A queda da expectativa de inflação no Brasil tem alterado a demanda por títulos públicos. Cresce a procura pelos prefixados, enquanto aqueles corrigidos pela inflação vão sendo deixados um pouco de lado. A boa notícia para o investidor é que as duas classes do Tesouro Direto ainda apresentam prêmios bem atrativos.
Essa mudança de preferência pode ser vista nas taxas de inflação implícita, que é a diferença entre os juros prefixados e o dos papéis indexados à inflação.
Essa diferença caiu de mais de 7% em maio para pouco acima de 5,20% atualmente – ou seja, em meio aos sinais de desaceleração da inflação, os investidores reduziram suas expectativas para a alta de preços esperada para os próximos anos.
Na prática, isso significa que os investidores passaram a ver um prêmio maior nos papéis prefixados do Tesouro.
Francisco José Levy, estrategista-chefe da Vitreo Wealth Management, explica que as duas classes de títulos estão com prêmios e a escolha por um ou outro está atrelada às expectativas quanto ao ritmo de queda da inflação e da taxa Selic – atualmente em 13,75% ao ano.
“Trocar CDI (pós-fixados) por títulos de inflação e prefixados é bom para garantir retornos maiores. A divergência é a velocidade e ritmo dessa queda”, diz.
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Atualmente, o Tesouro Prefixado com vencimento em 2025 está pagando 11,98%. Como a inflação implícita está em torno de 5,20%, esses papéis estão precificando um ganho em torno de 6,7%, acima dos 5,75% do Tesouro IPCA com vencimento em 2026.
Para o estrategista, o investidor precisa ter em mente que as surpresas inflacionárias no Brasil são mais frequentes – e por surpresa entenda-se os índices de preços ficarem acima do esperado.
“Em geral, se paga mais caro [pelos títulos de inflação] para dormir tranquilo caso a inflação dispare. Se ficar mais baixo que esperado, o investidor já garantiu um belo juro real”, explica.
O cenário esperado por Levy considera que a economia irá sentir de forma mais intensa o efeito dos juros elevados, uma vez que a inflação irá ceder.
“Essa inflação começa a cair mais rápido. Ao longo do segundo trimestre de 2023 já é possível ter corte dos juros.”
Já para Eduardo Magozo, gestor de renda fixa da Garde Asset Management, o atual patamar de inflação implícita mostra que os títulos corrigidos pelo IPCA estão menos interessantes em relação aos prefixados. No entanto, o ganho real (juros pagos além da inflação) ainda é atrativo.
A justificativa é que no curto prazo ainda há espaço para deflação. “Eu não vejo tanta inflação no médio prazo, o que seria seis meses. É difícil ter uma previsão para um período maior que esse”, conta.
As projeções do boletim Focus mostram um IPCA de 6,40% para 2022 e de 5,17% para 2023. No acumulado dos 12 meses encerrados em agosto, o índice está em 8,73%.
Com essas incertezas, o gestor acredita que é melhor fazer arbitragem entre os papéis do que ter uma aposta direcional (apenas prefixado ou só títulos corrigidos pela inflação).
Em sua visão, a taxa de juros só cai no segundo trimestre do ano que vem se a inflação estiver em um patamar ainda mais baixo, o que ainda é incerto. Além disso, ele ressalta o risco fiscal no Brasil pós-eleições, com a avaliação que a situação das contas públicas pode piorar a partir do ano que vem.
“Não acho que o BC continuará elevando os juros, mas a taxa ficará em 13,75% ao ano por mais tempo”, diz.
Opções de investimento
Os especialistas veem prêmios nas duas modalidades de títulos públicos, mas com uma chance um pouco maior de ganhos nos prefixados – mas sem muita ousadia nos prazos.
A recomendação é de uma alocação nos papéis com vencimento em três anos. No caso do Tesouro Direto, o Tesouro Prefixado 2025.
Prazos inferiores a esse podem não garantir ganhos substanciais acima da Selic. Acima, há o risco de a inflação sair de controle e o ganho real não ser tão atrativo assim.
“Para a pessoa física é mais difícil fazer isso (arbitragem), então prefiro os títulos nominais em um prazo de uns três anos”, diz Magozo, da Garde.
Levy, da Vitreo, também vê o horizonte de três anos como adequado para os investimentos em prefixados. Esse período, para ele, é suficiente para capturar os ganhos do arrefecimento da inflação e, se o quadro se inverter, o investidor não chegará a perder dinheiro.
“Em um prazo de quatro ou cinco anos [o investidor] garantiria ganhos [acima da inflação] maiores. Mas se a inflação disparar, o investidor vai perder, então três anos é um prazo bom, sem risco excessivo.”
Já para quem tem um horizonte de investimento um pouco mais longo, a sugestão de Levy é deixar os recursos em títulos corrigidos pela inflação com prazo de quatro a cinco anos – ou até mais longo para quem já pensa na aposentadoria.
Em relatório, Lucas Queiroz, analista do Itaú BBA, lembra que o investidor terá que considerar ainda o risco de reinvestimento, que, na prática, é o risco de não encontrar mais taxas atrativas quando os papéis escolhidos vencerem ou as condições de taxa mudarem muito e o investidor ficar preso a um papel. “Garantir uma taxa menor, mas evitar o risco de reinvestimento, ou rentabilizar o patrimônio no curto prazo a uma taxa mais alta?”