Que o ano de 2023 parece ser mais difícil que 2022 é líquido e certo, já que as taxas de juros e inflação permanecerão em níveis elevados, o que vai corroer o poder de compra da população. Diante disso, a agência de classificação de risco Fitch Ratings acredita que a situação deve limitar a demanda dos consumidores e afetar o setor varejista, pressionando a geração de caixa das empresas.
Em relatório, a agência destaca que as políticas macroeconômicas do novo governo, especialmente no que se refere à melhora sustentável da economia e à recuperação do poder de compra da população, devem ser monitoradas nos próximos meses.
Para 2023, a expectativa da Fitch é que o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro tenha uma desaceleração acentuada, com uma alta de apenas 0,7%, ante os 3,0% esperados para este ano.
Com isso, além da pressão econômica, o alto endividamento das famílias deve limitar ainda mais o desempenho do varejo, segundo a agência, já que a melhora dos níveis de emprego e a gradual recuperação da renda média apresentada nos últimos dois trimestres têm se mostrado insuficientes para fomentar o consumo.
“As varejistas brasileiras enfrentarão um ambiente de negócios adverso em 2023, caracterizado por baixo crescimento econômico, manutenção de elevadas taxas de juros e incertezas quanto à sustentabilidade de uma inflação baixa. A capacidade de ajustar investimentos e custos será chave para a preservação dos perfis de crédito das empresas”, diz Renato Donatti, diretor da Fitch.
Os mais afetados e os menos
Na visão da Fitch, embora todo o setor de varejo deva sofrer com o cenário econômico, os produtos discricionários, de maior tíquete e dependentes de crédito – eletroeletrônicos, bens de consumo duráveis e vestuário, por exemplo – serão os mais vulneráveis à severa restrição de renda.
A Fitch acredita também que os setores que prestam serviços de financiamento ao consumidor continuarão registrando piora nas taxas de inadimplência, o que reduziria a flexibilidade das empresas para aumentar a oferta de crédito e fomentar as vendas no próximo ano.
“O capital de giro, que tem prejudicado o fluxo de caixa dessas companhias, deve melhorar ligeiramente, à medida que ajustam seus estoques para um ambiente de consumo mais restrito”, explica a agência.
Enquanto isso, os setores alimentares, em especial o autosserviço e o farmacêutico, deverão continuar se beneficiando de suas características anticíclicas e de movimentos de consolidação.
“A despeito dos desafios de demanda do próximo ano, a maioria das varejistas classificadas publicamente pela Fitch deve conseguir passar 2023 sem deteriorar significativamente seus perfis de crédito, dado os gerenciáveis níveis de alavancagem e os adequados perfis de liquidez, com baixos riscos de refinanciamento”.
Rentabilidade
Em relação à rentabilidade das varejistas, que tanto preocupa a Fitch, as empresas devem continuar pressionadas em 2023, com a mediana da margem Ebitda (lucro antes de juros impostos, depreciação e amortização) para a carteira do varejo discricionário atingindo 13,7%, acima dos 12,2% esperados para este ano, mas ainda abaixo da média de 16,1% dos dois anos anteriores à pandemia.
Segundo a agência, a menor alavancagem operacional, considerando que o crescimento de receita advém basicamente de repasse de preços, em detrimento de volumes, e o efeito da inflação na maior base de custos e despesas fixas para suportar os canais digitais, são os principais fatores que explicam as menores margens.
“As varejistas expostas a riscos de inadimplência devem continuar registrando piora nos atrasos das carteiras de crédito ao longo do próximo ano, à medida que o ambiente de negócios se mantém fragilizado”, diz Donatti.