O que antes era uma vantagem competitiva para o Grupo Mateus (GMAT3) virou motivo de cautela para a XP Investimentos. A forte presença da varejista nas regiões Norte e Nordeste, onde o Bolsa Família tem peso relevante na renda da população, levou os analistas da casa a rebaixar a recomendação da ação de compra para neutro e cortar suas projeções de lucro em até 30%.
Na visão dos analistas Danniela Eiger, Pedro Caravina e Laryssa Sumer, a combinação de um Bolsa Família sem perspectiva de reajustes relevantes, inflação pressionando o orçamento dos consumidores e sinais de enfraquecimento da demanda pode limitar o crescimento da varejista nos próximos anos.
Como resultado, a XP reduziu o preço-alvo de GMAT3 para R$ 5 ao fim de 2027.
Por que a exposição ao Bolsa Família preocupa
O principal motivo para a mudança de visão dos analistas está na localização em que o Grupo Mateus mais atua.
Segundo a XP, os nove estados atendidos pela companhia estão entre os 12 com maior participação do Bolsa Família na renda média per capita da população. O Maranhão, estado de origem da varejista e responsável por quase metade de sua rede de lojas, aparece entre os mais dependentes do programa.
Para os analistas, isso torna a empresa mais vulnerável a uma desaceleração da renda das famílias de baixa renda. O relatório do banco destaca que o benefício médio do Bolsa Família acumulou perda real de cerca de 5% nos últimos três anos.
Além disso, o cenário fiscal mais apertado reduz as chances de aumentos significativos no programa nos próximos anos.
Na prática, isso significa menos impulso para o consumo justamente nas regiões que concentram a operação da companhia.
Mudança na inflação também pesa
Outro fator que sustenta a tese mais cautelosa é a mudança na dinâmica dos preços. Em 2023, o Grupo Mateus se beneficiou de uma combinação considerada favorável para o varejo alimentar: inflação geral mais controlada e preços de alimentos relativamente resilientes.
Agora, segundo a XP, o cenário é o oposto. Enquanto a inflação nas regiões Norte e Nordeste volta a pressionar o orçamento das famílias, a inflação mais fraca dos alimentos reduz o potencial de crescimento das vendas nas mesmas lojas (SSS, na sigla em inglês).
Os analistas também chamam a atenção para tendências que podem disputar espaço no orçamento dos consumidores. Entre elas estão o avanço das apostas esportivas online e a maior popularização dos medicamentos da classe GLP-1, utilizados para perda de peso.
Na avaliação da XP, ambos os movimentos podem representar obstáculos adicionais para o consumo de alimentos — e os sinais de desaceleração já começaram a aparecer. Durante a divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2026, a própria administração do Grupo Mateus mencionou queda nos volumes vendidos.
XP corta projeções de lucro em até 30%
Diante desse ambiente, os analistas revisaram as estimativas para o Grupo Mateus. As projeções de lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) e lucro líquido para 2027 foram reduzidas entre 28% e 30%, respectivamente.
Apesar disso, a XP continua considerando o Grupo Mateus um operador de qualidade e líder em seus mercados. O problema é a deterioração da relação entre risco e retorno para a ação.
Para a XP, a principal alavanca para uma expansão mais forte da rentabilidade seria uma aceleração das vendas nas mesmas lojas. Mas, diante da pressão sobre a renda dos consumidores e da elevada exposição a regiões dependentes do Bolsa Família, esse cenário parece mais difícil de se materializar no curto prazo.
*Com informações do Money Times.
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