Uma forma de simplificar a complexidade dos fundos de previdência, que apesar de serem instrumentos importantes e sólidos para guardar dinheiro para a aposentadoria, poucas vezes são completamente compreendidos pelo investidor. É assim que o economista Fabio Giambiagi, um dos maiores especialistas em previdência do país, define o novo título público de aposentadoria em estudo no Tesouro Nacional, anunciado em dezembro pelo secretário do órgão, Paulo Valle.
Giambiagi é profundo conhecedor dessa ideia. Ele é um dos autores de um artigo apontado como inspiração para esse novo papel, além de responsável, através da startup Longevità, pela criação de simuladores cujo modelo pode ser usado pelo órgão para viabilizar o título de aposentadoria.
A criação desse novo título permitiria investir no Tesouro Direto ao longo de um período de 30 a 40 anos e ao mesmo tempo guardar recursos para a aposentadoria. Por meio de uma calculadora, o investidor saberia quanto precisa investir mensalmente para receber um valor mensal predeterminado ao longo de 20 anos na velhice.
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“Há uma expressão muito usada pelos economistas, que é assimetria de informações. Em condições normais, o cidadão que vai ao banco procurar um produto de previdência sabe pouquíssimo ou nada sobre essa aplicação, e vai lidar com instituições que vivem disso”, apontou o economista em entrevista à Agência TradeMap. “A assimetria de informações nesse caso é brutal, e o coitado vai acreditar no que o gerente lhe falar. O gerente tem que bater metas, vende um produto hoje, amanhã vende outro”.
Na avaliação de Giambiagi, esse título incrementaria o cardápio de opções de previdência complementar. “A gente, na linguagem futebolística, fez um cruzamento da bola para o Tesouro chutar a gol. Como vai ser, como serão esses simuladores, é claro que quem vai definir isso será o Tesouro. A bola está com eles”, resumiu.
Uma das grandes vantagens do papel em relação a fundos de previdência seria o fato de não existir taxa de administração, que é um custo que pode comer mais de um terço do retorno dessas aplicações.
“Quando os juros eram muito altos, tínhamos uma Selic de 14%, uma taxa de administração de 1% ficava escondida. Isso mudou com a queda dos juros em 2020, e agora a Selic voltou a subir. Mas se os juros voltarem a ficar em um patamar baixo, de 5% ao ano, uma taxa de administração de 1% com juros de 5% não é factível”.
Ele explica que também sempre é bom colocar na ponta do lápis o comportamento previsto para a inflação ao longo das décadas de acumulação – este é um fator que muitas vezes não é contabilizado pelos investidores.
Reserva de avião
É para a ajudar a esclarecer e simplificar os custos envolvidos na economia de recursos para a velhice que a Longevità, fundada por Giambiagi e pela economista Arlete Nese, desenvolveu simuladores em que o investidor coloca qual a renda pretendida para a aposentadoria, e quando pretende parar de trabalhar, e recebe a informação do quanto precisa aportar por mês.
Um exemplo: a calculadora mostra que, para quem começa a acumular recursos aos 30 anos em busca de uma renda mensal de R$ 1.000 a partir de 65 anos, pagar uma taxa de administração de 2% em vez de 1% em um investimento de previdência de renda fixa significa desembolsar 33,3% a mais todos os meses durante a fase de acumulação de recursos.
Esse é um cenário que presume uma inflação anual média de 3% e juros reais (ou seja, descontada a variação de preços do período) de 4% ao ano.
“Nossos simuladores respondem a perguntas. Criamos um modelo parecido com o de reserva de avião. Quero viajar dessa forma, e aí aparece o resultado. Ou nesse caso, quero uma renda de determinado valor após me aposentar, quanto preciso guardar por mês para atingir esse resultado?”, explicou Giambiagi.
Esse é o modelo que pode ser usado pelo Tesouro para a estruturação do novo título.
“Esse sistema é a anti-caixa-preta, que você não sabe como funciona. Se tiver uma suspeita de que o que foi apresentado pelo gerente de banco, por exemplo, não é verdadeiro, pode checar nos nossos simuladores”, afirmou o economista. “A beleza da matemática financeira é que ela expõe a verdade nua e crua”.