O LinkedIn foi, em grande parte, projetado para ajudar as pessoas a encontrar empregos. Sem querer, a rede social se tornou um verdadeiro tesouro para economistas que estudam o mercado de trabalho moderno. Uma equipe de pesquisa, por exemplo, utilizou o LinkedIn para preencher uma lacuna nos dados tradicionais, analisando demissões e promoções por raça, etnia e gênero — e acabou constatando discriminação em algumas das empresas estudadas. Outra equipe utilizou dados do Censo dos Estados Unidos e perfis do LinkedIn para descobrir que empreendedores são significativamente mais propensos a contratar trabalhadores com origens semelhantes às suas.Mas um novo artigo de pesquisadores da Universidade de Stanford e da Revelio Labs revelou um problema em tratar o LinkedIn como um registro histórico: os usuários constantemente distorcem os dados. Entre 2020 e 2026, quase 20% dos usuários do LinkedIn residentes nos EUA voltaram e editaram as descrições ou os cargos de empregos que haviam deixado anos antes. Para profissionais da área de tecnologia, a taxa saltou para quase um em cada três. ⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.E essas alterações, que os pesquisadores chamam de "viagem no tempo", não são feitas enquanto as memórias ainda estão frescas. A edição mediana de “viagem no tempo” ocorreu mais de quatro anos depois que o usuário deixou o cargo. Como observam os autores, já que o emprego, nesse momento, já pertence ao passado, os ajustes não refletem mais uma mudança nas responsabilidades, mas sim na marca pessoal. “O emprego é o mesmo, mas a maneira como falam sobre ele mudou”, escrevem eles.As pessoas vêm aprimorando seus currículos desde que eles existem. Mas hoje, quando os profissionais reescrevem suas próprias trajetórias profissionais, eles também acabam alterando os registros públicos e nossa compreensão do mercado de trabalho. Leia também: LinkedIn vê contratações abaixo do nível pré-pandemia e mercado de trabalho mais lentoPor exemplo, após o lançamento do ChatGPT em 2022, a adição retroativa de termos como LLM, GPT e IA aumentou seis vezes, segundo constataram os pesquisadores. Isso significa que um economista que analisasse o LinkedIn como ele é hoje acabaria superestimando a prevalência de habilidades em IA em 2022 em cerca de 30%.Isso não torna os dados que “viajam no tempo” inúteis. Embora os currículos online possam ser artefatos históricos imperfeitos, eles ainda podem nos ajudar a compreender e medir o que os empregadores valorizam no momento — ou, pelo menos, o que os candidatos acreditam que os empregadores desejam. Sob essa perspectiva, a IA está em alta, e o trabalho remoto não merece mais a mesma atenção que costumava receber. E não surpreenderá ninguém que as referências à diversidade, equidade e inclusão (DEI) tenham caído drasticamente no início de 2025, coincidindo com as ordens executivas do governo Trump que visavam os programas de DEI. Os trabalhadores não estão atualizando seus currículos para descrever o passado com mais precisão, mas sim para se prepararem melhor para competir no futuro. Isso torna a “viagem no tempo” um indicador potencialmente valioso de para onde a economia está se dirigindo. Leia também: Mulheres ocupam apenas 13% dos cargos executivos em empresas de IA, aponta LinkedInOs pesquisadores descobriram que a “viagem no tempo” costumava estar associada a uma mudança de emprego: os trabalhadores apresentam 64% mais chances de trocar de empregador no período em que atualizavam seus perfis. Talvez um aumento repentino na “viagem no tempo” possa prenunciar a próxima “Grande Demissão”. Ou, seguindo o mesmo princípio, uma onda repentina de edições de perfis entre os funcionários de uma empresa possa prenunciar uma onda de demissões — uma hipótese que os pesquisadores planejam testar na próxima versão do artigo, afirma Gideon Moore, da Universidade de Stanford, um dos coautores do estudo.Vale a pena prestar atenção, então, à recente desaceleração nas menções relacionadas à IA revelada pelos pesquisadores. Moore disse que ele e seus coautores interpretam essa desaceleração como um possível pico do frenesi em torno da IA. Os trabalhadores ainda veem a IA como uma habilidade valiosa, mas, cada vez mais, podem não querer que ela os defina. “Eles não querem ser programadores de ‘vibe’, querem ser especialistas em programação que usam IA”, disse Moore. A mudança de tom também vem daqueles que estão contratando. Um relatório recente da PwC constatou que as vagas para os cargos mais expostos à IA estão incluindo tarefas que dependem de habilidades humanas — empatia, discernimento, criatividade — 2,5 vezes mais rápido do que os cargos menos expostos à IA. Essas habilidades humanas são especialmente difíceis de avaliar quando transformamos o processo de contratação em um ciclo vicioso de IA. A equipe da Stanford e da Revelio constatou um aumento significativo no uso de palavras associadas à redação de modelos de linguagem de grande escala (LLM) — como “aprofundar”, “destacar” e “exibir” — em edições retroativas após o lançamento do ChatGPT. Leia também: Grandes empresas dos EUA abandonam políticas de diversidade para formação de conselhosIsso traça um quadro sombrio: os candidatos a vagas de emprego estão usando IA para elaborar seus perfis no LinkedIn, currículos e cartas de apresentação, que são então avaliados por IA para garantir que correspondam à descrição inicial da vaga, redigida pela própria IA. O resultado é uma espécie de corrida armamentista. Os trabalhadores nunca foram tão hábeis em criar uma versão de si mesmos que, pelo menos no papel, se alinhe ao que os gerentes de contratação querem ver. Isso é útil para economistas que tentam compreender as demandas em constante mudança do mercado de trabalho. Mas, para os empregadores, isso está tornando cada vez mais difícil entender a real preparação da força de trabalho.Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.Beth Kowitt é colunista da Bloomberg Opinion e cobre o mundo corporativo dos Estados Unidos. Foi redatora e editora sênior da revista Fortune.Veja mais em Bloomberg.comLeia tambémMercado exagera no grau de favoritismo de Lula na eleição, diz Eurasia