Depois de passar o dia em torno da estabilidade, o Ibovespa encerrou o pregão desta segunda-feira (28) em baixa de 0,18%, aos 108.782 pontos, com investidores aguardando novidades sobre a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) de Transição e a composição do Ministério da Economia do novo governo.
Com a baixa de hoje, a queda acumulada pelo índice no mês de novembro aumentou para 6,25%, enquanto o saldo do Ibovespa em 2022 agora é de alta de 3,78%. O volume negociado no pregão foi de R$ 15,29 bilhões, limitado pelo jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo.
De olho em Brasília
Como já virou costume, os investidores brasileiros estão de olho no desenrolar das negociações da PEC e às possíveis indicações para o Ministério da Economia.
Nesta segunda-feira, o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) viajou à Brasília para se juntar às negociações, levando consigo o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT), que muitos especulam que possa ser o próximo ministro da Economia. A expectativa é que o texto seja apresentado até esta terça-feira (29) para haver tempo hábil de debates e ritos de aprovação.
Na análise de Pedro Paulo Silveira, diretor de gestão de investimentos da Nova Futura Asset, a ida de Lula para a capital tende a acelerar o encaminhamento da PEC e, possivelmente, de alguns ministérios importantes.
Saldo da Black Friday
Entre as maiores quedas do pregão, Rodrigo Cohen, analista de investimentos e co-fundador da Escola de Investimentos, destaca as varejistas, pressionadas por dados que mostram queda no faturamento do e-commerce na Black Friday deste ano.
De acordo com dados da Neotrust, as vendas no varejo durante a Black Friday foram 28% menores do que as registradas em 2021, com recuo tanto nas plataformas de e-commerce quanto nas lojas físicas.
Na avaliação de analistas do BTG Pactual, estes números, em conjunto com os dados de vendas no varejo em novembro, reforçam o cenário desafiador para o setor. “Com um cenário macroeconômico desfavorável (inflação e taxas de juros mais altas) e pressões micro sobre os fundamentos da maioria das companhias, vemos o setor em uma posição difícil no curto prazo”, afirmam os analistas.
Entre as maiores quedas, destaque para Americanas (AMER3), Via (VIIA3) e Lojas Renner (LREN3), com recuos de 9,68%, 6,7% e 4,42%, respectivamente.
O setor também é impactado pela perspectiva de juros mais altos por mais tempo, sinalizada na manhã desta segunda pelo Boletim Focus.
Agora, o mercado espera que o indicador da inflação encerre este ano com alta de 5,91%, ante 5,88% na semana passada. É a quinta semana seguida de mudança para cima após 17 publicações consecutivas de queda. Para 2023, a projeção teve leve alta de 5,01% para 5,02%.
Já as projeções da Selic se mantiveram iguais nesta publicação, mas os analistas passaram a prever uma taxa de juros em 8,25% em 2024, um avanço de 0,25 ponto-percentual (p.p.), na comparação com a projeção anterior.
China pressiona commodities
Também entre as maiores quedas, as mineradoras e siderúrgicas foram pressionadas pelo cenário de instabilidade na China, que vem sendo palco de protestos contra a política de tolerância zero à Covid-19. A Usiminas (USIM5), por exemplo, teve queda de 4,34%, enquanto a CSN (CSNA3) recuou 4,2%.
Para Nicolas Borsoi, economista-chefe da Nova Futura Investimentos, “a piora na situação da Covid na China, com protestos em várias cidades ontem, leva a aversão ao risco nos mercados, com bolsas e commodities caindo”.
Entre as ações de commodities, Cohen chama atenção para Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3), que fecharam em alta de 2,1% e 0,49%, limitando a queda do Ibovespa.
A maior alta do dia, no entanto, foi da Rumo (RAIL3), que subiu 3,65% em meio a uma série de análises otimistas sobre seu desempenho.
O Bank of America elevou a recomendação das ações da Rumo de neutra para compra, e aumentou o preço-alvo do papel de R$ 23 para R$ 24. A mudança, segundo os analistas, está relacionada à revisão dos resultados previstos para a companhia. O banco ficou mais otimista em relação à receita da companhia depois dos fortes resultados no terceiro trimestre.
Já os analistas da XP Investimentos, após visita às instalações da Rumo e ao ambiente em que a empresa opera no estado do Mato Grosso, reiteraram sua visão positiva sobre a companhia, destacando os ganhos de eficiência recentes e a perspectiva de forte crescimento de receita em 2023.
Baixas no exterior
O dia foi negativo no exterior, onde os mercados repercutiram os protestos na China. Em Nova York, o S&P 500 teve baixa de 1,54%, o Dow Jones caiu 1,45% e o Nasdaq recuou 1,58%. Na Europa, o índice Euro Stoxx 50 somou perdas de X%.
Nos Estados Unidos, no primeiro pregão completo depois da volta do feriado de Ação de Graças, a semana será marcada por novos pronunciamentos de membros do Federal Reserve (Fed, o banco central americano).
Além disso, os investidores acompanharão a divulgação da taxa de desemprego e da criação de vagas em novembro, indicador visto de perto pelo Fed para balizar a taxa de juros.
Na Europa, os mercados aguardam o pronunciamento da presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, na sexta-feira (2).
Criptomoedas
O mercado de criptos começou a semana pressionado no campo negativo, principalmente após a BlockFi, uma das maiores corretoras de empréstimo de ativos digitais, informar, no início da tarde desta segunda, o pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos.
Por volta das 17h, o Bitcoin (BTC) recuava 1,9% em comparação as últimas 24 horas, negociado a US$ 16.234, conforme dados disponíveis na plataforma TradeMap. Na mesma hora, o Etehreum (ETH) perdia 3,2%, a US$ 1.150.
A BlockFi informou que possui cerca de 100 mil credores, com passivos entre US$ 1 bilhão a US$ 10 bilhões. A corretora também registrou que possui cerca de US$ 257 milhões em caixa, “o que deve fornecer liquidez suficiente para suportar certas operações durante o processo de reestruturação”.
A empresa é a nova vítima da FTX, que também passa por um processo de recuperação após bloquear o acesso dos investidores. A companhia deflagrou uma crise de desconfiança no mercado que jogou as principais criptos ao patamar mais baixo desde novembro de 2020.
Pouco mais de 20 dias após o crash, investidores seguem apreensivos com a saúde financeira das corretoras em meio à volatilidade dos ativos.
A semana ainda promete ser de grande emoção para o mercado. A China está no foco das atenções por causa dos crescentes protestos contra a política de zero Covid, que devem trazer mais volatilidade nos indicadores nos próximos dias.
Investidores também aguardam pela fala do presidente do Fed (o banco central americano), Jerome Powell, nesta quarta-feira (30), que pode trazer novas pistas sobre o rumo sobre a alta dos juros por lá.
Além disso, os EUA vão divulgar os dados revisados do PIB (Produto Interno Bruto) do terceiro trimestre. Ainda na pauta americana, destaque para os dados do PCE (Índice de Preços para Despesas com Consumo Pessoal) de outubro, que saem na quinta-feira (1), já que é o principal indicador de inflação observado pelo Fed na tomada das decisões.