Bolsa ainda vale a pena com juros acima de 10%? Saiba o que pensam especialistas

Com ações brasileiras baratas, ideal é pelo menos manter a posição em renda variável na carteira; veja recomendações

Maeli Prado

Maeli Prado

De um lado, o Ibovespa subindo quase 7% em janeiro. Do outro, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) elevando a taxa básica de juros, a Selic, para 10,75%, maior patamar desde 2017. Nesse cenário, será que é hora de aumentar a posição em bolsa para aproveitar os múltiplos baixos das ações brasileiras? Ou o momento é de migrar parte dos investimentos para a renda fixa?

A Agência TradeMap consultou especialistas em investimentos, e ouviu que a principal recomendação dada a clientes hoje é pelo menos manter o peso da renda variável na carteira. Quando o assunto é renda fixa, o conselho é apostar em títulos atrelados a índices de preços, já que neste ano a inflação será o grande desafio da economia mundial.

“Não é porque tivemos uma alta da bolsa em janeiro impulsionada pelo fluxo positivo de investimentos estrangeiros que esses investidores vão sair em fevereiro”, avalia o head de análise e sócio da Levante, Enrico Cozzolino. “Estamos vendo um processo positivo para a bolsa local e estamos recomendando manter a posição em bolsa brasileira, que a 112 mil pontos ainda está muito descontada”.

Bolsa descontada traz oportunidade

Apesar de projeções para a Selic quase em 12% para o final de 2022 e da esperada volatilidade por conta das eleições presidenciais, a Bolsa continua atrativa, na opinião dos especialistas, por um motivo simples: as ações brasileiras estão baratas e, na esteira da alta das commodities, atraindo estrangeiros – em janeiro, a B3 registrou saldo de R$ 32,5 bilhões em investimentos vindos de fora.

É só lembrar que em 2021 o Ibovespa caiu quase 12%, enquanto o S&P 500, um dos principais índices mundiais, subiu 27%. Os riscos para a economia brasileira são muitos – entre eles, desequilíbrio fiscal, eleições presidenciais, baixo crescimento ou até queda do PIB (Produto Interno Bruto) e aumento de juros no mundo –, mas gestores identificam um excesso de pessimismo nos preços.

“A bolsa brasileira está super descontada, em parte por causa da elevação da taxa de juros”, aponta Francisco José Levy, fundador da gestora Allea e estrategista-chefe da Vitreo. “Vai melhorar ou piorar? Ninguém sabe muito bem. Mas os investidores estão meio exagerados no pessimismo”.

Ele lembra que o mercado projeta que a Selic ficará no patamar atual por pouco tempo: analistas ouvidos no último Boletim Focus, divulgado em 7 de fevereiro, esperam uma taxa básica de juros de 11,75% no final do ano e de 8% no final de 2023.

“Quando essa queda começar a acontecer a Bolsa vai estar em outro patamar”, avalia Levy. “A hora de entrar é quando todo mundo está um pouco desconfortável, como agora com os juros altos”.

Utilities na mira

Cozzolino, da Levante, vê as ações de utilities, como de empresas do setor elétrico e de saneamento, como ativos mais defensivos para o investidor se proteger da volatilidade da eleição e do cenário de alta da inflação, já que as tarifas dos serviços são atreladas a índices de preços. “Essas empresas pagam dividendos e oferecem proteção contra alta da inflação”, afirmou.

Para ele, após os recordes de alta do S&P 500 o investidor pode aproveitar o momento para realizar parte dos ganhos com o investimento em ETFs (fundos listados em bolsa, os Exchange-Traded Funds, na sigla em inglês) de ações internacionais e aumentar a posição em bolsa brasileira, que ainda está barata. “Mas ainda é interessante ter um percentual da carteira em ativos no exterior como diversificação da carteira”, diz.

A Levante está com uma recomendação de alocação nas carteiras voltadas para os investidores de varejo de 20% em renda variável e 80% em renda fixa para o perfil conservador; 30% em ações e 70% em renda fixa para o perfil moderado e 40% em renda variável e 60% em renda para o perfil mais agressivo.

O UBS também manteve a exposição em bolsa brasileira, além de aumentar a parcela em renda fixa na recomendação de alocação para clientes expostos a ativos brasileiros em um horizonte de sete anos.

Para alocação em bolsa, a recomendação varia de 2% a 40% para os perfis conservador até aquele com foco em renda variável. Já a parcela em renda fixa varia de 77% a 20%. Já a alocação em ativos internacionais foi mantida, variando de 4% a 35% dependendo do perfil de investidor, como opção de diversificação de carteira e que pode render bons retornos nos investimentos em bolsas lá fora.

O banco ainda reduziu a recomendação de exposição a multimercados de 25% para 20% e aumentou a exposição a títulos indexados à inflação e pós-fixados nos perfis de risco conservador, moderado, de crescimento e agressivo. “A redução da alocação em multimercados tem a ver com a questão de risco/retorno, já que essas carteiras têm uma volatilidade maior que a da renda fixa”, diz Ronaldo Patah, estrategista-chefe do UBS Consenso.

Proteção contra inflação

Para Levy, da Vitreo, o melhor movimento para aproveitar o atual ciclo de alta dos juros é “travar” aplicações em títulos de inflação e prefixados de longo prazo. “Como aproveitar esse momento para garantir esse patamar de juros por mais tempo? Você alonga. O ideal é travar esse rendimento em títulos de inflação e prefixados”.

Já Cozzolino, da Levante, vê os títulos públicos e de crédito privado atrelados à inflação, como as debêntures de infraestrutura que são isentas de Imposto de Renda, como alternativas interessantes de investimento. “Aquele discurso de que a inflação alta era algo temporário já caiu por terra, e estamos vendo um aumento das expectativas de inflação”, disse.

A média das projeções dos analistas para o IPCA em 2022 continua subindo e estava em 5,44%, de acordo com o último Boletim Focus, acima da meta de inflação de 5% para este ano.

Na parte de títulos públicos indexados à inflação (NTN-B), Patah, do UBS, vê mais oportunidade no papel com vencimento em 2026.

A tese do banco é que esses papéis estão pagando uma taxa de juros real muito alta, acima de 5%, que pode cair para 4,5% ou abaixo disso se o processo de alta da taxa de juros pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano) for mais lento que o esperado pelo mercado e se não houver nenhum ruptura no cenário fiscal doméstico que possa comprometer a dívida pública.

Para Patah, boa parte do risco fiscal com a discussão de projetos de lei que preveem a redução dos preços dos combustíveis por meio de corte de impostos já está refletida nos prêmios de riscos embutidos nas taxas dos títulos públicos brasileiros. “Não acreditamos que o Congresso vai aprovar nenhum projeto que tenha grande impacto na dívida pública, algo de R$ 100 bilhões nem nada nesse sentido, já que o impacto para o consumidor final não seria muito grande”, afirma.

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