Ibovespa derrete 2,58% com incertezas fiscais e à espera da PEC; Hapvida (HAPV3) lidera as perdas

Incertezas em torno da política econômica do próximo governo colocam investidores em modo de cautela

Gabriel Bosa

Gabriel Bosa

Foto: Shutterstock/Champ008

Com o mercado esperando a divulgação de mais detalhes sobre a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Transição e de olho em pistas sobre a política econômica do novo governo, o Ibovespa passou o pregão desta quarta-feira (16) no vermelho, fechando em baixa de 2,58%, aos 110.243 pontos.

Com o recuo de hoje, dia com R$ 13,39 bilhões em volume negociado, a perda acumulada pelo índice no mês de novembro aumentou para 4,99%, enquanto a valorização registrada desde o início do ano agora soma 5,17%.

PEC e Ministério em foco

Neste momento, além da expectativa em torno de quem assumirá o cargo de ministro da Fazenda, um dos pontos que preocupa os investidores é a PEC da Transição, alternativa defendida pelo PT para acomodar os gastos com promessas realizadas ao longo da campanha. O principal ponto de atenção parece ser a possibilidade de o Bolsa Família ser excluído do teto de gastos do novo governo.

“O motivo desta queda é a preocupação, por parte dos investidores, quanto ao cenário local”, explica Fabrício Gonçalvez, CEO da gestora Box Asset Management. “A possibilidade de um aumento de gastos mais forte do que o esperado em 2023 e uma possível retirada dos programas sociais das regras fiscais reacendeu uma grande cautela no mercado, e isso está sendo demonstrado nas cotações das ações no dia de hoje”, completa.

Em reunião com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD), teria sinalizado que a casa concorda com a retirada do Bolsa Família do teto de gastos por um período de quatro anos.

A expectativa é que a proposta abra entre R$ 130 bilhões (segundo a Bloomberg) e R$ 175 bilhões (de acordo com a Broadcast) em despesas fora do teto. A grande dúvida do mercado é se o programa social poderá ser de fato excluído por um longo tempo da âncora fiscal, o que reforçaria o temido cenário de descontrole fiscal.

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Para agravar as incertezas, no início desta tarde, o vice-presidente eleito e coordenador da transição, Geraldo Alckmin (PSB), afirmou que a “ancoragem fiscal será debatida mais tarde, com calma, não neste momento”. Momentos depois, Paulo Rocha, líder do PT no Senado, reafirmou que a PEC será apresentada hoje, mas sem definir valores e prazo.

Os investidores também estão de olho em possíveis nomes para ocupar o ministério da Fazenda. Segundo Natuza Nery, da Globonews, o nome do ex-prefeito Fernando Haddad (pior cenário na visão do mercado) voltou a ganhar força após reunião entre o petista e Lula. Já uma apuração da Folha aponta que a possibilidade do vice-presidente eleito Geraldo Alckmin assumir a pasta voltou a ser ventilada.

Banho de sangue

Diante das incertezas, quase todas as ações do Ibovespa fecharam no vermelho, com os papéis ligados ao consumo entre os mais prejudicados, como Americanas (AMER3) e Magazine Luiza (MGLU3), com recuos de 9,81% e 8,01%, respectivamente.

Na análise de Gonçalves, da Box Asset Management, estes papéis são pressionados pela abertura da curva de juros, também reflexo da cautela diante da incerteza econômica.

A maior queda do dia, porém, foi de Hapvida (HAPV3), que despencou 10,94%. A operadora de saúde anunciou na segunda-feira (14) que seu conselho de administração aprovou a emissão de até R$ 1,2 bilhão em debêntures. Em comunicado, a companhia disse que a ideia é utilizar o valor para o pagamento de custos e despesas relacionadas ao desenvolvimento de empreendimentos.

A Localiza (RENT3) também apareceu entre as maiores baixas, recuando 7,34%, depois de registrar queda no lucro no terceiro trimestre, impactado por um forte crescimento nas despesas com operações financeiras e de gastos relacionados à integração com a Unidas.

