Na “prévia do PIB”, juros altos e endividamento freiam atividade econômica em agosto

Indicador de atividade do Banco Central caiu 1,13% apesar do bom desempenho de serviços

Foto: Shutterstock/rafastockbr

O mau desempenho do comércio e da indústria em agosto pesaram no IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central), indicador apelidado de “prévia do PIB” que mostrou uma queda de 1,13%, bem mais do que o recuo de 0,30% esperado por analistas de mercado.

Para economistas, o dado indica que o forte aumento na taxa básica de juros, a Selic, e o endividamento elevado da população têm colocado um freio na atividade econômica, restringindo a venda de bens.

Os serviços tiveram um desempenho melhor que o esperado no mês retrasado – segundo dados do IBGE, a alta foi de 0,70% – mas isso não foi suficiente para contrabalancear as más notícias vindas dos outros setores.

O IBC-Br incorpora projeções para serviços, comércio, indústria e agropecuária, bem como o impacto dos impostos sobre os produtos.

“Há uma desaceleração muito forte dos componentes mais cíclicos da atividade [ou seja, aqueles que dependem mais de variáveis macroeconômicas]. Isso provavelmente sinaliza efeito dos juros altos e do elevado número de endividados”, aponta Lucas Maynard, economista do Santander.

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Varejo e indústria em queda

As pesquisas de comércio e indústria do IBGE já haviam apontado recuo no mês retrasado: as vendas do varejo registraram leve queda de 0,1% na comparação com julho, o menor patamar de 2022 e o terceiro mês seguido sem avanço.

Já a produção industrial caiu 0,6%, eliminando a alta registrada em julho e ainda 1,5% abaixo de fevereiro de 2020, patamar pré-pandemia. Apesar disso, a receita do setor de serviços aumentou 0,7% em agosto.

Para o economista do Santander, o IBC-Br acabou não sendo tão influenciado pelo bom desempenho de serviços porque o indicador pondera o peso de alguns segmentos de forma diferente do registrado nas pesquisas do IBGE.

“O setor de bens está claramente mais fraco, os trackings para o varejo em setembro mostram quatro quedas consecutivas. E a indústria também está bem fraca no terceiro trimestre”, aponta Maynard.

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Nesse cenário, o Santander espera uma desaceleração do PIB do terceiro trimestre, com expansão de 0,7% – no segundo trimestre, o avanço foi de 1,2%.

Na avaliação da consultoria britânica Pantheon Macro, a queda do indicador do BC foi puxada pela fraqueza nas vendas do varejo e da indústria, “que eclipsaram totalmente a força do setor de serviços.”

Apesar disso, a consultoria espera uma recuperação nos próximos meses, fazendo a ressalva de que o cenário externo ruim, com as grandes economias subindo juros para conter a inflação, permanece como uma ameaça.

Serviços se mantém como driver

Os serviços, que estão bem acima do patamar pré-pandemia, devem continuar puxando a economia. “A atividade de serviços atenuou parte do desempenho do comércio em serviços, com o setor crescendo 0,7%”, afirmou a equipe da Pantheon em relatório. “A performance relativamente boa de indicadores de confiança sugere que esse setor permanecerá um driver da recuperação da economia no curto prazo.”

Para o Bank of America, os efeitos do aumento da Selic, atualmente em 13,75% ao ano, foram sentidos com mais força em agosto, apesar do aumento do Auxílio Brasil e da deflação registrada no mês.

“O cenário externo se mantém desafiador, em um cenário de inflação alta e taxas de juros crescentes”, disse o banco em relatório. Apesar disso, a instituição se mantém otimista quanto à atividade brasileira, e mantém sua projeção de alta de 3,25% do PIB em 2022.

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