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Brasil pode ter maior deflação da história em julho, mas movimento será exceção; entenda

Brasil pode ter maior deflação da história em julho, mas movimento será exceção; entenda

Com redução do ICMS, queda de preços será a primeira desde maio de 2020, no auge da pandemia

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Guerra entre Rússia e Ucrânia, mais lockdowns na China e uma atividade econômica acima da que vinha sendo esperada pelo mercado. Em outras palavras, uma tempestade perfeita de pressões inflacionárias, mas nem isso deve impedir o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de registrar a maior deflação da história em julho.

Na avaliação dos principais bancos do país, esse será o efeito da redução da alíquota de ICMS de combustíveis, energia elétrica, telecomunicações, transporte coletivo e gás natural. Em junho, o Congresso aprovou um projeto estabelecendo um teto de 17% para a alíquota do imposto estadual, mudança que já foi acatada por pelo menos 20 Estados.

Para o Itaú Unibanco, isso fará com que os preços caiam 0,65%. Para o Bradesco, a queda será de 0,85%, e para o Santander o tombo será ainda maior, de 1,25%.

“Acho que tem o risco de vir até mais do que isso, porque há algumas incertezas. Estou considerando que os postos de combustíveis repassarão 70% da queda de imposto, mas se repassarem tudo, o impacto pode ser ainda maior”, aponta Daniel Karp, economista especializado em inflação do Santander. “Outra incerteza é sobre quais itens do IPCA de telecomunicações serão de fato afetados. Selecionei alguns, mas podem ser mais.”

Se confirmada, essa será a primeira deflação no Brasil desde maio de 2020, quando no auge da pandemia os preços recuaram 0,38%. E se vier no nível esperado por economistas, a queda de preços será a maior da série histórica iniciada em 1994 – a maior queda do IPCA até agora foi em agosto de 1998, quando o índice caiu 0,51%.

 

Inflação muito acima da meta

A queda nos preços neste mês já levou a uma redução na inflação prevista para todo o ano de 2022, que mesmo assim ficará bem acima do teto da meta para o ano, de 5%. Isso porque o alívio nos preços será pontual, e a partir de agosto o IPCA voltará a apontar para a sua direção tradicional, ou seja, para cima.

“Deve ter uma deflação em julho, mas ela não se sustenta. O petróleo está subindo, e o câmbio vem sendo pressionado pelos erros fiscais do governo”, diz Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Ele se refere ao fato de que, na semana passada, o Senado aprovou a proposta que eleva o Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600, institui um auxílio a caminhoneiros de R$ 1.000 e eleva o valor do vale gás para famílias de baixa renda. As mudanças devem ser votadas na Câmara nesta semana, a um custo de mais de R$ 40 bilhões aos cofres públicos até o final de 2022.

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Apesar do economista da MB acreditar em uma deflação de 0,5% a 0,6% neste mês, manteve sua projeção de um salto de 8,7% no IPCA do ano. “Há uma defasagem muito grande nos combustíveis. Passada a eleição, a Petrobras deve reajustar os preços da gasolina, e isso vai bater na inflação de 2022”, argumenta.

Para as equipes de macroeconomia do Itaú e do Bradesco, o indicador ficará em 7,5% no final do ano. Antes da redução generalizada do ICMS pelos Estados, os dois bancos esperavam um aumento ainda maior, de 8,7% e 9%, respectivamente, nos preços.

O Santander também reduziu sua projeção para a inflação de 2022, de 9,5% para 7,8%. “Muitas casas estão com uma projeção menor para o IPCA. Mas acredito que todas essas medidas que serão aprovadas, com a ampliação de auxílios, estimularão a inflação”, aponta Karp. “Além disso, boa parte desse alívio no ICMS, na nossa visão, será usado para consumo, o que também estimula a alta de preços”.

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IPCA de 2023 será maior

Se o governo reduziu a inflação de 2022 ao conseguir aprovar no Congresso um limite para a cobrança de ICMS, aumentou por outro lado a alta de preços esperada para 2023.

Isso porque, no pacote para aliviar a inflação de combustíveis, o governo federal também zerou a cobrança de PIS e Cofins, que são impostos federais, sobre o diesel e o gás de cozinha. O problema é que essa foi uma redução temporária, válida somente até o final deste ano. Ou seja, no ano que vem, esses tributos voltam a ser cobrados, colocando pressão na inflação.

O Bradesco, por exemplo, subiu sua expectativa para o IPCA do ano que vem de 4,1% para 4,9%. “Os impostos federais sobre gasolina e etanol devem retornar em janeiro do próximo ano, adicionando mais alguns pontos na inflação”, afirmou a equipe de macroeconomia do banco em relatório.

Pela mesma razão, o Santander também elevou sua projeção para a inflação de 2023, de 5,3% para 5,7%. “Por um lado, o IPCA menor de 2022 vai ser carregado para 2023. Se a inflação subir menos, vamos dizer, 8%, os salários no ano que vem vão ser reajustados por 8%, os contratos também, e por aí”, exemplifica Karp. “Por outro lado, os impostos federais sobre combustíveis voltarão a ser cobrados, e esse efeito terá um impacto maior”.

Como o aumento da taxa básica, a Selic, pode levar até cinco trimestres para ter efeito sobre o IPCA, atualmente o Banco Central está tomando suas decisões sobre juros de olho em 2023, quando a meta de inflação é ainda mais apertada: de 3,25%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto para cima ou para baixo.

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A inflação do ano que vem teria que ser de no máximo de 4,75%, mas tudo indica que esse objetivo será bastante difícil de cumprir, ainda mais em um cenário de risco cada vez maior para as contas públicas.

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