Dando continuidade à tendência dos últimos dias, o mercado seguiu focado nas incertezas em torno da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) de Transição e do Ministério da Fazenda, desta vez reagindo à maiores indícios de que Fernando Haddad pode assumir a pasta. Com isso, os juros saltaram, o dólar disparou e o Ibovespa terminou a semana em baixa de 3,01%.
No pregão desta sexta-feira (18), as perdas foram de 0,76%, aos 108.870 pontos, com R$ 26,28 bilhões em volume negociado. Com a performance desta semana, a queda acumulada pelo índice em novembro aumentou para 6,18%, enquanto o saldo desde o início do ano agora é de alta de 3,86%.
Temores de irresponsabilidade fiscal
O mercado, que já vinha cauteloso nos últimos dias, diante de incertezas em torno do valor das despesas extratexto que serão permitidas pela PEC de Transição, do prazo do pacote e do futuro ministro da Fazenda, passou por momentos de alívio na manhã de hoje, refletindo os esforços do novo governo para sinalizar responsabilidade fiscal aos investidores, segundo Camila Barbosa, assessora de investimentos na Phi Investimentos.
Ao longo da tarde, porém, rumores de que Fernando Haddad (PT), ex-prefeito de São Paulo, possa ser nomeado para o Ministério azedaram o sentimento. “Investidores temem que o novo governo esteja caminhando para uma irresponsabilidade fiscal, provocando um aumento no déficit público e da dívida do governo”, explica Barbosa.
Ainda no plano fiscal, falas do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmando que o BC irá seguir lutando contra a inflação mesmo diante das incertezas também pesaram sobre o índice.
Merece destaque, ainda, uma carta aberta ao presidente eleito assinada pelos economistas Armínio Fraga, ex-presidente do BC, Edmar Bacha, ex-presidente do BNDES, e Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda, reagindo a falas de Lula contrárias à responsabilidade fiscal.
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Do lado positivo, segundo informações da CNN Brasil, os presidentes da Câmara, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco, vem debatendo alterações na PEC que poderiam reduzir drasticamente o impacto fiscal final – de R$ 198 bilhões, a abertura de espaço no Orçamento cairia a R$ 80 bilhões.
Os líderes também teriam a intenção de limitar o waiver (licença para gastar) para no máximo dois anos – o PT queria que os benefícios fossem tirados do teto de forma permanente, mas concordaria com quatro anos.
Além disso, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) deu entrevistas classificando a reação dos investidores à PEC como “momentânea”, e disse que o novo governo discutirá uma nova âncora fiscal para substituir o teto de gastos.
“Não há razão para estresse. O presidente Lula sempre teve responsabilidade fiscal”, disse. À jornalista Miriam Leitão, da Globo, ele exemplificou a possibilidade de revisão de contratos e disse que a reforma tributária que já está em tramitação pode ser aprovada.
Outro fator que aliviou o sentimento dos mercados foi o fato de Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda ter pedido, na tarde de ontem, para deixar a equipe de transição do novo governo, afirmando que sua presença era utilizada por adversários para tumultuar o processo de transição.
Petróleo dá empurrão adicional
Além do cenário político, a forte queda do petróleo no mercado internacional também pesou sobre o índice, por meio da queda das ações da Petrobras. O Brent fechou em baixa de 2,41%, a US$ 87,62 o barril, fazendo com que as ações ordinárias da petroleira (PETR3) caíssem 1,84% e as preferenciais (PETR4) recuassem 1,69%.
A cotação da commodity reage a sinais de excesso de oferta no mercado global, algo que não ocorria em quase um ano, de acordo com Barbosa.
“Questões mercadológicas, como a desaceleração da atividade global, os casos de Covid na China e o fortalecimento do dólar, ocorrido ontem em função da possibilidade de adoção de tom mais hawkish por parte da autoridade monetária do país, são fatores que jogam contra um fortalecimento da commodity” completam analistas da Ativa Investimentos.