No terceiro trimestre do ano, a Localiza viu sua receita aumentar 40% em relação ao mesmo período do ano passado, para R$ 6,1 bilhões. Mesmo assim, o lucro da companhia caiu 27,6%, para R$ 682,1 milhões.

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As poucas altas

Neste dia de baixa generalizada, apenas oito ações se salvaram: Embraer (EMBR3), Bradespar (BRAP4), CSN Mineração (CMIN3), Suzano (SUZB3), CCR (CCRO3), Usiminas (USIM5), Bradesco (BBDC4) e Assaí (ASAI3).

A Embraer saltou 9,94%, após o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico) aprovar, na segunda-feira, um financiamento à empresa para produção e exportação de aeronaves comerciais. A operação deve girar em torno de R$ 2,2 bilhões.

De acordo com o banco de fomento, a operação contribui para que a Embraer consiga retomar a produção de aeronaves nos patamares anteriores à pandemia de Covid-19.

Além disso, o Goldman Sachs pontuou em relatório publicado nesta quarta-feira que, embora a empresa tenha apresentado um prejuízo líquido de R$ 93,8 milhões no terceiro trimestre, o mercado regional de jatos está dando sinais de recuperação, o que deve sustentar os resultados da Embraer nos próximos trimestres.

A Suzano, por sua vez, foi impulsionada pela valorização do dólar, segundo analistas da Ativa Research. A moeda americana fechou o pregão a R$ 5,3817, em alta de 1,55%.

Queda moderada no exterior

No exterior, as Bolsas fecharam em quedas mais leves, divididas entre dados econômicos positivos e temores de juros mais altos por mais tempo. Em Nova York, o S&P 500 teve baixa de 0,83%, o Dow Jones caiu 0,12% e o Nasdaq recuou 1,54%. Na Europa, o índice Euro Stoxx 50 fechou com perdas de 0,83%.

Ontem, a informação de que o índice de preços ao produtor mostrou uma alta menor do que a projetada em outubro animou os mercados, reforçando um cenário em que a inflação americana já atingiu o pico e reduzindo as expectativas de juros maiores lá na frente.

Por outro lado, Esther George, presidente do Federal Reserve (banco central dos EUA) de Kansas City, afirmou nesta quarta que pode não ser factível baixar a inflação dos EUA sem recessão, enquanto as vendas no varejo de outubro vieram acima do esperado, reforçando a ideia de que há espaço para que o Fed siga em sua trajetória de alta de juros.

Ainda no cenário internacional, os países ao redor do globo estão de olho na crise no leste europeu, após bombardeios ao território polonês. Mesmo que a hipótese mais provável seja de que o ataque, acidental, tenha vindo da Ucrânia, o evento aumenta a tensão na região.

Criptomoedas

O mercado de criptoativos voltou a cair nesta quarta-feira após ensaiar uma breve recuperação na véspera, com os investidores surfando a onda positiva de novos dados da inflação americana abaixo do esperado.

O bom humor foi engolido por novos desdobramentos da crise no setor deflagrada pela queda da FTX, na semana passada. A nova vítima foi a Genesis Trading, que anunciou hoje o bloqueio dos saques dos investidores da sua área de empréstimos.

Por volta das 16h55, a principal cripto do mercado tinha queda de 1,6%, negociada a US$ 16.624, segundo dados disponíveis na plataforma TradeMap. O Ethereum (ETH) sofria mais, com retração de 3%, a US$ 1.213.

A Genesis disse que vinha tendo problemas de liquidez desde o final de junho, quando o fundo de investimentos Three Arrow Capital deixou de pagar uma dívida de bilhões de reais, mas que desde então vinha adotando medidas para corrigir esta falha.

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Craig Erlam, analista sênior de mercado da Oanda, ressalta que, apesar da recente calmaria após o BTC despencar ao atual patamar, ainda é precipitado estimar que o pior momento passou.

“As manchetes continuam sendo preocupantes e o gráfico de preços não inspira confiança. No curto prazo, é difícil construir um caso otimista para as criptos, dada a grande incerteza no espaço após o desastre do FTX”, afirmou. “Isso não significa que não podemos ver uma recuperação, mas certamente seria o resultado mais surpreendente nesta fase”.

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