A inflação do setor de vestuário ficou em 18,02% no ano passado, bem acima da inflação oficial do país, medida pelo IPCA, que ficou em 5,79%. E quem quiser comprar uma blusinha nova ou renovar as roupas das crianças continuará encontrando preços em alta, mesmo com as vendas do setor patinando. A razão é o aumento dos custos, basicamente do algodão.
Os dados do IPCA para os itens do grupo de vestuário mostram um aumento disseminado e resistente dos preços. Isso ocorre porque o algodão, assim como outras commodities, teve alta de preços expressivas em 2022 e a cadeia de roupas e sapatos tendem a fazer repasses mais rápidos de preços.
Esse aumento de preços, no entanto, ocorre em um momento de vendas fracas. A pesquisa de comércio do IBGE mostra que as vendas do segmento de tecidos, vestuário e calçados têm alta de 1,3% no acumulado dos 12 meses encerrados em novembro. Na comparação de novembro de 2022 com o mesmo mês do ano anterior, há queda de 16,1%.
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“O setor está desacelerando, mas as empresas estão repassando o aumento dos custos. E esse repasse deve continuar porque as cotações do algodão voltaram a subir em janeiro. A safra está menor nos Estados Unidos e há uma maior demanda da China, o que dá sustentação a esses preços”, diz Eduardo Vilarim, economista do Banco Original.
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Outro fator que coíbe o aumento das vendas é a restrição do cenário macroeconômico. As famílias estão com a renda comprometida com dívidas e a prioridade, neste momento, é com itens mais essenciais, como alimentos e moradia.
A Genial Investimentos também aponta o cenário macroeconômico com um fator desfavorável às vendas.
“Esta avaliação é reforçada pela evidência obtida nos números de novembro que apontaram para vendas mais fracas durante a Black Friday, que refletem o pessimismo do consumidor diante das incertezas econômicas atuais e a perspectiva negativa para os próximos meses”, apontou a instituição em relatório.
Recomposição das margens
Para Lucas Lima, analista da VG Research, o crescimento das empresas do setor está baseado no aumento dos itens vendidos e não em volume, e isso deve se acentuar nos resultados do quarto trimestre de 2022, ainda não divulgados, e nos primeiros meses de 2023.
“Até 2021, as empresas estavam mais focadas em vender e menos preocupadas com o cenário de inflação. Isso mudou no final de 2022. As empresas estão menos focadas em faturar e mais preocupadas com inflação e recomposição de margens”, avalia.
Isso significa que, nas grandes redes, o consumidor irá encontrar menos promoções.
“As empresas listadas vão praticar preços mais saudáveis para manter ou aumentar as margens. Querem compensar um período de margens mais apertadas”, complementa.
Esse repasse de preços para recomposição das margens ocorrem de forma mais rápida nas varejistas de vestuários voltadas para as classes de maior poder aquisitivo, como o Grupo Soma (SOMA3), Arezzo (ARZZ3) e Track & Field (TFCO4), mas também está presente nas demais redes, como C&A (CEAB3), Guararapes (GUAR3, dona da Riachuelo) e Lojas Renner (LREN3).
“Os dados do terceiro trimestre já mostraram, por exemplo, a Renner crescendo menos. Tudo isso porque as empresas estão querendo recompor as margens. A Lojas Renner ainda não voltou para o patamar de 2019”, diz.
Em 2022, no acumulado até setembro, a margem bruta da Lojas Renner era de 55,1%. Em 2019 foi de 56,3%.
Dado esse cenário, a preferência da VG é justamente pelas redes que trabalham para o público de maior renda, que tendem a apresentar resultados mais sólidos em um cenário macroeconômico mais difícil.
“E é preciso lembrar que esse é um setor muito pulverizado. Quando olhamos para o comércio em geral, fora dessas empresas, o cenário é mais negativo. As grandes redes então conseguem se sobressair e ganhar market share. É também um cenário mais propício a aquisições”, diz Lima.