Bye, Bye, Brasil: Gestores de multimercados saem da bolsa brasileira e aumentam posição em ações globais

Casas como Adam, Grimper e Legacy ainda veem boas oportunidades em ações no exterior, especialmente dos setores de tecnologia e financeiro

Com as bolsas americanas batendo recordes de alta em 2021, enquanto o Ibovespa amarga queda de 11% no ano, gestores de fundos multimercados aumentaram a parcela em ações globais, enquanto zeraram e até passaram a ficar vendidos, ou seja, apostando contra a bolsa brasileira.

A Adam Capital foi uma das que aumentou a parcela dos fundos investida em ações globais. “Tradicionalmente, tínhamos dois terços da carteira investidos no exterior e um terço em Brasil, e agora essa proporção passou para 80%-20%”, afirma o sócio fundador André Salgado Essa redução da posição em Brasil foi feita a partir da venda de ações na bolsa doméstica.

A Adam está hoje com posição comprada em bolsa americana, ou seja, apostando na alta, e vendida em bolsa no Brasil, isto é, com potencial para ganhar com a queda das ações domésticas.

“Estamos vendidos em bolsa brasileira devido à dificuldade do Brasil em retomar o crescimento pós-pandemia e por conta do cenário eleitoral, que adiciona um fator de risco, enquanto, lá fora, o mundo está retomando o crescimento em uma velocidade bastante veloz e vemos oportunidades interessantes nos Estados Unidos”, afirma Salgado.

Essa estratégia ajudou o fundo Adam Macro a ter retorno de 3,89% em outubro, contra alta de 0,49% do CDI e perda de 6,74% do Ibovespa. No ano, até 24 de novembro, o fundo sobe 0,91% contra 3,48% do CDI.

A gestora Grimper Capital também zerou a posição em bolsa brasileira e aumentou a alocação em mercados de ações globais.

“Vínhamos com uma posição entre 10% e 15% em bolsa internacional e aumentamos para algo entre 25% e 30%”, diz Sylvio Castro, sócio-fundador e diretor de investimentos da Grimper, que teve passagem pelo Credit Suisse Hedging-Griffo e pelo Goldman Sachs.

O fundo multimercado da gestora, o Grimper Blanc, acumula valorização de 4,52% no ano, até 22 de novembro, contra 3,51% do CDI.

A Legacy Capital também mantinha em outubro a preferência pelo investimento em ações globais e estava com posição vendida em bolsa brasileira, diante da perspectiva de recessão em 2022 e da alta da taxa de juros, que afeta o valor das empresas e acelera a migração dos recursos para renda fixa, conforme destacou em carta aos cotistas.

Bolsas americanas subiram muito; tem espaço para mais altas?

Apesar dos recordes de alta das bolsas americanas, com o S&P 500 acumulando ganhos de 26% enquanto o Nasdaq sobe 23,1%, os gestores ainda veem potencial de alta para as ações nos EUA. “As companhias têm apresentado resultados fortes de lucros nos mercados desenvolvidos”, diz Salgado.

O gestor da Grimper também vê espaço para maiores altas e mantém 17% da carteira comprada em S&P 500 e outros 10% em alocações diversificadas em Europa e um pouco em Índia.

Ações globais de tecnologia subiram , mas ainda estão atrativas

Apesar da forte alta nos últimos dois anos das ações de tecnologia, os papéis das chamadas FAAMGs (Facebook, Amazon, Apple, Microsoft e Google) ainda são considerados atrativos. “As ações de tecnologia estão com múltiplos razoáveis, parecidos com o do índice S&P 500, e há papéis baratos como o do Facebook“, diz Salgado.

O gestor da Adam também vê grande potencial de alta para as ações da Microsoft, que deve ser impulsionada pela tecnologia cloud computing [computação em nuvem]. “Google e Microsof são empresas que se beneficiam das tendências de longo prazo.”

A Grimper também vê boas oportunidades no setor de tecnologia. A gestora tem posições em ações do Facebook e do Google. “O Facebook teve uma mudança de proposta com a tecnologia de metaverso e está mais barato que a média do S&P”, diz Castro.

