Os mercados financeiros passam por um período mais turbulento, em meio a inflação elevada no mundo, juros em trajetória de alta, guerra entre Rússia e Ucrânia e efeitos remanescentes da Covid sobre as economias. No Brasil, o ano eleitoral adiciona mais incerteza. Nesse ambiente, onde investir?
Para falar sobre as oportunidades de investimentos e como montar uma carteira defensiva para atravessar esse período de maior volatilidade, a TradeLive desta terça-feira (31) recebeu o sócio e CIO da gestora Occam, Carlos Eduardo Rocha, e o gestor da estratégia macro da Claritas Investimentos, Damont Carvalho.
Carlos Eduardo Rocha, mais conhecido pelo apelido Duda, é cofundador e CIO da Occam Brasil, gestora que tinha R$ 12,8 bilhões sob gestão em abril em fundos de ações, multimercado e previdência.
Já a Claritas Investimentos, parte do grupo Principal Financial Group, é uma das maiores gestoras internacionais, tem R$ 7,9 bilhões sob gestão no Brasil e oferece fundos locais e internacionais.
Formado em administração de empresas pela Universidade Mackenzie, com MBA em Finanças pelo Ibmec, Carvalho é desde 2012 head responsável pela gestão dos fundos macro da gestora, em que também é membro do Comitê de Investimento Sênior.
Confira abaixo os principais pontos abordados pelos gestores.
Inflação alta, baixo crescimento
Os gestores lembraram que os impactos da guerra na Ucrânia e a volta de medidas de restrição na China pelo repique da Covid-19 aumentaram a pressão sobre a inflação global, elevando a chance de desaceleração.
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O aperto monetário que já começa a ser promovido pelos bancos centrais ao redor do mundo, principalmente nos Estados Unidos, criam oportunidades para quem se expõem aos juros.
“Temos um desvio de percepção de que essa inflação vai ser mais alta e por mais tempo que o mercado espera”, diz Rocha, citando a expectativa de aumento das taxas também na Europa e em países emergentes.
Os gargalos de produção e logística gerados pelo cenário global devem fazer com que os governos busquem medidas de maior proteção econômica, afirma Carvalho, da Claritas, destacando que o movimento tende a pressionar ainda mais o quadro atual.
“Voltamos para um cenário de protecionismo alimentício. Isso encarece os produtos no mundo e aumenta o cenário inflacionário, e faz com que os juros fiquem mais altos.”
Esse momento desafiador para a economia mundial tende a afastar os gestores das bolsas americanas, que esse ano passam por um momento atípico de forte queda, com recuos percentuais acima dos dois dígitos.
“É uma correção que os brasileiros estão acostumados, eles [os estrangeiros] não”, observa Rocha, da Occam, citando as fortes variações negativas vistas na Nasdaq e no S&P 500.
Para Carvalho, a “sensação de recessão” deixa o mercado americano menos atrativo, apesar de ainda haver setores que estão mais blindados do cenário negativo. “Temos alguns players de bancos que ainda não começaram a sofrer tanto com a inadimplência.”
Bolsa brasileira está barata
Os dois gestores concordaram que a confluência dos cenários globais e domésticos tornam a bolsa brasileira barata, apesar de o momento de inflação pressionada e juros escalando os dois dígitos jogarem contra.
“O Brasil está muito barato, mas não tem momento de curto prazo para ficarmos otimistas com o país, a não ser pelo fato de ele estar barato”, afirma Carvalho, da Claritas.
As empresas com melhores oportunidades integram os grupos de commodities, energia e sistema financeiro.
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“Continuamos perseguindo posição em commodities e em empresas integradas que também se beneficiam”, diz Rocha, da Occam, citando Petrobras (PETR3, PETR4) e Petrorio (PRIO3).
Já o setor financeiro tende a ser beneficiado pelos juros altos, cenário que deve perdurar no Brasil ao menos por mais 12 meses. “Com essa queda do mercado, muitos bancos estão negociando abaixo do patrimônio”, diz.
Anda no setor de energia, o gestor da Occam comentou sobre as expectativas de ganhos com a Eletrobras (ELET6) após o processo de capitalização da empresa.
“Há muitos ajustes para fazer, mas com o tempo vai ser implementada uma gestão forte para encaminhar para as melhores práticas do mercado.”
No caminho contrário, ele cita a fuga de projetos voltados para áreas de tecnologia e que não possuem bases solidificadas.
Olhando no médio prazo, Carvalho apontou a aproximação de setores que estão sendo bastante penalizados com a recente alta da Selic, como a construção civil, como oportunidade quando a taxa básica entrar em processo de reversão.
“[São empresas] descontadas agora, e com juros abaixo de 9,5% pode ser um cenário que gente possa namorar, mas no curto prazo, não”, apontou o gestor da Claritas.
Juros altos por mais tempo
Os gestores reforçaram a percepção do mercado sobre as constantes surpresas negativas com a alta da inflação e como a disseminação da variação de preços torna o trabalho do Banco Central ainda mais desafiador.
Em maio, a autoridade monetária elevou os juros em 1 ponto, a 12,75% ao ano, e indicou nova alta, apesar de menor intensidade, para o encontro agendado para este mês. O mercado espera um aumento de 0,50 ponto.
O BC também não confirmou que vá parar o avanço, deixando em aberto a possibilidade de novo aumento na reunião de agosto. Pela estimativa dos analistas, a Selic pode encontrar o fim em 13,75% ao ano.
“A inflação está acelerando, e vai acelerar mais. O Banco Central vai ter que fazer mais movimentos [de alta], mas, principalmente, vai ter que manter os juros acima de 13% por mais 12 meses”, afirmou Rocha.
Para Carvalho, o atual cenário leva para o corte de juros a partir do segundo trimestre do ano que vem, mas o movimento também está sujeito ao perfil do plano fiscal do vencedor das eleições de outubro.
“Há um sacrifício na atividade muito grande, mas não há espaço para cortes, salvo a próxima equipe econômica vai ter na base fiscal”, disse.
Eleições reforçam volatilidade
Apesar de as atuais pesquisas já terem apontado pouca margem para a disputa eleitoral que não seja entre o atual presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o embate anda tende a trazer muita volatilidade para a economia.
Carvalho chama a atenção para a preocupação fiscal e para o fato de que o clima do eleitorado deve fazer com que os candidatos não se apeguem às ideias mais extremas.
“Apesar de o cenário ser mais desafiador, acreditamos que ambos os candidatos teriam que buscar o centro. Não tem necessidade inicial de sair queimando dinheiro no primeiro momento, a não ser que haja uma besteira muito grande no lado fiscal”, disse.
Para Rocha, independente de quem ganhar, o próximo ciclo de governo deve contar com uma âncora fiscal bastante definida já no primeiro ano para poder levar confiança ao mercado.