Em linha com o mercado americano, o Ibovespa encerrou o pregão em leve baixa, repercutindo as dúvidas vindas do Congresso sobre a Lei das Estatais e a aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) na Câmara dos Deputados, vistas com ressalvas pelo mercado diante do aumento do risco fiscal a partir do próximo ano.
Mais cedo, o principal índice da B3 havia consolidado alta próxima de 0,50%, apoiado pelas ações da Marfrig (MRFG3) e pela recuperação das estatais, mas perdeu fôlego no decorrer da tarde.
Com isso, a Bolsa brasileira encerrou o pregão em leve queda de 0,01%, aos 103.738 pontos, com volume negociado de R$ 22,15 bilhões.
Este resultado faz o Ibovespa acumular queda de 7,78% em dezembro, enquanto a desvalorização em 2022 regrediu para 1%.
Atenções voltadas à Brasília
O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) corre contra o tempo para aprovar no Congresso os textos que dão bases para as diretrizes econômicas a partir de 2023.
No Senado, os petistas trabalham para mudar a Lei das Estatais, que facilita a nomeação de políticos no comando de empresas públicas. A matéria foi aprovada de forma relâmpago pelos deputados na noite de terça-feira (13), gerando forte estresse no mercado.
O texto passou horas depois de Lula anunciar Aloizio Mercadante na presidência do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), contrariando a vontade dos investidores de um nome técnico.
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A expectativa de o texto encontrar mais resistência no Senado repercutiu de forma positiva na Bolsa, revertendo as quedas de estatais vistas na véspera.
A PEC da Transição, que já foi aprovada pelos senadores, está travada na Câmara em meio ao julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal) sobre as emendas do relator, popularmente conhecida como orçamento secreto. O texto, que tira R$ 160 bilhões do teto de gastos, é fundamental para o governo petista honrar com suas promessas de campanha, como o aumento do Bolsa Família e outros benefícios sociais.
Altas do dia
A Marfrig (MRFG3) foi um dos destaques do pregão, com alta de 6,70%, após anunciar a distribuição R$ 600 milhões em dividendos para seus acionistas. A empresa informou que o montante é baseado nos lucros do terceiro trimestre deste ano.
O valor por ação, que considera uma alíquota de 15% de imposto, será de R$ 0,7. Sem contar o imposto, o valor bruto corresponde a R$ 0,9. O provento será pago no dia 28 de dezembro deste ano para os acionistas com posição nos papéis da Marfrig no dia 19 deste mês.
A ponta positiva também foi composta pela Cielo (CIEL3), que avançou 3,49%, MRV (MRVE3) com valorização de 2,90% e IRB Brasil (IRBR3), com alta de 2,86%.
A resistência dos senadores com mudança nas Leis das Estatais também deu fôlego para ações de empresas públicas. O Banco do Brasil (BBSA3) figurou entre as maiores altas com avanço de 2,83%.
Os papéis da Petrobras, por sua vez, que chegaram a cair quase 10% na véspera, também avançaram. As ações preferenciais (PETR4) subiram 2,66%, enquanto as ordinárias (PETR3) fecharam o dia com valorização de 2,55%.
Braskem é destaque negativo
A Braskem (BRKM5) foi destaque na ponta de baixo, com perda de 4,80%. A empresa sofreu um “rebaixamento” pelos analistas do UBS BB, que deixaram de recomendar a compra do papel e agora têm uma visão neutra para a companhia, segundo relatório distribuído a clientes.
A piora na recomendação foi acompanhada de uma redução na estimativa de preço-alvo, que caiu quase pela metade. Antes, a expectativa do banco era que a ação da Braskem chegasse ao patamar de R$ 50. A nova estimativa aponta para um preço-alvo de R$ 30, uma valorização potencial de 19% em relação ao fechamento de quarta-feira (14), que foi de R$ 25,20.
Na visão dos analistas Luiz Carvalho, Tasso Vasconcellos e Matheus Enfeldt, o rebaixamento na recomendação e a redução do preço-alvo se devem à piora do cenário para o spread, como é chamada no setor a diferença entre o preço dos produtos que a empresa vende e os custos da matéria-prima para produzir — quanto maior, melhor.
Entre as maiores quedas, ainda constam Gol (GOLL4), que caiu 6,49%, CVC (CVCB3), que perdeu 4,58% e Usiminas (USIM5), com queda de 4,20%.
Bolsas globais
Os índices na Europa e nos Estados Unidos tiveram um dia de fortes perdas, repercutindo a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de elevar a taxa de juros em 0,5 p.p (ponto percentual) na véspera.
O Dow Jones fechou a sessão em queda de 2,25%, enquanto o S&P 500 caiu 2,49% e a Nasdaq encerrou em baixa de 3,23%. Na Europa, o Euro Stoxx 50 derreteu 3,49%.
Apesar do aumento dos juros americanos em linha com o esperado, a surpresa negativa da mediana das projeções da taxa de juros terminal, que veio em 5,1%, estremeceu os mercados. “Isso sugere que os juros podem não só serem sustentados em patamares elevados por mais tempo, mas também devem alcançar nível mais alto”, avalia a XP, em relatório.
Mais cedo, foi a vez do BCE, o Banco Central Europeu, divulgar sua nova taxa de juros. O banco central aumentou a taxa de juros da zona do euro em 0,50 p.p, para 2,50% ao ano. A decisão veio em linha com a maior parte das expectativas do mercado.
A instituição, porém, disse que precisará continuar elevando os juros para conter a alta de preços. Além disso, anunciou que vai começar a drenar parte do dinheiro injetado no sistema financeiro.
“O conselho julga que os juros precisarão subir significativamente em um ritmo estável que seja suficientemente restritivo para garantir o retorno da inflação a 2%”, disse o comunicado do BCE.
Criptos
Seguindo as Bolsas internacionais, o mercado de criptoativos retraiu nesta quinta-feira, apesar de segurar parte das cotações alcançadas nas últimas semanas.
Por volta das 17h30, o Bitcoin (BTC) perdia 1,5% em comparação às últimas 24 horas, negociado a US$ 17.465, segundo dados disponíveis na plataforma TradeMap. Na véspera, a maior cripto do mercado chegou a encostar em US$ 18 mil. Já o Ethereum (ETH) registrava queda de 0,6%, a US$ 1.276.
Para Ed Moya, analista sênior de mercados da Oanda, a queda é um movimento natural do temor das Bolsas globais e não deve gerar tensão entre os investidores.
“A fraqueza do Bitcoin é um tanto limitada e não chamará muita atenção, a menos que o preço caia abaixo do nível de US$ 16.800”, informou.