O novo salto acima do esperado da prestação de serviços em setembro deve levar ao aumento das expectativas para a economia doméstica no terceiro trimestre. Por outro lado, a perda de fôlego observada nos últimos meses reforça a tese de estrangulamento das atividades pelo efeito defasado da alta dos juros.
A receita do setor, que representa 70% do PIB (Produto Interno Bruto), atingiu o pico histórico ao registrar alta de 0,9% na passagem de agosto para setembro. Já na base anual, o crescimento foi na ordem de 9,7%, segundo dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta sexta-feira (11).
Os dados vieram acima da expectativa do mercado. O Itaú BBA previa alta de 0,4% na receita do setor em relação a agosto, e avanço de 8,3% em relação a setembro do ano passado.
O volume de serviços se soma ao aumento também além do esperado para o comércio em setembro, que subiu 1,1%, enquanto as estimativas previam 0,2%. Já a indústria veio em linha com o esperado, com queda de 0,7%.
Inflação em queda e emprego em alta
Para Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos, os dados do terceiro trimestre devem passar para um viés de alta. Atualmente, a entidade estima crescimento de 0,6% no período, ante avanço de 1,2% entre os meses de abril e junho.
O desempenho positivo foi puxado pelas três quedas seguidas da inflação medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) entre julho e setembro, aliado à melhora dos indicadores do mercado de trabalho no período.
Além dos fatores macroeconômicos, o setor segue sendo beneficiado pela abertura irrestrita das atividades após o arrefecimento dos níveis de contaminação de Covid-19 no Brasil.
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“Muito provavelmente vai haver algum tipo de mudança nas projeções no que se diz respeito até setembro”, afirma.
Na mesma linha, o Banco Original revisou a expectativa do PIB no terceiro trimestre para 0,8%, ante projeção de 0,5%. Segundo o banco, o setor de serviços encerrou o período com alta de 3,2%.
“O número, incluindo também o desempenho do varejo divulgado na quarta-feira, ressalta a resiliência do consumo no setor terciário da economia durante esse período”, informaram.
Na visão de Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos, o desempenho das atividades em setembro contradiz as previsões iniciais dos analistas de que a economia entraria no campo negativo a partir da virada do primeiro trimestre.
A casa espera alta de 0,5% no trimestre, o que deve levar o PIB fechado de 2022 para próximo de 3% em relação ao ano passado.
A especialista também cita o arrefecimento dos preços e o bom desempenho das contratações, sobretudo a recuperação do mercado de trabalho com carteira assinada, como principais motores para o avanço dos indicadores.
Desaceleração acende alerta
Apesar do otimismo com os dados acima do esperado, ao observar a recente trajetória das atividades, se percebe a perda de força do setor. Em julho, a prestação de serviços teve alta de 1,3% na base mensal, enquanto em agosto o desempenho desacelerou para 1,1%, segundo dados revisados.
Patrícia Krause, economista-chefe da Coface, destaca que o resultado descendente já era esperado após a forte alta registrada nos últimos meses. A perda de fôlego, que deve acompanhar o ritmo geral da economia doméstica, se dá principalmente pelo aumento dos juros pelo Banco Central para conter a inflação.
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Entre março de 2021 e agosto deste ano, a autoridade monetária injetou 11,75 p.p (pontos percentuais) na taxa, passando a Selic de 2% para o atual patamar de 13,75% ao ano.
Apesar de o Banco Central ter sinalizado o fim do ciclo com a manutenção do nível nas últimas duas reuniões, parte do mercado vê possibilidade de novas altas no futuro, principalmente diante de incertezas com a transição do novo governo.
Há o efeito defasado da taxa de juros sobre a economia, que consegue se ver com o aumento da inadimplência e maiores dificuldades”, afirma a economista.
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Com uma visão mais otimista, Abdelmalack defende que o setor de serviços deve manter a trajetória positiva nos próximos meses, impulsionado pelo calendário com a Copa do Mundo, que começa agora em novembro, e as confraternizações de fim de ano.
Na mesma linha, Pasianotto, da Reag, também vê chances de o setor manter o crescimento da renda das famílias com o aumento das contratações temporárias de fim de ano.