O Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne nesta terça e quarta-feira (20 e 21) para decidir os novos rumos da política monetária no Brasil e a expectativa do mercado é que ele sinalize a interrupção do ciclo de alta de juros, iniciado em março de 2021.
Desde então, a taxa Selic já subiu 11,75 pontos percentuais, no maior choque de juros desde 1999, quando, em meio à crise cambial, o Banco Central elevou a taxa básica em 20 pontos percentuais em uma única reunião.
Na última reunião, em 3 de agosto, o Copom afirmou em comunicado que iria avaliar a “necessidade de ajuste residual da taxa de juros, de menor magnitude, em sua próxima reunião”.
A maioria dos analistas acha que o grupo vai manter a Selic em 13,75% ao ano. Além da inflação já estar dando sinais de desaceleração, o mercado incluiu nesta conta a queda do preço das commodities, os cortes de impostos e o relevante aperto monetário promovido pelo BC, que foi um dos primeiros a começar a subir os juros após a pandemia.
A expectativa é de que o BC sinalize a interrupção do ciclo de aperto monetário para observar os efeitos da alta de juros, que demoram um tempo para aparecer na economia e, consequentemente, nas expectativas de inflação.
O último Boletim Focus, divulgado em 19 de setembro, mostrou que o mercado espera alta de 5,01% no IPCA em 2023 e de 3,50% em 2024. As duas leituras, no entanto, estão acima das metas de inflação para estes períodos, de 3,25% e 3,00%, respectivamente.
Na última reunião do Copom, realizada em 3 de agosto, as projeções de inflação no cenário do BC para 2023 e 2024 estavam em 4,6% e 2,7% respectivamente.
De lá para cá o dólar caiu para R$ 5,1705, abaixo dos R$ 5,30 considerado no cenário de referência do BC em agosto, enquanto o preço do petróleo tipo Brent passou do patamar ao redor de US$ 100 o barril para US$ 90,69.
A queda do petróleo e o corte de impostos ajudaram na redução dos preços dos combustíveis no mercado interno, o que trouxe alívio para a inflação, que apresentou queda em agosto pelo segundo mês consecutivo.
Contudo, os analistas veem esse alívio como temporário, já que não está claro se o corte de impostos sobre os preços de energia e combustíveis, estabelecidos até o fim deste ano, deve prevalecer no ano que vem, o que acabou levando a uma discreta deterioração nas projeções de IPCA para 2024.
“Entendemos que o BC continuará avaliando que o prolongamento dessas medidas eleva os prêmios de risco, deteriora as expectativas de inflação e piora a trajetória fiscal, acentuando os riscos para o cenário inflacionário”, destaca a Kinitro Capital em relatório.
Além disso, dados de atividade mais fortes que o esperado e discursos mais duros nos principais bancos centrais lá fora devem reforçar a cautela por parte do BC.
“O BC deve seguir com os atuais níveis de juros [13,75%], mas reforçando suas preocupações externas e domésticas a fim de manter clara a comunicação de que os juros não deverão ceder antes do primeiro semestre do próximo ano”, diz o BTG em relatório.
Diante desse cenário, o C6 espera que o BC mantenha a taxa Selic em 13,75%, mas vê a possibilidade de um último ajuste de 0,25 ponto da taxa básica.
Já o JP Morgan espera que o BC eleve a Selic em 0,25 ponto na quarta-feira, entendendo que o BC prefere pecar pelo excesso – ou seja, apertar demais os juros – a colocar em risco a credibilidade da política neste momento. “Achamos que mais um aumento é necessário uma vez que os membros do Copom têm reconhecido que o trabalho ainda não está feito e que eles devem se manter vigilantes”, aponta o JP em relatório.
Juros altos por quanto tempo?
A principal mensagem a ser observada no comunicado do Copom é a sinalização do BC sobre o horizonte de manutenção da taxa Selic em patamar contracionista, ou seja, em nível elevado, e por quanto tempo.
No início de setembro, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, surpreendeu o mercado ao afirmar que a batalha contra a inflação não está ganha e que a autoridade monetária “não pensa em corte de juros no momento”. O tom de cautela foi reforçado pelo diretor de Política Monetária, Bruno Serra, em falas posteriores.
“O BC deve reiterar seu plano de voo de manter os juros altos por um longo período, possivelmente descartando corte de juros no início do ano que vem”, apontou a gestora Kinitro Capital em relatório.
A média da projeção dos analistas no último Boletim Focus aponta para um corte da Selic para 11% no fim de 2023.
Para o Santander, o BC pode tentar reforçar a mensagem de que os cortes de juros não estão no horizonte por enquanto, sinalizando um balanço de riscos para a inflação com tendência de piora, como por exemplo no quadro fiscal. O banco espera que a taxa Selic permaneça estável em 13,75% até o primeiro semestre de 2023 , devendo cair para 12% no fim do ano que vem.
Impacto da decisão do Copom nos mercados
Os investidores aguardam a decisão do Copom e do banco central americano (Federal Reserve) para ajustar as apostas no mercado.
Se a decisão vier em linha com o esperado e o Copom mantiver a taxa Selic em 13,75%, sinalizando a interrupção do ciclo de alta de juros sem mostrar grande preocupação com os riscos fiscais e com a resiliência da inflação, o discurso será visto como dovish (menos inclinado ao aperto monetário) e contribuirá para a queda das taxas no mercado de juros, aponta o BTG em relatório.
Já se o BC mantiver a taxa Selic em 13,75%, mas destacar o ambiente mais desafiador para a inflação global, as incertezas fiscais e verificar que a economia está crescendo acima do potencial, indicará que a taxa de juros deve ficar em patamar elevado por mais tempo.
Já se o BC elevar a Selic em 0,25 ponto e encerrar o ciclo de alta de juros com a taxa básica em 14%, deixando em aberto as probabilidades de novos ajustes na taxa de juros a depender de mudanças no arcabouço fiscal no próximo ano, a decisão será vista como mais hawkish (inclinada ao aperto monetário) e pode levar a altas no mercado de juros.
Taxas mais altas são um cenário ruim para a Bolsa, porque aumentam o custo de financiamento das empresas, mas podem ser positivas para o real. Como os juros daqui ficariam ainda maiores que os de outros países, isso deixaria o investimento no Brasil mais atrativo para estrangeiros.