Ações de bancos devem se beneficiar da alta de juros

Em um cenário em que o banco central americano começa a reduzir a injeção de liquidez nos mercados e se prepara para subir a taxa básica de juros, as ações de bancos estrangeiros são vistas como papéis defensivos, que tendem a se beneficiar desse movimento.

“Temos uma posição significativa em bancos americanos, que estão negociando com múltiplos abaixo do S&P”, diz Salgado.

A Grimper também tem alocação no setor financeiro, por meio de ações do Goldman Sachs e da Coinbase, a maior bolsa de criptoativos dos EUA. “Os setores financeiros, industrial e de materiais básicos foram os que mais sofreram em relação ao S&P e estão muito baratos”, diz Castro.

No caso do Goldman Sachs, Castro destaca que o banco de investimento tem se beneficiado também do crescimento das receitas com assessoria às operações de fusões e aquisições, que têm aumentado.

A Grimper também vê o setor de commodities como promissor no médio e longo prazos, uma vez que a busca por fontes de energia menos poluente deve beneficiar as mineradoras com produção de urânio, cobre e lítio. “Para descarbonizar a energia vamos ter que aumentar a energia nuclear  e vamos precisar de mais urânio”, diz Castro.

A gestora tem uma posição de cerca de 4% da carteira em commodities metálicas e energéticas.

Alta da inflação e de juros nos EUA  são riscos a se monitorar

O aumento da inflação nos Estados Unidos, que traz uma pressão de custo, e a expectativa para o início da alta de juros pelo banco central são riscos a serem monitorados.

Para Salgado, esse aumento da inflação é causado, em grande parte, pelo desequilíbrio entre oferta e demanda na cadeia de suprimentos, o que começa a se normalizar.

“A inflação nos EUA já está muito perto do pico e deve começar a aliviar daqui para frente”, diz Castro, que ainda vê o ambiente favorável para ativos de risco.

Bolsa brasileira está barata, mas não o suficiente para comprar

Apesar de reconhecerem que muitos papéis na bolsa brasileira estão com preços atrativos, as incertezas no mercado doméstico, principalmente no cenário político e fiscal, e as revisões para baixo do Produto Interno Bruto (PIB) no ano que vem ainda trazem volatilidade para o mercado de ações local, o que faz com que os gestores se mantenham cautelosos em voltar a comprar Brasil.

“O cenário eleitoral traz volatilidade, pois não se sabe como vai ser a economia, mas acredito que todos os candidatos têm capacidade para gerenciar o Brasil. O principal problema é o crescimento”, diz Salgado.

Castro, da Grimper, também acredita que a bolsa local está barata, mas ressalta que ainda falta uma sinalização técnica mais forte para a gestora voltar a alocar no mercado de ações. “A bolsa brasileira está hoje com uma relação de risco/retorno melhor, mas muito mais porque está faltando vendedor do que por uma melhora de fato”, diz.

No mercado doméstico, a Adam tem preferido apostar na alta do real contra o dólar e também nos títulos públicos atrelados à inflação (conhecidos por NTN-Bs). “Com o juros real desses papéis acima de 5%. é um bom investimento”, diz Salgado.

Já a Grimper têm buscado oportunidades em títulos de dívida da América Latina, incluindo o Brasil, que hoje estão pagando um retorno de 6% a 7% em dólar, afirma Castro.

Como aproveitar as oportunidades em ações globais

O investidor brasileiro que deseja aproveitar esse movimento de alta de ações no exterior pode comprar recibos de ações estrangeiras em reais no Brasil (BDRs, sigla para Brazilian Depositary Receipts) ou investir em fundos listados em bolsa (ETFs) que seguem os índices de bolsas americanas.

Outra opção é investir em fundos que investem no exterior, como os citados na matéria. Na plataforma do TradeMap há informações sobre as carteiras citadas e outros portfólios. Basta fazer o cadastro gratuito aqui.

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