A maior posição da carteira teórica do índice Ibovespa tem mais um incentivo à Bolsa brasileira. Na noite da última quinta-feira (25), a Vale (VALE3) reportou mais um sólido resultado, auferido entre outubro e dezembro de 2021.
O lucro líquido da mineradora foi de US$ 5,4 bilhões no período, alta de 630% em relação ao reportado no mesmo período de 2020. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado, sem as despesas de Brumadinho, atingiu a forte marca de US$ 6,95 bilhões.
O resultado da companhia foi possibilitado pela venda de 82,5 milhões de toneladas de minério de ferro, o maior volume para um quarto trimestre.
A operação de metais básicos tem sido um dos fortes geradores de valor da empresa, e apresentou mais um robusto balanço. O Ebitda do segmento atingiu US$ 811 milhões, um montante US$ 306 milhões maior que no terceiro trimestre.
Isso mesmo com a produção menor na comparação com o mesmo período de 2020, tanto para níquel (-8,5%) como para cobre (-17,6%). A empresa afirmou que essa desaceleração foi pressionada por eventos não recorrentes, como paralisações e atividades de manutenção em alguns locais.
Segundo informou o CEO da Vale, Eduardo Bartolomeo, na teleconferência de resultados na manhã desta sexta-feira (25), a companhia mostrou diligência e forte geração de caixa no último trimestre do ano passado.
E de acordo com a empresa, o bom momento para os metais mundo afora não deve ser influenciado por eventuais interferências da China nos preços de mercado.
A Vale, segundo os executivos que participaram da conversa com os analistas, têm demanda por oferta de minério de ferro.
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A mineradora mantém relações próximas com os clientes chineses e entende que os negócios continuarão fortes daqui para frente, sobretudo pelos recentes incentivos do país asiático à aceleração do crescimento econômico.
O guidance de produção de minério para 2022 está em 320 milhões a 335 milhões de toneladas. A despeito das fortes chuvas e perdas em operações em boa parte do primeiro trimestre deste ano, a empresa está confiante em bater a projeção ao fim do ano.
Tensões geopolíticas aquecem mercado
A produção de níquel deveria ter tido um melhor resultado no quarto trimestre de 2021 se não fosse pela crise energética na China e problemas operacionais na Rússia. O país liderado por Vladimir Putin é um dos grandes produtores de níquel e agora está em guerra com a Ucrânia.
O mercado das commodities segue de olho nos desdobramentos da invasão russa ao país vizinho, o que pode gerar interrupções à cadeia de suprimentos da região, além dos efeitos econômicos das sanções, que já estão sendo instauradas.
No que se refere ao níquel, a Vale afirma que tem demanda por oferta suficiente para superar as incertezas de curto prazo. Os estoques estão baixos, o que sugere que haverá fortalecimento dos preços.
Os efeitos, por ora, são especulativos, com a chance de restrição da oferta da matéria-prima crescendo a cada dia. E mesmo antes do conflito geopolítico, a mineradora brasileira diz que já observava um cenário favorável em relação a preços.
Vale ressaltar que o níquel é visto como driver de geração de valor para os próximos anos, com a ascensão da eletrificação de veículos e energias renováveis. A Vale já demonstrou ambição de ser referência no fornecimento do produto a empresas desses ramos.
Já no âmbito de pelotas, a tensão deve gerar alta volatilidade das cotações. A Rússia produz 10% da oferta da matéria-prima do mundo, enquanto a Ucrânia representa 15%.
Por isso, já é esperado que haja uma interrupção nas plantas do Leste Europeu, enquanto a produção ocidental continua a todo vapor. Por quanto tempo, ainda não se sabe.

A Vale tem sido contatada por agentes do mercado europeu que têm interesse na produção de pelotas. A situação deve ajudar os preços praticados pela empresa, mesmo que os volumes se mantenham conforme o projetado inicialmente.
Dividendos da Vale
Junto ao resultado, a Vale divulgou a distribuição de US$ 3,5 bilhões (cerca de R$ 17,93 bilhões) em dividendos, o equivalente a R$ 3,70 por ação ordinária. O pagamento refere-se ao exercício do ano de 2021, e terá a data de ex-dividendos em 9 de março.
Na teleconferência, a companhia ressaltou o fato de que 95% de sua geração de caixa no ano passado foi transferida aos acionistas, com o pagamento de dividendos ou então recompra de ações.
Isso mostra que a direção da Vale tem tratado seus investidores como parceiros e entende que suas ações estão num patamar considerado abaixo do valor justo.
O nível de endividamento adequado da empresa, possibilitado pela venda de ativos, melhora dos negócios e diligência da alocação de capital, abre caminho para que o pagamento aos investidores não pare por aí.
Relação direta entre maior geração de caixa e queda da alavancagem da Vale

A Vale, que faz parte do top 5 das mineradoras de todo o mundo, é reconhecida por ter minério de ferro de alta qualidade.
Na visão da empresa, o mundo passará agora por um flight to quality, pagando prêmio maior pelos produtos de qualidade. Minério com o nível de pureza do calibre da Vale está com oferta reduzida, o que coloca a empresa numa benéfica posição.
As novas provisões foram o ponto de interrogação do balanço. Recentemente, a Justiça decidiu aumentar o universo de pessoas elegíveis a receberem indenizações acerca do rompimento da barragem da Samarco, forçando uma provisão de US$ 1,1 bilhão.
Adicionalmente, houve a provisão de US$ 1,7 bilhão referente a descaracterização de barragens.
A Vale fez questão de salientar na teleconferência de resultados que está confortável com esse nível de provisões e que elas estão em linha com o que é considerado justo, precavendo a empresa de surpresas à frente.
Isso não impediu as ações da Vale de terem, inclusive, bom desempenho no pregão desta sexta-feira (25). Por volta das 13h20, os papéis da companhia subiam 2,40% na B3, a R$ 89,60.
O valor ainda está ligeiramente abaixo do preço-alvo mediano apresentado na plataforma do TradeMap, de R$ 98,86. Dos 11 analistas que acompanham a Vale, segundo a Refinitiv, sete recomendam a compra das ações.