Depois de passar a maior parte do dia andando de lado, o Ibovespa engatou a terceira alta seguida nesta quinta-feira (19), com investidores digerindo o pedido de recuperação judicial da Americanas (AMER3) e com membros do governo tentando apagar o incêndio criado pelas críticas de Lula ao mercado na véspera.
Após o presidente questionar a independência do Banco Central (BC), o ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, disse nesta tarde que o Executivo não tem planos para mudar as relações com a autoridade monetária.
Mais uma vez, o desempenho positivo da Bolsa brasileira destoa das quedas dos mercados globais diante do temor dos investidores pela escalada dos juros americanos a pouco mais de 10 dias para a primeira reunião do Fed (o banco central dos Estados Unidos).
O Ibovespa encerrou em alta de 0,62%, aos 112.922 pontos e R$ 20,05 bilhões em volume negociado, segundo dados disponíveis na plataforma TradeMap.
O resultado faz o principal índice da B3 acumular alta de 2,73% na semana, enquanto desde o início do ano a valorização é de 2,90%.
Americanas pede recuperação judicial
Após uma semana de agonia, a Americanas finalmente jogou a toalha e oficializou o pedido de recuperação judicial na 4ª Vara Empresarial da Comarca da Capital do Estado do Rio de Janeiro.
Assim, a rede varejista, que fechou o dia em queda de 42,53%, a R$ 1, será excluída, a partir do fechamento do pregão desta sexta-feira (19), de todos os índices da Bolsa brasileira.
A Americanas alega R$ 43 bilhões em créditos listados que serão alvo de reorganização nos próximos anos, diferentemente do endividamento bruto reportado em setembro de 2022, quando estava na casa dos R$ 19 bilhões. Ao todo, são 16,3 mil credores.
Com um Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de pouco mais de R$ 3 bilhões nos 12 meses anteriores ao terceiro trimestre do ano passado, nesses moldes, a dívida é impagável.
Além dos efeitos na empresa, Elcio Cardozo, sócio da Matriz Capital, destaca o desdobramento que o colapso da rede varejista terá sobre todo o mercado de capitais brasileiro.
“Toda esta situação impacta bastante não apenas o mercado financeiro, mas a economia do país como um todo. Devem existir dezenas de milhares de fornecedores que ficarão sem receber, funcionários que podem ser demitidos e investidores que terão prejuízos”, pontua.
Commodities sustentam alta
A maior parte das altas do dia foi integrada por companhias expostas às commodities, que tiveram um novo dia de alta com a manutenção do otimismo pela reabertura das atividades na China após meses de uma rígida política de zero Covid.
O minério de minério de ferro negociado na bolsa de Dalian teve alta de 1,55%, cotado a US$ 125,69 por tonelada. Já os contratos futuros do barril de petróleo tipo Brent – usado como referência no mercado internacional – tiveram alta de 1,44%, a US$ 86,21.
O desempenho fez o papel da Vale (VALE3), que tem o maior peso do Ibovespa, subir 0,43%. Já a Prio (PRIO3) e 3R Petroleum (RRRP3) tiveram alta de 3,98% e 2,35%, nesta ordem. Os papéis preferenciais da Petrobras (PETR4) fecharam com valorização de 3,03%, enquanto os ordinários (PETR3) subiram 3,40%.
A alta do dia, porém, foi puxada pela Magazine Luiza (MGLU3), com alta de 7,02%, com a expectativa da migração dos investidores da Americanas. Logo atrás, Rede D’Or (RDOR3) avançou 6,19%.
Em relatório divulgado nesta quinta, o Bank of America prevê uma margem Ebtida de 14% para Rede D’Or e SulAmérica em 2023, um crescimento de 290 pontos bases em relação ao ano anterior.
Baixas do dia
Além das ações de Americanas, as principais quedas incluíam a Braskem (BRKM5), que caiu 2,79%, enquanto BTG Pactual (BPAC11) e BRF (BRFS3) perderam 2,74% e 2,65%, respectivamente.
A manutenção dos juros elevados e a inflação cedendo de forma lenta dão força para a espiral negativa que derrubam as ações da BRF desde o ano passado.
Atualmente, a empresa tem um valor de mercado na ordem de R$ 9 bilhões, cerca de R$ 24 bilhões a menos do que valia em meados de 2021.
A corrosão dos números é explicada em parte pelo alto nível de alavancagem da empresa, ou seja, a tomada de mais dinheiro do que se tem disponível para arcar com a operação do negócio.
Saiba mais:
Em paralelo aos juros, a empresa viu a sua rentabilidade diminuir nos últimos anos com a disparada da inflação, sobretudo dos alimentos. Com preços mais elevados, os consumidores passam a comprar menos, derrubando as margens de lucro da empresa.
“Também tivemos eventos climáticos que levaram a quebra de safra, e isso trouxe mais pressão de custos para a BRF. E a perda de rentabilidade nos últimos meses afetou muito os resultados, e, obviamente, o mercado acabou batendo nisso”, explica Paulo Luives, especialista da Valor Investimentos.
Bolsas globais e criptos
Esta quinta foi mais um dia de perda para as maiores Bolsas do mundo, com investidores repercutindo dados da inflação americana, Davos e a divulgação do livro Bege nos EUA.
Em Wall Street, o Dow Jones perdeu 0,76%, enquanto o S&P 500 caiu 0,76% e a Nasdaq desvalorizou 0,96%. No Velho Continente, o Euro Stoxx 50 desabou 1,83%.
Mais cedo, foram divulgados os dados de pedidos de seguro-desemprego dos EUA, que somaram 190 mil e vieram abaixo das expectativas de 215 mil pedidos. O dado pode sinalizar que o mercado de trabalho está resiliente em meio à desaceleração da economia.
Já o documento do Fed alertou que a inflação alta continuou a reduzir o poder de compra dos consumidores, ao mesmo tempo em que o mercado de trabalho se manteve apertado, com dificuldades na contratação de mão de obra.
Seguindo os tombos das Bolsas globais, os criptoativos seguem em ritmo de perda, também rcom umores de uma eminente falência da Genesis, uma das gigantes do mercado, cada vez mais fortes.
Por volta das 16h25, o Bitcoin (BTC) perdia 1% em comparação a cotação das últimas 24 horas, a US$ 20.965, de acordo com dados da plataforma TradeMap. Na mesma hora, o Ethereum (ETH) caia 4,22%, a R$ 1.549.