(Esta matéria foi atualizada no dia 24 de janeiro de 2023 para incluir respostas da Nu Asset Management, da Brasilprev e da SulAmérica Investimentos.)
Os fundos de investimentos com exposição a ações e títulos de dívida (debêntures) da Americanas (AMER3) tiveram um resgate líquido de R$ 7,5 bilhões entre 12 e 18 de janeiro, logo após a empresa ter informado inconsistências contábeis de R$ 20 bilhões, segundo levantamento do TradeMap.
A maior parte desses fundos, que totalizam 356 carteiras, é da categoria renda fixa e tiveram perdas com investimentos em debêntures da Americanas.
O fundo que teve o maior resgate líquido no período foi o Special RF Ref DI, gerido pela Itaú Asset, que teve saída líquida de R$ 5,4 bilhões. O montante representa apenas 5,11% do patrimônio do portfólio, que soma R$ 105,6 bilhões.
O fundo, que é um master e recebe aplicação de outras carteiras, conta com 48 cotistas e perdeu apenas um investidor no período.
A carteira do Itaú registrou perda de 0,71% no período, com o desempenho impactado por investimentos em debêntures da Americanas, que eram classificadas com baixo risco de crédito pelas agências de risco. O portfólio, por regulamento, pode investir até 50% em títulos de crédito privado.
Na semana passada, o Itaú Unibanco informou que realizou a provisão para devedores duvidosos (PDD) para o investimento em ativos da Americanas nos fundos Special Renda Fixa Referenciado DI e Itaú Wealth Master Renda Fixa Referenciado DI.
A maior parte da perda das debêntures da Americanas já foi precificada pelo mercado. Hoje a Anbima (Associação: Associação Brasileira de Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) marca um desconto de 88% para o valor desses títulos.
Já o fundo Nu Reserva Imediata Master FI RF, gerido pela Nu Asset, registrou o segundo maior volume de saques, com saída líquida de R$ 391,2 milhões no período, representando 18,6% do patrimônio do portfólio, que soma R$ 2,1 bilhões. O fundo aberto aos cotistas que investe nesse fundo master do Nubank teve perda de 153.478 cotistas no período.
Os saques se intensificaram a partir do dia 16 de janeiro. O fundo acumula retorno negativo de 1,02% no período, impactado pelo investimento em debêntures da Americanas.
Usado pelos investidores para montar reserva financeira de emergência, o fundo tinha 0,95% do patrimônio investido em debêntures da Americanas ao final de setembro, segundo levantamento do TradeMap.
Pelo regulamento do fundo, a carteira pode investir até 50% do portfólio em títulos emitidos por bancos e empresas.
Veja abaixo os fundos com exposição a ativos da Americanas que lideraram os resgates.
Banestes zera posição em debêntures da Americanas
O Banestes divulgou na sexta-feira (20) que zerou a posição, direta ou indiretamente, em ativos da Americanas em sete fundos de investimento, incluindo o fundo de renda fixa Banestes Liquidez FI RF Ref citado acima.
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A carteira registrou saque de R$ 135,9 milhões entre 12 e 18 de janeiro, o que representa 4,12% do patrimônio do fundo, que conta com 279 cotistas. No período, a carteira perdeu oito investidores.
Onze fundos do Banestes tinham uma exposição somada de 10,51% em debêntures da Americanas, incluindo fundos DI, segundo informou o banco na semana passada.
Fundo da Moat lidera saques entre carteiras de ações
O fundo Moat Santander Prev Master FIA, que é um portfólio reservado com apenas um cotista gerido pela Moat Capital, liderou os saques entre as carteiras de ações, registrando saída líquida de R$ 7,6 milhões no período.
O fundo Moat Capital FIA, carteira aberta de ações que tinha maior exposição aos papéis da Americanas, registrou saque líquido de R$ 1,5 milhão no período e perdeu apenas oito cotistas.
