O governo chinês sinalizou que vai buscar protagonismo na governança global da transição climática ao divulgar um documento específico sobre o enfrentamento da mudança do clima como parte do seu 15º plano quinquenal, que delineia as prioridades do país para o período de 2026 a 2030.
O novo plano focado no clima não traz metas inéditas, mas consolida objetivos climáticos e dá atenção especial a alguns temas, como a redução de gases de efeito estufa que não são CO2, o aprimoramento do mercado de carbono do país e sua influência externa, e o papel chinês no debate global sobre transição climática.
O último ponto chamou a atenção de analistas internacionais por indicar um salto nas ambições do governo chinês. Enquanto no passado a China buscou se posicionar como um “contribuidor, participante e líder” de esforços globais para enfrentar as mudanças climáticas, o novo documento é mais taxativo, ao dizer que nos próximos anos o país quer “liderar de forma construtiva o processo de governança multilateral em resposta à mudança climática”.
“A influência, o poder de guiar e de dar forma à governança climática global e o apelo moral da China neste tema serão significativamente ampliados [entre 2026 e 2030]”, o documento diz. O texto destaca que o país quer fazer isso fortalecendo a cooperação internacional na indústria verde, aprofundando trocas bilaterais e em espaços multilaterais, e dando mais força para parcerias no Sul Global.
Thomas Hale, professor de políticas públicas globais na Universidade de Oxford, diz que o documento marca uma “enorme mudança retórica” do governo chinês.
“Em um mundo marcado pela disrupção causada por Donald Trump à governança global, particularmente em relação ao clima, esse parece um caminho óbvio para a China”, escreveu o pesquisador no Linkedin. O presidente dos Estados Unidos retirou o país de todos os acordos climáticos internacionais, incluindo o Acordo de Paris. A Europa, outro candidato à liderança no tema, tem redirecionado o orçamento para a defesa.
“Mas ainda assim não devemos subestimar o quão grande é a mudança de postura, ou o quão difícil será cumpri-la na prática”, afirma Hale.
Uma das frentes determinadas pelo plano é ampliar a “influência internacional” do mercado de carbono chinês, que começou a operar em 2021, por meio da ampliação da formulação de regras para os sistemas globais de comercialização de créditos.
A China é um dos países que aderiram à Coalizão Aberta de Mercados Regulados de Carbono, iniciativa do Brasil que teve o pontapé inicial na COP30, em Belém. A China será a anfitriã em setembro da Carbon Market Conference, onde a coalizão deve oficializar um plano de trabalho.
Em entrevista ao Reset, a secretária extraordinária do Mercado de Carbono, do Ministério da Fazenda, Cristina Reis, afirmou que o Brasil faz conversas com o governo chinês para assinar um acordo de venda de créditos de carbono, os ITMOs, para o país asiático.
Domesticamente, a expansão e o fortalecimento do mercado de carbono chinês também aparecem como um caminho para controlar as emissões de gases poluentes que não são o CO2, como metano e óxido nitroso. O plano determina a expansão do sistema para novos setores e categorias de gases de efeito estufa, com o desenvolvimento de novas metodologias de medição e verificação.
O governo chinês pretende reduzir as emissões de gases poluentes em 30 milhões de toneladas equivalentes a CO2 até 2030, mas não detalha metas específicas para cada gás.
Chen Meian, analista do think tank Institute for Global Decarbonization Progress (IGDP), de Pequim, diz que projetos para reduzir as emissões de metano vinculadas a minas de carvão poderiam promover a redução de boa parte desse volume.
Ao site Carbon Brief, a analista também destaca a importância de o plano “finalmente dar atenção” ao uso de hexafluoreto de enxofre (SF6), um gás super poluente emitido principalmente pelo setor elétrico.
‘Pedalada climática’ e comércio
A China é atualmente o país que mais emite gases de efeito estufa, responsável por cerca de 30% do total de emissões globais. O país é alvo de críticas por não promover a redução mais acelerada de emissões e pela falta de transparência em algumas medições.
O governo de Xi Jinping quer alcançar o pico de emissões antes de 2030 e reduzir a intensidade de carbono (calculada a partir das emissões em relação ao PIB do país) em 17% na comparação com 2025. O líder chinês também já citou a ambição de atingir a neutralidade de carbono em 2060.
A nova meta para a redução da intensidade de carbono é menor do que a definida para os cinco anos anteriores, de 18%, que analistas dizem que não foi cumprida. Em março, a China divulgou ter chegado perto do valor, mas especialistas do think tank finlandês Centre for Research on Energy and Clean Air (Crea) observaram que o número só foi alcançado após uma “pedalada climática” — uma mudança de metodologia em relação à meta anterior. Eles estimaram que a redução real foi de 12%.
“A China continua a seguir um padrão estabelecido em anos anteriores: apoio forte para expandir as indústrias de energia limpa e novas tecnologias de baixo carbono, mas cautela no que diz respeito a restringir o consumo de combustíveis fósseis e o crescimento de emissões”, escreveram Lauri Myllyvirta e Belinda Schäpe em março, num artigo sobre os dados e os planos divulgados até então pelo governo chinês.
Em julho, o governo chinês também publicou um capítulo do plano quinquenal sobre a indústria de energia renovável. O documento coloca a meta de instalar 3.500 gigawatts de capacidade até 2030, incluindo energia solar, eólica e hidrelétrica.
A meta é menor do que a de anos anteriores, em parte porque a indústria de energia solar chinesa cresceu de forma acelerada nos últimos anos. O país está próximo de ver a parcela de energia elétrica produzida pela geração solar ultrapassar o carvão, segundo órgãos do governo. A China também se tornou líder na exportação de tecnologia e produtos essenciais para a descarbonização, como energia solar e veículos elétricos.
A interseção entre a mudança climática e o comércio exterior ainda define as ambições chinesas, na opinião de Yao Zhe, consultora do Greenpeace East Asia. No plano mais recente, “a tecnologia e o comércio exterior verdes ganharam um papel central”, disse a analista à agência Bloomberg.