Outro fator que pode ter pesado sobre a cotação das ações da estatal, na avaliação da Ativa, foi o anúncio de que a empresa não dará seguimento, no momento, à venda da Refinaria Gabriel Passos (Regap), alegando que as propostas recebidas vieram abaixo do esperado.
Para os analistas da corretora, o novo arquivamento do processo é negativo para a Petrobras, pois mostra que o ambiente para a venda destes ativos continua não sendo o ideal e levanta dúvidas sobre a continuidade dos processos de desinvestimento de outras refinarias.
Altas e baixas do pregão
Apesar de a Petrobras se destacar por seu peso na Bolsa, as maiores baixas do Ibovespa no pregão desta sexta foram ações de setores ligados aos juros, com destaque para construção civil e varejo, impactadas pelo terceiro dia seguido de alta nos juros futuros, aponta Barbosa. Via (VIIA3) e Magazine Luiza (MGLU3), por exemplo, caíram 8,3% e 7,08%, respectivamente.
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O IRB (IRBR3), por sua vez, teve baixa de 8,64%, com os investidores atentos a novo CEO e recomendação neutra do Citi, segundo analistas da Ativa Research.
Do outro lado, dentre as maiores altas do Ibovespa, empresas que viram seus papéis recuarem com intensidade nos últimos pregões ensaiaram uma recuperação. Segundo Benedito, os investidores estão aproveitando a desvalorização recente da Bolsa para fazer algumas posições.
Ela ressalta ainda que sexta-feira é um dia que possui menos fluxo na Bolsa, e que o movimento incerto do Ibovespa reflete as preocupações fiscais dos últimos dias e uma “força compradora” se aproveitando das baixas.
Exterior em alta
Nos Estados Unidos, o assunto do dia foi a repercussão de falas de membros do Fed (Federal Reserve, o banco central americano) realizadas ontem, com destaque especial para a declaração do presidente do Fed de St. Louis, James Bullard, de que a taxa de juros do país poderia chegar a 7%.
Diante disso, os mercados aumentaram suas expectativas sobre o pico da taxa de juros e reduziram a possiblidade de cortes nas taxas no próximo ano.
As bolsas europeias, por sua vez, se recuperaram após a divulgação de dados melhores do que o projetado para analistas de vendas no varejo e confiança do consumidor no Reino Unido.
No fechamento, o S&P 500 tinha alta de 0,48%, o Dow Jones subia 0,59% e o Nasdaq avançava 0,01%. Na Europa, o índice Euro Stoxx 50 somou ganhos de 1,2%.
Criptomoedas
Os criptoativos mantiveram o quadro de estabilidade nesta sexta-feira depois de dias de forte volatilidade causada pelos desdobramentos do colapso da FTX. Apesar da recente calmaria, as cotações das principais moedas ainda estão no nível mais baixo em dois anos.
Por volta das 17h, o Bitcoin (BTC) tinha leve queda de 0,3%, negociado a US$ 16.773, segundo dados disponíveis na plataforma TradeMap. Seguindo o mesmo caminho, o Ethereum (ETH) operava com baixa de 0,7%, a US$ 1.189.
Craig Erlam, analista sênior de mercado da Oanda, ressalta que o clima de tensão sobre a solidez financeira de outras corretoras ainda não se dissipou, e que a confiança dos investidores “pode levar tempo para ser reparada”.
“Não tenho certeza se alguém pode estar confiante de que o pior já passou”, disse, complementando que novas quedas do BTC até a faixa de US$ 15 mil ainda estão no radar.
Com a agenda internacional para a próxima semana esvaziada, os investidores devem buscar por pistas que indiquem os próximos passos da escalada dos juros, principalmente após dados da inflação divulgados nos últimos dias virem melhores do que o esperado.
Na próxima quarta-feira (23), o FOMC (Comitê Federal de Mercado Aberto) divulga a ata da última reunião. O documento deve trazer mais detalhes sobre a última alta de 0,75 p.p (ponto percentual) nos juros pelo Fed (o banco central americano), no início de novembro.