O fundo tinha 13,5% do patrimônio em papéis da Americanas em setembro. A gestora informou, por meio de nota, que o fundo reduziu a participação em papéis da Americanas para 8% do patrimônio no dia 11 de janeiro.
A carteira registrou perda de 7,66% entre 12 e 18 de janeiro.
Ao todo, a gestora Moat Capital registrou resgate líquido de R$ 14,6 milhões em cinco fundos com exposição a ativos da Americanas.
A gestora informou, na semana passada, que encerrou as posições de todos os seus fundos em ações ordinárias da Americanas.
“Ressaltamos, mais uma vez, que faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para garantir e resguardar nossos direitos pelas perdas enquanto éramos acionistas minoritários”, disse a Moat em nota.
Ponta do iceberg?
Para o gestor da Trópico Investimentos, Fernando Camargo Luiz, o aumento em saques de fundos de renda fixa com liquidez diária preocupa porque pode trazer impacto maior à indústria de crédito privado, uma vez que os gestores podem precisar vender os papéis em carteira para pagar os resgates, pressionando para baixo o valor desses títulos no mercado secundário.
“Isso é só a ponta da montanha, a situação nem começou a piorar ainda”, afirma Luiz.
O gestor lembra que, no caso do investimento em títulos de dívida da Americanas, a perda é maior e obrigou os gestores a baixarem o crédito para PDD (provisão para devedores duvidosos), uma vez que esses papéis devem entrar no plano de recuperação judicial da companhia.
A BB Gestão de recursos, que fez a provisão para PDD nas carteira com aplicação em papéis da Americanas na semana passada, destaca que os cotistas que solicitarem resgate dos fundos enquanto perdurar a provisão “não farão jus à possibilidade de recuperar a perda, no caso de sua eventual reversão”, destacou a gestora em fato relevante à CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
Para um gestor de uma grande instituição financeira, a maior parte das perdas nos fundos já foi precificada pelo mercado. “Devemos ter impacto nos desempenhos dos fundos neste mês, mas depois as carteiras vão recuperar a performance”, disse.
Segundo esse gestor, os número de pedidos de resgate deu uma arrefecida, mas o volume de saques não afetou, até o momento, o funcionamento da indústria de crédito. “Os spreads dos papéis subiram um pouco, mas não estamos vendo crise de crédito no Brasil”, diz.
A Americanas teve o pedido de recuperação judicial aprovado em 19 de janeiro. A empresa agora tem 60 dias para apresentar um plano de recuperação judicial.
Posicionamento das gestoras
Questionada, a Nu Asset Management afirmou na terça-feira (24) que o fundo Nu Reserva Imediata se encontra em posição de solidez financeira, com “percentual relevante em ativos de alta liquidez” para absorver impactos como o do evento da Americanas. O fundo do Nubank voltou a apresentar retorno positivo em 23 de janeiro, quando rendeu 0,05%, mas ainda perde 0,65% no mês.
A Brasilprev firmou, em nota, que o fundo Brasilprev Top Tp FI RF CP é um veículo que recebe recursos de fundos de cotas da Brasilprev e não está aberto aos clientes. Segundo a gestora, a saída de recursos não significa necessariamente a realização de resgate dos recursos da Brasilprev e pode estar relacionada à realocação dentro de outras estratégias da gestora.
A SulAmérica Investimentos, por sua vez, afirmou que o SulAmérica Prestige Strategie FI RF CP é um fundo master, que recebe alocação de outros fundos da seguradora. O produto que recebe recursos dos participantes finais, o SulAmérica Prestige Strategie FIC Renda Fixa Crédito Privado, teve resgate de R$ 9 milhões entre 12 e 18 de janeiro, o que representa, segundo a instituição, um percentual muito baixo em relação ao patrimônio, que está em R$ 1,3 bilhão.
O fundo tinha 0,20% do patrimônio em debêntures da Americanas no dia 11 de janeiro, uma exposição abaixo da média de mercado, segundo a SulAmérica.