Com inflação pressionada e renda em queda, vendas em supemercados só devem se recuperar em meados de 2022
As vendas em supermercados ainda vão enfrentar meses difíceis nesse início de ano, após fecharem 2021 em queda de 2,4%. Inflação em alta, juros em ascensão e massa salarial em baixa fazem com que o consumidor tenha que reduzir a quantidade de produtos no carrinho de compras.
O segmento de supermercados e hipermercados também registrou desempenho negativo em dezembro, quando tradicionalmente as vendas são mais aquecidas. Houve queda de 0,5% na comparação com novembro, segundo dados divulgados nesta quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
“O setor de supermercados e hipermercados vai sofrer ao menos até meados de 2022”, diz Eduardo Vilarim, economista do Banco Original.
O principal fator é a inflação. O IPCA nos 12 meses acumulados até janeiro está em 10,38%. A desaceleração do índice deve ter início a partir de abril, para terminar o ano em 5,44%, segundo projeção do relatório Focus do Banco Central (BC). Ou seja, a inflação deverá ter um belo recuo no decorrer do ano, mas ainda assim irá afetar o bolso do consumidor.
Atrelado à inflação, que corrói o poder de compra, o consumidor ainda lida com menores salários, tanto no mercado de trabalho formal quanto informal, e com o aumento dos juros.
“Esses três componentes mostram que o consumidor tem uma menor de renda disponível para gastos”, diz o economista.
Essa renda mais baixa e o cenário mais restritivo para crédito afetaram também o segmento de móveis e eletrodomésticos, em que as vendas caíram 17,6% no ano passado.
Mas nem tudo foi negativo no comércio em 2021. Houve aumento relevante das vendas de artigos de farmácia e tecidos (que inclui vestuário e calçados), que subiram, respectivamente, 9,8% e 13,8%. No consolidado do ano, as vendas do varejo restrito e do varejo ampliado (que inclui a comercialização de veículos e materiais de construção) subiram 1,4% e 4,5%, cada.
Apesar do cenário pouco otimista para o comércio, em especial o segmento de supermercados, mais afetado pela corroção da renda, as ações dessas empresas operaram em alta durante quase todo o pregão. Por volta das 17h30, as ações ON do Pão de Açúcar (PCAR3) subiam 0,18% e as do Assaí, 0,88%. No caso do Carrefour (CRFB3), os papéis avançavam 3,68%.
2022 mais fraco
No entanto, para Vilarim, o comércio passará a enfrentar de forma mais intensa a concorrência com o setor de serviços — o mais afetado durante as fases mais restritivas da pandemia da Covid-19. Com isso, a projeção do Original para o crescimento do volume de vendas do comércio é de 1% a 1,2% considerando o varejo ampliado.
Essa expansão já leva em conta o efeito da contribuição do Auxílio Brasil, programa federal que substituiu o Bolsa Família, que deve injetar R$ 90 bilhões na economia, uma vez que a maior parte desses recursos deve ser direcionada para o consumo.
Em relatório, o economista Rodolfo Margato, da XP Investimentos, também vê um comércio varejista mais fraco em 2022, com projeção de crescimento de 1% para o varejo ampliado e de 0,5%, para o restrito.
“O cenário para o consumo privado permanecerá bastante desafiador em 2022. Inflação alta, salários reais deprimidos, elevação das taxas de juros, desaceleração das concessões de crédito e ampliação do endividamento explicam esse quadro prospectivo.”