tem trabalhado com companhias e credores para evitar que casos individuais provoquem um estresse mais amplo na economia.Leia também: Vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro diminui, aponta pesquisa QuaestEle citou a produtora de açúcar e etanol Raízen, afirmando que a empresa negociou com sucesso com credores privados e que, posteriormente, o governo concordou em conceder um desconto de proporção semelhante em sua dívida tributária.O governo também tem participado das discussões envolvendo a Braskem, trabalhando em conjunto com o BNDES, o Banco do Brasil e outros bancos para encontrar uma solução para a petroquímica, disse ele. A empresa mantém conversas regulares com credores sobre sua estrutura de capital.Leia também: Raízen se compromete a simplificar portfólio após reestruturação de dívida bilionáriaO governo quer evitar que os problemas de crédito se alastrem no Brasil, disse Durigan. “Eu vejo com preocupação”, afirmou. “Eu não acho que nós vivemos uma crise nesse ponto de vista, mas eu vejo com preocupação.”Durigan disse que ainda não manteve conversas sobre o Grupo Casas Bahia, que entrou com pedido de recuperação judicial em São Paulo nesta semana, mas afirmou que o governo poderá fazê-lo. Em última análise, porém, o Brasil precisa melhorar sua situação fiscal e reduzir as taxas de juros, em vez de se concentrar em intervenções em empresas individuais, disse.Durigan disse que Lula e o presidente do Partido dos Trabalhadores, Edinho Silva, pediram que ele atue como principal interlocutor com a imprensa e o mercado financeiro. Embora não coordene o programa de governo, ele mantém contato regular com a campanha e ajuda a revisar propostas econômicas.Ele evitou, porém, defender medidas estruturais específicas — como acabar com os reajustes automáticos de aposentadorias e outros benefícios vinculados ao salário mínimo ou alterar as regras de gastos do arcabouço fiscal.“Temos o desafio de acomodar gasto obrigatório. Existem várias medidas que podem ser adotadas para isso.”Veja mais em bloomberg.com Leia tambémMercado exagera no grau de favoritismo de Lula na eleição, diz Eurasia