A forte deflação mostrada pelo IGP-M (Índice Geral de Preços – Mercado) de agosto indica uma desaceleração relevante dos preços de alimentos e bebidas nos próximos meses, e abre inclusive a chance de uma inflação abaixo de 6% em 2022, cenário impensável há alguns meses.
O índice da FGV/ Ibre, usado no reajuste de contratos de serviços, caiu 0,70% neste mês, bem mais que o esperado pelo mercado, que acreditava em uma deflação de pouco mais de 0,50%.
Como previsto, o desempenho foi influenciado pela queda no preço de combustíveis (com a redução do ICMS pelos estados e mais recentemente a redução de preços de combustíveis pela Petrobras), mas a surpresa veio da continuidade de fortes recuos de itens como milho, trigo e carne.
Na avaliação de André Braz, coordenador dos índices de preços da fundação, os números mostram que há outros fatores, como a desaceleração de grandes economias, como China e países da Europa, jogando a favor da perda de ritmo da inflação.
Para ele, isso deve continuar influenciando positivamente os preços até o final do ano. “Começamos a ver a possibilidade de, quem sabe, ter a inflação anual de 2022 abaixo de 6%, por conta da velocidade com que os preços de alimentos vêm recuando”, afirma o especialista.
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IGP-M de agosto tem queda de 0,70%, deflação bem maior que a esperada pelo mercado
A queda nos preços das commodities já havia influenciado os dados de julho, quando o IGP-M mostrou alta de apenas 0,21%, e voltou a impactar os números de agosto.
Além de novos recuos de menor proporção em minério de ferro, milho em grão e algodão em caroço, há itens cujos preços que passaram a cair neste mês, como bovinos (de 4,43% em julho para -2,01% em agosto), café em grão (de 2,69% para -1,65%) e trigo em grão (2,31% para -4,99%).
O IGP-M é usado como indexador em muitos contratos de aluguel, energia elétrica, mensalidades, alguns tipos de seguros e alguns planos de saúde, e é formado por três índices: o IPA (Índice de Preços ao Produtor Amplo), o IPC (Índice de Preços ao Consumidor) e o INCC (Índice Nacional de Custo de Construção).
“Em agosto, as revisões para baixo dos preços pela Petrobras e uma bela desaceleração dos alimentos farão com que os preços caiam. Os alimentos podem até cair em agosto, uma queda discreta”, diz Braz. “Isso vai dar fôlego para a desaceleração de preços não só em agosto, mas também nos próximos meses.”
Selic pode começar a cair antes?
O estrategista-chefe da Tullett Prebon, Vinicius Alves, lembra que o IGP-M melhor que o esperado em agosto pode reforçar as apostas de uma parte do mercado que acredita que a taxa básica, a Selic, pode começar a cair mais cedo em 2023.
“Estou mais reticente com essa possibilidade. Acredito que os juros só começam a cair a partir do final do segundo trimestre do ano que vem”, pondera. “Apesar da queda, precisamos olhar a inflação mais a fundo, já que muito do recuo veio das medidas de desoneração.”
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Na avaliação de Jefferson Laatus, estrategista-chefe do Grupo Laatus, a deflação forte do índice da FGV ajuda a tirar pressão dos juros futuros, mas nada indica uma queda rápida da taxa básica, a Selic, em 2023.
“Há vários fatores que podem pressionar a inflação”, apontou. “Dependendo de quem ganhar as eleições, o mercado vai precificar dólar mais alto, por exemplo. Ainda é cedo para colocar no preço que os juros podem cair mais rápido no ano que vem.”